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18.3.07
![]() ![]() ![]() Até hoje não sabia da existência de Irene Sendler. Agora sei, devido a um artigo do Spiegel. Irene Sendler era enfermeira quando os Nazis ocuparam Varsóvia e iniciaram a perseguição sistemática dos judeus. Começou a sua actividade de resistência ao falsificar documentos para possibilitar a judeus necessitados de continuar de beneficiar da segurança social. Em 1940, após o internamento dos judeus no gueto de Varsóvia, isso deixou de ser possível. Sendler e as suas colegas conseguiram então arranjar documentos que as autorizavam visitar o gueto regularmente, como técnicas de saúde, devido ao medo que os nazis tinham de epidemias, para quais as condições no gueto eram obviamente propícias. Quando em 1942 começaram as deportações para os campos de extermínio, Sendler criou um plano para salvar as crianças do gueto. Para que elas, depois da guerra, constituissem o núcleo duma nova vida judia, e assim contrariar o objectivo dos Nazis da aniquilação de tudo que era judeu. Contactou com a Zegota, uma organização de resistência que unia judeus e não judeus, e o director desta organização convidou Irene Sendler de criar e dirigir então o “departamento Crianças”. No gueto, iam de família em família e disseram-lhes que tinham a possibilidade de levar as crianças, clandestinamente, para fora. Muitos pais e mães não conseguiram separar-se dos seus filhos, e frequentemente, quando as enfermeiras voltaram no dia seguinte, para persistir na tentativa de convecê-los, já não encontraram ninguém. No total foram assim salvas cerca de 2500 crianças. Saíram escondidas debaixo da maca da ambulância, através do edifício do tribunal, que tinha uma entrada para a porta do gueto e outra para o lado “ariano”, ou pela canalização. Algumas foram anestesiadas com soporíferos e levado em sacos ou malas. As crianças foram primeiros levadas para “centros de segurança” clandestinos, onde lhes ensinaram de comportar-se como crianças polacas não judeus, depois foram distribuídas, com nova identidade, para famílias, orfanatos e conventos. Os nomes das crianças Irene Sendler guardou, em código, em papel de cigarro, que enterrou em garrafas no quintal. Assim queria assegurar a possibilidade da posterior restituição às suas famílias originais, que, como se sabe, todavia quase nunca sobreviveram. No 20 de Outubro 1943 a SS prendeu Irene Sendler na sequênçia duma denúncia. Desmontaram a sua casa até às fundações, mas não encontraram as listas. E Irene Sendler não cedeu os nomes nem na tortura, quando lhe esmagaram os pés e lhe partiram ambas as pernas. Foi condenada a morte, mas pouco antes do fuzilamento, a Zedoka conseguiu subornar um guarda da SS que a espancou e atirou para fora do camião que a ia levar para a execução. Conseguiu manter-se na clandestinidade até ao fim da guerra. Em 1965 foi homenageada por Israel, em Yad Vashem, como uma “justa entre os povos”. Mas na Polónia, nos cinquenta anos que se seguiram à ocupação nazi, ninguém lhe ligava muito. Era uma resistente, mas não era comunista. Só nos anos noventa começou a ser reconhecida no seu país e objecto de merecidas homenagens. Mas ela não se sente heroína. Diz que ainda hoje sofre com a sua consciência: porque não fez mais e melhor do que fez. Não foi eu que foi salvo por ela, mas mesmo assim, mais do que admiração lhe tenho ainda gratidão: São pessoas como Irene Sendler que são, como alguém disse, a beleza do nosso mundo. (Mais sobre Irene Sendler aqui, em inglês.) Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral 2.2.07
Carlos, na barriga da mulher grávida não está nenhuma criança. Ela está na tua cabeça. Ou na cabeça da mãe. Se está na cabeça da mãe, ela está na barriga, existe mesmo de verdade, merece todo o amor e protecção. Mas se só está na tua cabeça, e não na dela, não está na barriga da mãe. É verdade, o que temos na nossa cabeça existe mesmo, é real. Mas não tens o direito de plantar as criaturas da tua cabeça na barriga duma mulher sem o seu consentimento. Pois ela tem razão, a barriga é dela. 27.1.07
Não me iludo sobre que o que tenho argumentado aqui nos últimos posts, parece a muitos excêntrico, far out, em bom americano, ou louco, em bom português. Mas as reacções foram até menos violentas do que antecipava, e limitavam-se em regra ao escárnio bem-humorado, ou, como suspeito ser o caso de amigos mais delicados, um silêncio incomodado de discordância fundamental. Eu compreendo: O que aqui exploro, as consequências lógicas dum critério que continuo a achar excelente e adequado, podem estar bem deduzidas mas elas simplesmente don’t feel right! Comparar um bezerro a um embrião humano? Dar-lhe até mais valor? - Há límites no livre raciocínio. Isto é um: Ainda hoje comi costeletas de vitela, e amanhã então terei de comer bebé por nascer estufado? Posso acalmar os meus críticos (e a mim próprio): Virava-se me