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  • 22.2.06
    Confissão religiosa:

    Deus ama-me. Isto compensa sobejamente o facto de que ele não existe.

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    9.4.04
    Sacrifício ou Ressureição?

    Qual é a razão teológica do facto de que para os evangélicos - assim pelo menos aprendi - o feriado mais alto do ano é a Sexta-feira Santa, e para os católicos o Domingo da Páscoa, o dia da Ressureição?

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    8.4.04
    "E saiu e chorou amargamente."

    Essa é a frase que talvez mais me comove em toda a Paixão...

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    27.3.04
    Fora do Paraíso

    Quando os Primeiros Homens comeram da árvore do conhecimento, não só descobriram o Bem e o Mal. Descobriram uma coisa ainda mais elementar: a Dúvida. Descobriram que as coisas podiam ser diferente.*
    Esta descoberta era tão terrível como a expulsão do Paraíso. Se calhar ela mesma era isso: a expulsão do Paraíso.
    E quem não queria voltar atrás? - Só que isso é impossível. Não há forma de eliminar a dúvida uma vez que ela se instalou. Suprimi-la, ignorá-la, por algum tempo. Mas jamais fazer desaparecê-la.
    Não existe caminho de volta. O Paraíso está atrás. Todos os caminhos, em frente.

    Carregando o seu castigo, isto é, o fardo da dúvida, do saber de alternativas, o Homem também carrega o que pode vir a ser a sua dignidade.
    Só quem tira a vista da costa, da terra firme das Verdades, em que, de qualquer maneira, jamais irá por pé, só quem vira a vista para frente, pode ambicionar a sua dignidade e tem direito à esperança incerta de - eventualmente - encontrar algo além.

    (* É essa a informação a que tenho acesso.)

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    3.2.04
    Aquele?

    Quando me começaram a falar dele,
    reconheci o brilho nos seus olhos...
    E ao longe
    parecia mesmo ser ele.
    - Oh, irmãos!

    Mas nos seus relatos, ele
    ganhou contornos, um perfil
    estranho e sinais
    confundíveis.

    Já não sei.
    Quem vi em tempos, vi
    muito nitidamente, com muita clareza, mas não,
    não sei descrevê-lo.
    Não me esqueci: já então
    não consegui descrevê-lo.

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    24.1.04
    Stehe auf und wandle!
    sprach der, der da gekommen war,
    ganz ungerufen.

    Und siehe:
    Wirklich
    zog der Krüppel da
    die Krücken aus dem Sand
    und humpelte für eine Weile
    ausser Rand und Band
    mitten durch die Innenstadt.
    Taubselig,
    freigespottet,
    seinen Namen preisend.

    Wahrlich, nie
    haben wir ihn so die Krücken schwingen sehn.

    ________

    Levanta-te e anda!
    disse ele, que tinha vindo,
    não chamado de todo.

    E vejam:
    Realmente
    tirou o aleijado
    as muletas da areia
    e coxeou por algum tempo
    desenfreadamente
    mesmo pelo centro da cidade.
    Surdo-feliz,
    gozado-livre,
    louvando o seu nome.

    É verdade: Nunca
    o vimos mexer as muletas assim.

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    14.1.04
    What is to be done, O Moslem? For I do not recognize myself.
    I am neither Christian, nor Jew, nor Parsi, nor Moslem.
    I am not of the East, nor of the West, nor of the land, nor of the sea;
    I am not of Nature’s workshop, nor of the circling heavens.
    I am not of earth, nor of water, nor of air, nor of fire;
    I am not of the Heavenly City, nor of the dust, nor of existence, nor of entity.
    I am not of this world, nor of the next, nor of Paradise, nor of Hell;
    I am not of Adam, nor of Eve, nor of Eden or of Eden’s angels.
    My place is the Placeless, my trace is the Traceless;
    ‘Tis neither body nor soul, for I belong to the soul of the Beloved.
    I have put duality away, I have seen that the two worlds are one;
    One I seek, One I know, One I see, One I call.
    He is the first, he is the last, he is the outward, he is the inward;
    I know none other except “O he” and “O he who is.”
    I am intoxicated with Love’s cup, the worlds have passed out of my ken;
    I have no business save mind’s carouse and wild revelry.
    If once in my life I spent a moment without thee,
    From that time and that hour I repent of my life.
    If once in this world I win a moment with thee,
    I will trample on both worlds, I will dance in triumph forever.


    (Jalal Al-Din Rumi - 1207-1273)

    In Martin Buber: Ecstatic Confessions

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    5.1.04
    OBEN GERÄUSCHLOS, die
    Fahrenden: Geier und Stern.

    Unten, nach allem, wir,
    zehn an der Zahl, das Sandvolk. Die Zeit,
    wie denn auch nicht, sie hat
    auch für eine Stunde, hier,
    in der Sandstadt.

    (Erzähl von den Brunnnen, erzähl
    von Brunnenkranz, Brunnenrad, von
    Brunnenstuben - erzähl.