o estômago. E ficava mal, muito mal, não dormia por sentir-me tão culpado, se o fizesse. Sendo assim, devia dar o assunto então por encerrado? Dar por provada a invalidade do meu critério de consciência e sentimentos? Da ética da solidariedade no sofrimento, sem mais distinções de quem sofre? Sem vocação para missionário, comodista e preguiçoso, o que é que me inibe descartar o meu critério e deixar-me cair nos braços acolhedores do senso comum, na sintonia com o sentir dos meus co-humanos? Isto: Há uma preguiça que desprezo mesmo, aquela que considero a pior forma de estupidez, a preguiça intelectual, mais precisamente, a preguiça emocional: a falta de vontade de pensar o que provoca incómodo. Ela leva ao recurso, em vez a argumentos, ao consenso com a moral dum grupo com que se identifica, que se dane a razão. Tentando prevenir outra trésleitura: Não decorre daí a obrigação de fazer o que provoca incómodo. Não sou obrigado a comer embriões. Mas decorre daí procurar melhores razões do que o meu incómodo, antes de pôr alguém na prisão por comer embriões. Não digo que não as haverá, mas elas têm que ser enunciadas e discutidas. 25.1.07
«Existe algo que me deixa perplexo nos defensores do sim ao aborto. O caso talvez mais paradigmático é o deste post e deste post do Lutz. Basicamente o raciocínio é o de que todas as formas de vida são equivalentes e que portanto matar um criança ainda por nascer é igual a matar um vitelo.» É curioso que uma pessoa de boa fé - e sabes, Timshel, que te tenho por uma pessoa de boa fé mais do que qualquer outra - consegue entender-me tão mal como é o caso. Pensei que fui cristalino, se não nos últimos dois posts que citas, no conjunto do que tenho escrito no QeP este ano sobre o assunto. O que tentei demonstrar é que o postulado da superioridade categórica da espécie humana é, sem mais suporte argumentativo, tão válido ou inválido como o postulado da superioridade da raça branca. Com outras palavras, se a vida humana vale mais do que a vida animal, isso tem que ser demonstrado. E apelos a sentimentos de pertença e instintos biológicos, como a resposta automática à “cuteness” (“Kindchenschema” segundo Konrad Lorenz) não são argumentos. Não decorre da recusa de reconhecer, à priori, o superior valor da vida humana que todas as formas de vida são equivalentes. Isso é da mais elementar lógica. Posso considerar e considero haver diferenças no valor de vidas, humanas ou animais, não em função da arrumação categórica - aqui humanos: absolutamnente válidos; ali animais: de valor inferior e relativo - mas dum critério universalmente aplicável. A humanos, animais, robots, extraterrestres, plantas e pedras. Como já disse repetidas vezes: este é a presença de consciência e sentimentos. Por isso não posso concordar com a tua hierarquia na defesa da vida: agora o embrião, e depois, porque não, certos animais. Não tenho duas gavetas, uma de cima para os O que é mais curioso neste modo de raciocínio é a conclusão. Em vez de avançar na máxima protecção da dignidade da vida (agora o embrião, e depois, porque não, a protecção da vida de certos animais e a proibição de comportamentos que provoquem sofrimentos aos animais) avança no sentido oposto: se a vida é toda igual vamos matar o mais possível. Disse lá em cima que estou confiante da tua boa fé, e continuo, mas seria melhor não escreveres muitas vezes coisas como esta última frase. Então eu algures tenho advogado matar o mais possível? Acho o meu critério melhor e mais humano, “humano” no sentido da empatia com quem sofre. E sim, acho que matar um bezerro é mais cruel do que matar um embrião. Porque ele sofre mais. Porque faz mais sentido falar dum “ele” que pode sofrer do que no caso do embrião sem sistema nervoso. E sim, já muitas vezes me perguntei se um dia os nossos trisnetos olharão com a mesma incompreensão para o nosso comportamento brutal perante os animais como nós para o esclavagismo dos nossos trisavôs. Nota: Não sou vegetariano, nem vegan, e não tenciono tornar-me num nos próximos tempos. Racionalmente decorre do meu critério (protecção de seres com consciência e sentimentos) uma defesa de animais contra o sofrimento, mas não o veganismo. E se um dia me tornaria num, porque, como admito aqui, a coerência, o respeito pela vida levado às últimas consequências me atrai, isso não mudaria a minha posição sobre a penalização do aborto. Pois seria uma decisão pessoal e religiosa. E basear nas minhas convicções religiosas, que não são fundamentáveis racionalmente e não precisam de sê-lo, a exigência a outros de mudar de vida, era o que faltava! Infelizmente não falta mesmo quem faz exactamente isso. 22.1.07
A superioridade categórica da 21.1.07
13.1.07
A: Reconheceu no outro dia, que da sua argumentação, de que o aborto é justificado porque o embrião não é dotado de consciência, resultam perguntas também para si assustadoras. B: Sim. A: As perguntas eram: “O que vale uma vida dum embrião de dez semanas? O que vale uma vida dum embrião de catorze semanas? O que vale uma vida dum feto com oito meses? O que vale uma vida dum recém-nascido que ainda não desenvolveu um conceito do “eu”? O que vale a vida dum deficiente profundo? O que vale uma vida duma pessoa em coma?” Pode então respondê-las? B: Posso. Embora mantenho o que disse: Se venho a descobrir que nalguns destes casos subsistem dúvidas, isso não invalida o critério para os casos onde não há nada que origina estas dúvidas. A: Você pode não querer aplicá-los em todos os casos, mas outros podem aproveitar-se muito dos seus argumentos. Como disse: Você está a abrir uma porta perigosíssima! B: Não suprimo raciocínios, por temer que eventualmente possam servir à outros para fins que não partilho. Acredito profundamente que o livre raciocínio é, em última instância, sempre benéfico e que a sua supressão, por quaisquer motivos, honrosos ou não, leva-nos de volta ao obscurantismo e às trevas. Sou racionalista. A: Então vá. Responde lá às perguntas assustadoras. B: Antes de mais: “assustador” não equivale necessariamente a “perigoso”! Quando usei o termo, entendi mesmo “assustadoras”, o perigo pode ser percebido sem razão. Mas admito que me incluo, ou incluí, nos assustados. A: Ah, entretanto já não se sente assustado? Porquê deixou de está-lo? B: Devia antes interrogar-me porque estava assustado ou ainda estou, embora menos. Se tenho um critério racional, que me parece completamente válido e satisfatório no caso do embrião, porquê sinto-me inibido de aplicá-lo a um deficiente profundo, por exemplo? Se este não pensa, nem sente, e nunca pensará nem sentirá? Porque é que sinto que, apesar de tudo, se o matasse, cometia um acto imoral? - Porque é proibido pela lei? Não creio. Pelo menos não em primeiro lugar. Já violei outras leis, sem qualquer inibição. Será antes porque conto com a censura moral da grande maioria dos meus concidadãos, incluído muitos que estimo. Ou seja, a inibição vem da pressão social. Todos estamos mais ou menos sujeitos, nos nossos juízos morais, à pressão social. E não digo que é mau. Pelo contrário: Não acho que a nossa civilização funcionava sem esta força normalizadora do sentir moral. A: Com outras palavras, reconhece a necessidade da tradição, como garante da moral. B: Sim, como garante, mas não como fonte! Respeito-a por conveniência ou necessidade política. Mas tenho, obviamente, a ambição de fundamentar os meus juízos éticos em algo mais firme e universal do que nos costumes. Uma coisa é saudar a sua força normativa como garante de estabilidade mínima da sociedade, outra seria aceitar os seus juízos morais “de facto” como equivalentes aos que se deduzem de valores fundamentais. Estes valores axiomáticos devem ter uma origem algo mais consciente e nobre. Para um cristão serão os mandamentos, para mim são os direitos humanos. São estes aos que procuro reconduzir todos os meus juízos morais específicos. A: E agora vai dizer-me que, baseado nestes, podia matar deficientes e recém-nascidos? B: Admito que tenha de precisar um pouco mais. Lembra-se da nossa conversa do outro dia em que expliquei que para mim, de facto, não é a condição de ser formalmente humana, que me leva a respeitar uma vida, mas de este ter as características que distinguem a vida humana em contraste a outras? Ou seja, a consciência e os sentimentos. Isto é uma distinção importante: Se, por exemplo, alguem me apresentasse um animal, um robot ou um extraterrestre que tivesse essas características, sentir-me-ia obrigado de lhe reconhecer os mesmos direitos “humanos”. Por outro lado, um ser humano que não apresenta essas características, não pode contar com o meu respeito para estes direitos. A: O recém-nascido então? B: É um caso límite. Creio que não se pode dizer que tenha consciência. Mas sente, sem dúvida. Embora que não saiba que sente. No caso do deficiente profundo, que nem sente nem tem consciência, não tenho dúvidas. A: Está a falar a sério? O infanticídio um caso límite? O assassínio de deficientes tolerável? - Até hoje, não o tomei por um monstro, mas parece que tenho de rever a minha opinião! B: Está a ver: é essa a pressão social de que falei! Está a exercê-la. Pode ficar descansado: rendo-me a sua pressão. De facto, não defendo o infanticídio, nem o assassínio dos deficientes. A: Alto aí! Não quer dizer que se abstém destas posições por puro oportunismo? Que se rende a uma pressão que considera, na substância, estúpida e injusta! Decerto percebe que há outras razões, mais profundas, mais válidas para proibir o infanticídio. Não acredito que não as partilha! B: Quais, por exemplo? A: Será mesmo necessário elencá-las? B: Sim. Faça-me esse favor. A: Antes de mais o intocável valor da vida humana, que aliás está fixado na declaração dos direitos humanos que diz ter como referência. Este devia bastar. Mas posso elencar outras. A