    Zähl und erzähl, die Uhr,
    auch diese, läuft ab.

    Wasser: welch
    ein Wort. Wir verstehen dich, Leben.)

    Der Fremde, ungebeten, woher,
    der gast.
    Sein triefendes Kleid.
    Sein triefendes Auge.

    (Erzähl uns von Brunnnen, von -
    Zähl und erzähl.
    Wasser: welch
    ein Wort.)

    Sein Kleid-und-Auge, er steht,
    wie wir, voller Nacht, er bekundet
    Einsicht, er zählt jetzt,
    wie wir, bis zehn
    und nicht weiter.

    Oben, die
    Fahrenden
    bleiben
    unhörbar.


    (Paul Celan)
    ___________

    EM CIMA, SILENCIOSOS, os
    viagantes: Arbutre e astro.

    Em baixo, depois de tudo, nós,
    dez de número, o povo areia. O tempo,
    como que não, ele tem
    uma hora tambem para nós, aqui,
    na cidade areia.

    (Conta dos poços, conta
    da coroa dos poços, da roda dos poços, das
    tavernas dos poços - conta.

    Conta e conta, as horas,
    tambem essas, esgotam.

    Água: que
    palavra. Nos entendemos-te, vida.)

    O estrangeiro, inconvidado,
    o hóspede.
    Seu vestido molhado.
    Seu olho molhado.

    (Conta nos de poços, de -
    Conta e conta.
    Água: que
    palavra.)

    Seu vestido-e-olho, ele está,
    como nós, cheio de noite, ele mostra
    juízo, ele conta agora

    até dez, como nós,
    e não mais.

    Em cima, os
    viagantes
    continuam
    inaudiveis.

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    3.12.03
    Aditamento

    Os católicos poderão dizer-me que não posso eliminar a igreja, dois mil anos de teologia com uma penada.
    Não o faço. A igreja é um edifício imponente e maravilhoso, todo ele iluminado e aquecido pelo núcleo quente, que é a experiência religiosa. Ele dá abrigo a muitos, e bem, porque é aterradora a exposição à essa experiência. E esta casa está cheia de sabedoria sobre como relacionar-se com ela, orientações sobre o que fazer desta experiência no dia a dia.
    Também pode ser e é – verdade seja dita -, para outros, uma prisão.
    Mas o que é importante, ela está construída em volta deste núcleo, não se alicerça nele. Ainda ninguém me demonstrou e não creio que uma vez me poderá demonstrar, que ela é o desenvolvimento natural é necessário deste núcleo. Há aqui uma fenda que só é ultrapassado pela invocação da autoridade.
    E também não é necessário ter estudado história religiosa comparativa, para perceber, que a igreja católica não é o único edifício construído em volta deste núcleo.
    Sobre o que esta e outras igrejas têm feito na história para se assumir como único edifício, não quero falar agora...

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    2.12.03
    Sobre a fé (não só a católica)

    Uma resposta ao Ivan

    Antes de mais devo dizer que não sou católico: Sou protestante, e mesmo isso só culturalmente, porque acho que estou já demasiado longe dos credos protestantes e até cristãos em geral; embora também estou convencido de que as referências continuarão acompanhar-me, queira não queira, até ao fim da minha vida.

    Decidi tentar responder, mesmo assim, à sua pergunta por duas razões:
    A primeira é que em Portugal o termo católico e crente são utilizados frequentemente como sinónimos, e talvez isso será o caso aqui também.
    A segunda é que me intrigou e intriga essa mesma questão já ha muito tempo, e confesso que já não me sinto tão longe de uma resposta. É essa que quero tentar esboçar aqui.

    Peço para admitir, provisóriamente, uma hipotese de trabalho: O sentimento (palavra certa?) religioso é o sentimento de amor que se libertou do seu objecto amado. (Quem ama normalmente não sabe ou não quer saber, mas o milagre do amor não está no amado mas em quem ama...).

    Isso explicaria porque o Ivan não obtem respostas das pessoas crentes a quem pede explicações. Já uma vez ouviu de uma pessoa que ama uma explicação convincente do seu amor? – Essa ou fica calada, por pudor, ou, se lhe falta o juizo (coisa frequente nestas circunstâncias...) começa a elogiar as qualidades da pessoa amada, o que pode ser encantador ou divertido para quem ouve e não ama, porque costuma ser só o amante quem as vê.
    Agora se o objecto do amor for inexistente ou afastado ou desconhecido (Deus), o discurso não ganha clareza por isso. Mas o amor naõ é menos forte e real, pelo facto de lhe faltar sustento racional. Todos sabemos, que é a força que pode levar uma pessoa a fazer – e sentindo se feliz por isso – quase tudo. Não quase: Mesmo tudo.