lei natural, que se manifesta no instinto da protecção dos bebés indefesos. E o civismo elementar. Então não acha que conduziria à desintegração da sociedade, se se permitisse assassinar bebés? Qual vida humana ainda se respeitaria, se nem se respeitasse o das bebés? Seria a selva. B: Vou começar onde concordamos. Os perigos sociais levo a sério. Embora lembro que houve civilizações bastante estáveis, que praticaram o infanticídio, como a romana, dou crédito ao argumento que a liberalização do infanticídio teria um efeito embrutecedor, e reduziria o desejável respeito pela vida humana consciente. É um argumento social válido e como tal, na prática, bastante, mas em termos éticos não é central. Também admito que a sua importância seria possível reduzir através do controlo da forma e das condições em que o infanticídio seria permitido. A: Continuo arrepiado, mas estou a ouvir. B: O argumento da lei natural não me convence. A lei natural nunca protegeu ninguém, nem adultos, nem bebés, basta serem os do inimigo. Por isso, vamos ao que interessa: o valor intocável da vida humana. Aqui já disse que acho em que este consiste: Na consciência, na capacidade de pensar, sentir, amar, sofrer, esperar... Gostaria de devolver a pergunta: Porque hei de respeitar uma vida que não tem essas características? A: Porque ainda é humana. Porque lhe devemos solidariedade e respeito, como também humanos. Porque pode ainda ser amado. B: É impressão minha ou evitou deliberadamente acrescentar: porque é uma criação de Deus? A: Tem razão. Porque é um ser humano a quem Deus deu vida. Que Lhe pertence. E só Ele pode tirá-lo. B: Agradeço a sua delicadeza e coerênca de procurar manter Deus fora deste debate, de acordo como originalmente combinámos. Fui agora eu a introduzi-lo porque me parece central na distinção das premissas das nossas posições. A distinção é a pertença. Você como cristão acredita que o ser humano pertenece a Deus, eu acredito que pertence a si próprio. Daí, se não existe sujeito, e acho que não se pode falar de sujeito onde não há consciência – sei que no plano jurídico não é bem assim, por razões que não são relevantes no nosso debate – se não há então sujeito a quem a vida pertence e ninguém mais é prejudicado pela sua eliminação, não há obstáculo para elminá-lo. A: Com esta postura podia candidatar-se a um emprego no projecto de “eutanasia” nazi, que levou a cabo o extermínio da “vida inválida”, exactamente dos deficientes de que está a falar! B: Não de todo! O seu “exactamente” é errado e injusto. A semelhança como a “eutanasia” nazi existe, mas é muito inexacta. E nesta diferença, entre o que os nazis fizeram e aquilo contra eu não tenho argumentos baseados nas minhas premissas morais, está tudo! Volto a realçar: Condição é que ninguém será prejudicado! Porque é obvio que grande parte da repulsa espontânea, que a ideia de matar humanos sem consciência, como fetos, deficientes profundos, para não falar de recém-nascidos, suscita é consequência da associação imediata com horrores que a “eutanasia” nazi cometeu. Mas os nazis violaram esta condição, de que ningém pode ser prejudicado. Arrancar crianças amadas das suas famílias e matá-las contra a vontade destas, assassinar deficientes mentais ou doentes psícicos, que eram pessoas bem conscientes, etc. foi terrível e será sempre terrível. A: Como é que vai assegurar, no seu plano de matança “indolor” e “sem prejuízo para ninguém”, que este não desliza para o cenário de horrores que reconhece como tal? B: Através da sua proibição. Acho muito importante que mantenhamo-nos bem longe de casos que possam suscitar a menor dúvida, dos onde existe algum vestígio de consciência ou algém poderia sofrer, como os seus familiares, por exemplo. Lembro que não vim aqui propor o infanticídio ou matar deficientes. Apresentei um critério para avaliar a licitude do aborto de embriões, e você desafiou-me de confrontar-me com as consequências da sua aplicação universal. Foi isso que fiz e penso ter demonstrado de que as reservas contra a sua aplicação universal, digamos, simplificando: aos nascidos, são em parte fruto de sentimentos irracionais, que originam de falsas generalizações, e em parte de razões válidas de cautela, quer com vista de prevenir erros e abusos que em cada caso individual seriam terríveis, quer para proteger a sociedade dum embrutecimento, que contraria o que também eu desejo, uma “cultura da vida”. (Dedicado ao Timshel) 27.11.06
Quem não experimentou já uma vez a alegria, a êxtase, ao sentir como uma ideia de repente leva coisas diversas e aparentemente desconexas a encaixar e fazer sentido, como um cristal que começa a crescer a partir do nada e impõe, por uma força intrínseca e inesperada, ordem e beleza onde momentos antes só houve uma massa amorfa e sem sentido... A atracção dessa relação milagrosa e misteriosa entre beleza e verdade, que se faz sentir a cada um de nós que tem gosto em pensar, a cada devoto dessa nobre paixão pelo raciocínio e pela verdade -, essa atracção têm movido muitos dos homens que hoje constam nos nossos livros da história. E a mesma beleza que alimenta o entusiasmo e a determinação destes portadores da verdade, (duma verdade abrangente, que resolve todos os problemas, se não na perfeição, sempre da melhor forma possível) leva os a ignorar e suprimir tudo que surge a relativizar e conspurcá-la. E muito naturalmente procuram uma oportunidade, um terreno onde podem aplicar a sua verdade bela, em condições que permitem o seu sucesso. Não afligidos por dúvidas da sua missão, sentem-se legitimados pelos antecipados benefícios futuros de fazer, se for necessário, vista um pouco grossa na preparação deste terreno. Assim fizeram Lenine ou Pol Pot, que não hesitaram em assumir a responsabilidade directa na aragem do campo. Outros, mais escrupulosos ou impedidos pelas circunstâncias, como Friedman, deixaram, embora tão determinados to go the whole way como os outros, a tarefa do arranque das ervas daninhas a quem tinha para isso mais gosto e vocação. Etiquetas: moral 26.11.06
Se um dia descobrimos que afinal o bem-estar económico e a liberdade não andam de mãos dadas: escolhemos o que? E se escolhemos a liberdade, não seremos cilindrados pela evolução histórica que, darwinista e determinista, fornecerá legitimação (sem aspas?) a posteriori aos Pinochet, Friedman, e os governos de Singapore e China? Se assim fosse, diria mesmo: Fuck the economy! And Pinochet, Friedman, Singapore and China. Adenda: João Pinto e Castro lembra, muito oportunamente, um antigo post seu sobre este dilema. Etiquetas: moral 5.11.06
A: E você, é a favor do aborto? B: A favor da sua despenalização. A: Porquê? B: A começar por causa daquilo que discutímos há pouco. Acho a situação actual, o aborto clandestino generalizado, intolerável. Pelos riscos de saúde, e por achar nocivo para uma sociedade sustentar leis que não consegue ou não quer fazer cumprir. A: Então está também a favor de abandonar os limites de velocidade nas estradas, da despenalização do furto de automóvel e do tráfico de drogas? B: Não. Isto é diferente. A: Como? B: Admito mais legitimidade ao interesse duma mulher que pretende terminar uma gravidez indesejada do que ao interesse do aceleras, do ladrão, ou do traficante. Ao contrário destes, ela está perante uma situação que lhe ameaça afectar gravemente a sua vida, duma forma com que ela se julga incapaz de lidar. A: Do outro lado do referido interesse da mulher está a vida dum ser humano, que quer exterminar. B: Este ser humano é apenas um embrião. A: Um ser humano. B: Na nossa conversa anterior também você admitiu estabelecer diferenças entre o valor da vida humana em estados de desenvolvimento diferentes. A: Só in extremis! Só se sou obrigado de escolher entre elas, não podendo salvar todas. Não é isso o caso do aborto. B: Tem razão. A: Você não acha a vida humana sagrada? Merecedora de defesa em todo o caso? B: Colocada a questão assim, só me resta responder “não”. Isto é, se incluo o embrião neste conceito de “vida humana”. Mas acho essa inclusão algo forçada. A: Forçada? B: O embrião é certamente vida humana, mas não possui as características, que tornam a vida humana especial e, no meu entender, especialmente merecedora de protecção. A: Oiço aqui soar o slogan nazi de “vida não merecedora de viver”. B: Compreendo isso. Admitir abertamente que se atribui valor à vida humana de forma diferenciada, expõe ao risco de ser colocado na companhia dos autores da “eutanasia” dos deficientes, ou seja do seu extermínio sistemático. Parece-me ser essa a razão porque os defensores da despenalização evitam discutir o valor da vida neste debate, e preferem concentrar-se exclusivamente nas razões das mães. Enquanto a generalidade dos defensores do Não dá-nos a ideia de que não há aqui nada a discutir, porque toda a vida humana é sagrada, ergo absolutamente valiosa. Mas na realidade é esse medir do valor da vida do embrião contra o bem-estar da mãe a única maneira pela que se pode encontrar uma justificação de qualquer aborto. O que fazem todos, como também você ontem, que admitem casos em que prescindiam da penalização. Só que medir o valor da vida é um grande tabu. A: E ainda bem! B: Não acho. Não falamos duma situação rara ou até hipotética. Médicos e equipas de salvamento, por exemplo, têm que fazê-lo todos os dias. Gostava que me dissesse qual é o critério que aplicou quando escolheu a criança de sete anos em detrimento do feto de sete meses? A: Hm. A escolha ocorreu-me de imediato, de forma instintiva. Talvez porque a vejo, ao contrário do feto. Porque creio que ela, os seus pais, os familiares sofriam mais com a sua morte do que sofriam no caso da morte da criança ainda não nascida. B: E na escolha do feto de sete meses em detrimento do embrião de sete semanas? A: As mesmas razões. Mas está a