    Em sociedades fechadas houve e há maior facilidade de falar sobre o objecto do amor, porque o objecto existia (existe), de forma afastada e inatingível. Nestas sociedades construiu-se um consenso (quase) geral não só sobre a sua existência como sobre os seus aspectos. Deus era uma pessoa concreta, com qualidades, rosto, o que facilitava a projecção: Assim as mulheres (freiras) podiam amar de uma forma muito mais concreta e doce o seu salvador, e os homens (frades) a virgem Maria - e ao contrário se for o caso, claro... (De passagem: Deus também pôde chamar-se Enver Hodxa ou Saddam Hussein...)

    Mas a pergunta era outra:
    Como é que podem pessoas inteligentes, com os dois pés assentes na terra, hoje insistir na sua fé?
    A resposta é simples: porque a fé é real, o amor é real. E perante esta realidade pouco importa que as descrições não acertam. E mesmo se importa: Melhor uma – essa – descrição do que nenhuma.

    Como descrever a cor de uma coisa sem cor, descrever a forma de uma coisa sem forma?
    Durante toda a histórioa da civilização, houve muitas pessoas, representantes das diversas religiões, que admitiram essa impossibilidade. São os místicos. Os místicos têm geralmente mã fama, tanto entre os racionalistas, por razões óbvias, como dentro das próprias religiões, às quais pertencem, pela sua característica antisocial e subversiva. Porque se baseiam na sua experiência, e não na doutrina, como as igrejas gostassem. Não se baseiam também na razão: Baseiam-se, e só, na experiência. (E essa experiência é forte, tão forte que resiste frequentemente aos apelos da razão, à meios de dissuasão mais fortes como p.Ex. à ameaça da fogueira, ou –o que hoje deve ser o mais vulgar - de um tratamento psiquiátrico.)

    Acho que esse amor solto, à procura do seu objecto, esse sentimento religioso, é uma parte essencial da nossa condição humana, à qual estamos todos, de uma forma mais ou menos intensa, de uma forma mais ou menos filtrada, sujeitos.

    E essa energia foi desde sempre tão grande, que as sociedades desenvolveram desde os primeiros dias instituições para as canalizar, domar, controlar: As igrejas (não só as cristãs, claro). As igrejas tentam fazer a ponte entre o divino e a realidade social. Tentam meter ordem naquela perigosa energia à solta. E para isso elas têm que explicar, tem que desenvolver o que não tem desenvoltura, dar estrutura ao que não tem estrutura. Tem que inventar um discurso para explicar...
    Também há aqui um desejo compreensivel. Nem todos querem viver com essa incerteza, queriamos ter um objecto amado, sentiriamo-nos mais seguros se o objecto fosse reconhecido por todos. Boas razões para construir Deus.

    Assim as pessoas aceitam. E as pessoas informadas, na falta do melhor, aceitam também estes sistemas explicativas como referente à uma coisa, de cuja existência estão mais ou menos certo, por experiência (por evidência), sem ter provas e muitas vezes assumindo conscientemente uma quebra óbvia na sua concepção racional que têm da vida em todo o resto.

    O Ivan tem razão: É o Pai Natal. Os crentes (mais informados) sabem que o Pai Natal não existe assim. Mas sabem que este Pai Natal está mais próximo da sua Verdade do que Pai Natal nenhum.

    O meu ponto é esse: Deus pode ser – é – uma construção social, mas o Divino, o essencial, o amor não é!
    Mas mesmo sabendo isso, também eu não consigo, como recomendam os místicos radicais, viver desprezando todos os sistemas explicativas, apoiado em nada, no Nada, e vou construindo o meu sistema explicativo, como muletas, para atravessar essa vida.

    Sei que este pequeno exercício de bricolage psico-sociológico não tem valor científico nenhum.
    Sei que deixa em aberto muita coisa, por exemplo o Bem e o Mal, a vida apos a morte etc. Em relação ao Bem e o Mal só um apontamento: Acho que a energia proveniente do amor é boa na sua essência (talvez por ser uma pessoa com uma atituda genericamente positiva em relação à vida), mas o seu emprego, nas religiões, ou de uma forma mais genérica, nas sociedades, nem por isso: Porque o sentimento do amor, do Bem, não leva automáticamente a comportamentos que favorecem o Bem. Os comportamentos continuam fortemente condicionados por mecanismos psico-sociais, e podem fazer estragos terríveis, através da lógica inclusão / exclusão (amigo / inimigo), de uma maneira radical e perversa. De tal maneira que eu acredito que, por exemplo, quem se faz explodir numa esplanada dum café em Tel Aviv, faz o Mal, mas fá-lo por amor.

    Espero ter podido de fazer me entender, o que não é fácil nestas matérias, e que o que escrevi não lhe parece também um pensamento fantasioso que faria mais sentido em crianças de quatro anos de idade. Não tenho mesmo a certeza. Mas deste risco sabia antes de escrever este post.

    Mais uma vez as minhas desculpas por ter respondido, sem ser católico, - e às eventuais pessoas, cujos sentimentos religiosos possa ter ofendido: Não era a minha intenção.

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