desconversar! Já admiti que faço escolhas se for inevitável, mas nunca escolho a morte dum ser humano, sempre escolho a vida! Ao contrário de quem aborta. B: Não estou a desconversar. Onde eu quero chegar é isto: O que é que torna a vida humana tão valiosa? O que é que torna-a mais valiosa do que a vida dum coelho, por exemplo? A: Mas tem alguma dúvida que a vida humana tem mais valor do que a dum coelho? B: Não. Mas gostava de ouvir a resposta, gostava de saber o que é que confere o valor maior ao ser humano, comparado com o coelho, que todas as semanas acaba na minha frigideira. A: Antes de mais, ocorre-me a razão religiosa: Porque é feito à semelhança de Deus. B: Contra essa não posso apresentar nada. Respeito a sua religião, mas não posso discutir o assunto no plano da religião, que não partilho. Se pudesse, diria talvez: Não me ocorre porquê o coelho não seria feito igualmente à imagem de Deus... Mas não quero discutir isso, iniciámos esta conversa no pressuposto de que se pode e deve discutir a despenalização do aborto no plano moral e político, não da religião. A: OK. Não obstante de considerar toda a criação um milagre, coelho incluído, está para mim fora de questão que o homem é muito especial, pela sua consciência, sua vontade, sua capacidade de amar... B: Exactamente. Também eu acho que são estas as características que distinguem a vida humana. Que lhe dão mais valor. Nenhuma delas verifica-se no embrião. A: Errado! Elas estão lá todas, só ainda não se desenvolveram. Por isso considero o aborto um crime, porque a esta maravilha é roubada a oportunidade de se realizar. Em vez de deixar a natureza tomar o seu curso, deixar desabrochar a vida! B: É verdade, o aborto impede a realização dum ser humano. Mas não alinho consigo na sua formulação que lhe seja roubado o futuro maravilhoso. Este "quem", a quem é roubado o futuro, para mim ainda não existe. O embrião ainda não é uma pessoa. Não tem nenhuma característica que distingue uma pessoa. A: Tem-nas todas, in nuce! B: Vou ver se consigo fazer-me entender: Isto é uma questão de perspectiva. Numa perspectiva cósmica, por assim dizer, do ponto de vista de Deus, já lá está tudo no embrião, não faz diferença distinguir se este ser humano já se concretizou naquilo que lhe é característico ou ainda não. No Seu plano, este ser milagroso estava previsto existir e nós impedimo-lo. Como aliás impedimos a existencia de tantas outras potenciais vidas humanas, igualmente valiosas, através da contracepção e até da abstenção! Mas no nosso mundo térreo, em que há pessoas que interagem e devem, quando for necessário, ser protegidos uns dos outros, o embrião não existe como pessoa. Porque não reúne as condições mínimas. A: Discordo. Isto é, constato a minha total divergência desta mundivisão! Não posso deixar de ter em conta o que chama perspectiva cósmica ou, como diz, o ponto de vista de Deus. Não vê para onde leva o seu critério? Imagine-o aplicado a recém-nascidos, deficientes, a doentes graves ou terminais! Não deve retirar-lhes também o estatuto de pessoa? Não leva o seu critério a um mundo em que o direito à vida só é reconhecido aos fortes e saudáveis? Não está ver que está a colocar os fundamentos para o massacre, muito para além do dos embriões? B: Preocupações e acusações graves! Mas acho que está incorrer na falácia do plano inclinado. Está a desenhar um cenário que ninguém quer, e que colide com o sentir moral da esmagadora maioria das pessoas, meu incluído. Se o meu critério não proíbe o aborto dum feto de cinco, de oito meses, matar um deficiente profundo ou um doente em coma, isto não significa que defendo que isto se faça. Mas se escuto ao meu sentir moral no caso do conflito entre uma mulher aflita por estar grávida sem querer e o embrião, não oiço uma voz clara a favor do embrião, pelo contrário. E uma vez que me falta a orientação religiosa, que de facto me parece, no caso do aborto, tão arbitrária como a doutrina da inferioridade da mulher noutra religião, recorro à razão e meu sentimento humanista, que me induz a atribuir a todos que partilham comigo a condição humana, os mesmos direitos. Que no caso de conflito devem ser conciliados segundo um critério que gostaria de chamar economia de sofrimento. Minimizar o sofrimento tanto quanto possível para todos. Nesta economia, um ser, que seja humano, mas que não é dotado de consciência e de sentimentos não é equiparável a uma pessoa que isso tem. A: Não vamos acabar por entender-nos. B: Não. 3.11.06
A: Sou contra o aborto. B: Porquê? A: A vida humana é sagrada. B: Pode explicar, a um agnóstico, o que significa isto: sagrado? A: Merecedor de admiração e respeito absoluto. Inviolável. B: Inviolável. Sem excepção? Não admite sacrificar uma vida humana nem para salvar outras? A: Preferia não ser colocado na posição de fazer esta escolha. B: OK. Mas condena quem age, estando nesta posição? A: Não. B: O polícia que atira para matar, para salvar reféns? A: Talvez não... B: O médico que tem de optar entre a sobrevivência do embrião o da mãe? A: Penso que deve escolher a mãe. B: Decorre daí que dá mais valor a vida nascida, a da mãe, do que a do embrião, não é? A: É verdade. B: Então diferencia o valor da vida. Uma vida humana nascida vale mais do que uma vida ainda por nascer. E estou em erro se presumo que atribui à vida dum feto de sete meses mais valor do que a dum embrião de sete semanas? A: Preferia não usar o termo valor. B: Não sei o que este termo tem de desadequado no caso. Mas sabe qual seria a sua escolha? A: Sim. B: Então o valor da vida não é absoluto, para si. A: É, sim! Mesmo admitindo que faria escolhas entre vidas a proteger, se fosse obrigado a fazê-lo, todas são sagradas e têm valor absoluto e não cedível contra outros valores. B: Defende a manutenção da lei actual? A: Sim. B: Por razões tácticas, porque julga uma lei mais restritiva actualmente não é realista alcançar, ou por convicção? A: A lei actual parece-me equilibrada. B: A lei actual permite a interrupção da gravidez nos casos de perigo da vida e saúde da mãe, da previsão de malformações graves da criança por nascer e ainda no caso da violação da mãe. Não acha que ela é muito mais permissiva do que a sua posição aqui defendida? A: Talvez. B: Você disse que a vida humana deve ser inviolável, excepção feita no caso em que uma escolha entre vidas a proteger é inevitável. Como então justifica o aborto no caso da previsão de malformações da criança? Ou no caso da violação? A: ... B: Só há duas explicações: Ou a vida da criança por nascer tem valor inferior por ser fruto de violação, ou por ser deficiente, e passa por isso a ser sacrificável, ou o bem-estar da mãe, da família, que se teme ser prejudicado pelo nascimento da criança, entra na equação. O que contradiz a sua declaração do princípio da inviolabilidade. A: Refuto a ideia da menos-valia da vida duma pessoa deficiente, para não falar do caso da violação! B: Então... A: Então em coerência não devia concordar com o disposto na lei nesta questão. B: E não concorda? A: Bem. Em teoria, não. Mas em concreto, não me é fácil exigir isso de outrem. B: Como sabe, o referendo sobre o aborte é sobre a sua despenalização, não sobre a escolha moral correcta da pessoa que aborta. A: Sim. É verdade. Por isso, só por isso, poderei continuar a apoiar a lei vigente, embora esta agora me suscita dúvidas, muitas dúvidas aliás no caso da violação. Porque entendo que a lei também deve servir como aviso sobre o que é a escolha moral correcta. E a escolha moral correcta é não abortar uma criança fruto de violação ou deficiente. B: A lei não é só um aviso. Uma lei penal é coerciva, não é? A: Dá me argumentos para manter o meu apoio à lei vigente. B: Não acha que pode haver, para além da violação e da malformação da criança outras situações em que uma gravidez indesejada pode ter um impacto igualmente violento sobre a vida da mãe? A: Igualmente seria dizer muito... B: A sério! A: Não acredito que na grande maioria dos casos dos abortos que se praticam, o “igualmente” se justifica. Mas pode acontecer, sim. B: E nestes casos, sim ou não igualmente violentos, a mãe é coercida pela lei de ter o filho. A: Ou aborta clandestinamente. B: Ou aborta clandestinamente. 15.4.06
Caro Nuno, fico grato pelo teu post sobre o debate do teu apelo. E fico grato e feliz com a tua apelidação de mim como amigo, apesar das posições divergentes que temos nesta questão e de alguma desilusão que te adivinho na tua apreciação do meu repto. Pois quando dizes que nunca imaginaste que poderias ser intimado (o itálico é teu) a explicar-te e a expor as razões (idem) subjacentes a tal iniciativa, não posso deixar de me achar visado. Fui eu que te pedi de precisares “em nome de quem, a quem e para quê” lançaste o teu desafio. E recusas de responder, fazendo tuas as palavras de Francisco José Viegas: “Não estou na disposição de discutir com ninguém a ideia de eu acender uma vela em homenagem às vítimas do Pogrom de 1506 e da Inquisição portuguesa. Eu vou. Não obrigo ninguém a ir. Não exijo que ninguém vá. Pedi a alguns amigos que me acompanhassem. A minha decisão é puramente individual, e quando escrevo «nós vamos» refiro-me aos que vão e querem ir. Portanto, não estou disposto a discutir aquilo que a minha liberdade individual e as minhas opções e crenças me levam a fazer. Aliás, não entendo nem a natureza da discussão nem o seu objectivo.” Sinto aqui bastante crispação que me parece toldar o raciocínio. O que pode ser razoável para o FJV, que não lançou este desafio, deixa-me algo perplexo da tua boca. Fazes um apelo, mas recusas-te a explicá-lo melhor a quem o solicita? Que devo concluir disto? Que me enganei, que o apelo não me era dirigido? Que a minha pergunta é tão absurda, que mais ninguém se interessará pela resposta? Ou que achas que o meu pedido de explicação não merece resposta por ser de má fé? E porque entendes o meu pedido como intimação? A minha pergunta não foi retórica. É verdade que, para a minha triste surpresa, também ouvi da boca de outro blogger que estimo muito, do Gabriel Silva, que essa pergunta constituia um processo de intenção. Tentei imaginar como lhe podia ocorrer essa ideia, e conclui que acha que quis insinuar motivos inconfessáveis. Mas por acaso só me ocorrem motivos confessáveis. No post O comentário do alemão apresentei duas possiveis leituras. Duas leituras muito claras e explícitas. Nenhuma delas indigna e escandalosa, só diferentes. Uma assumiu a defesa duma causa comum a todos a quem se dirige o apelo, outra a defesa duma causa particular. Acho que a possibilidade da leitura de que a comemoração teria como objectivo não só a memória, mas o reconhecimento duma dívida moral por parte dos portugueses para com o povo judeu, afasta possiveis apoiantes. Se esta leitura não é intendida, não seria melhor evitá-la, na medida do possível? Mas se ela também o é, não seria então melhor, em nome da transparência, deixar isto claro? (Eu pessoalmente não acho que intendes o reconhecimento duma dívida moral, mas percebo que alguém possa achar o contrário. Não estou 100% seguro que não o fazes, mas digo-o outra vez: reclamar esta dívida não seria escandaloso!) Dizes ainda: “Nada disto teria acontecido se os mortos não fossem judeus portugueses; se este desafio à lembrança e à preservação da memória não tivesse sido feito por um judeu; caso não tivesse partido de um blog marcadamente judaico escrito por um judeu. Este “questão” não existiria (nunca!) se eu não fosse quem sou…” É verdade. Só, porque o escreves confirmando uma observação minha, tenho de prevenir dum malentendido: Quando desejei que tivesse sido um não judeu (o Rui MCB) a lançar o apelo das velas no dia 19 de Abril, não entendi, obviamente, que se devia ou podia omitir o facto de que os assassinados do massacre de 1506 foram judeus e foram assassinados por serem judeus. Muito pelo contrário. Só que achava que teria sido melhor para o apelo, se ficasse acima de qualquer suspeita que ele foi feito para lembrar os nossos mortos, os nossos crimes, para o nosso bem. Ainda vou explicar melhor a minha insistência no “nós”... Felizmente acabaste por exprimir ainda de forma muito clara o que te moveu para o apelo. A memória. Eu acredito, mais, sei: A Rua da Judiaria é prova como estás empenhado na preservação, na reconstrução da memória dos judeus portugueses. E o sucesso do teu blogue é o reconhecimento do serviço que com isto prestas não só aos judeus mas também aos portugueses em geral. Mas com esta manifestação isto é diferente. Aqui não só tomamos conhecimento da história. Esta homenagem é um acto simbólico em que as pessoas participam partindo de pontos de partida diferentes. Para ti ela é a evocação de mais um episódio do sofrimento do teu povo judeu, nada melindrosa para o teu, o vosso amor-próprio colectivo. Para os portugueses não judeus, ela é o reconhecimento dum episódio vergonhoso, que mancha a época mais constituinte para o seu orgulho nacional. Para além da inevitavel ferida narcísica (perdoa-me o psicologismo) que o reconhecimento público deste crime constitui para a alma nacional, há um outro problema que agrave a resistência à homenagem: Que uns se sentem convocados pelos representantes das vítimas para participar nela como representantes dos assassinos. Para que os descendentes das vítimas e os descendentes dos assassinos consigam lembrar conjuntamente os mortos de 1506, é preciso construir um “nós” que abrange todos da mesma forma, e em que cada participante se assume tanto como representante dos perpetradores como das vitimas. O que é possivel, na irmandade que partilhamos num plano superior ao dos nossos povos, na nossa humanidade. Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral, sel 11.4.06
Há quem ache que com o post anterior corri um certo risco. O JPT disse que com ele o QeP se assumiu como blogue de referência (grande gargalhada!) e desde então deixei de ser o "simpatico alemão" e passo a ser "o c... do huno". O Dragão até entendeu de me dispensar da obrigação de linkar o seu contributo para o meu inquerito, pois não queria que me comprometesse a minha reputação! O silêncio com que foi recebido o desafio do Nuno Guerreiro parecia-me esconder mais do que indiferença. Fiz uma pergunta específica, mas não era só a resposta a ela que queria. O post vem na sequência da discussão que travei, nas últimas duas semanas, nomeadamente com a Helena do Dois Dedos de Conversa, sobre os limites da liberdade de expressão. Quis demonstrar que o tabu do anti-semitismo não só inibe as pessoas de dar opiniões insultuosas e de incitar a violência, mas também inibe a exposição de opiniões nada indecorosas que simplesmente são desfavoráveis em relação à causas judaicas. O que acho mal. Contava com algum eco, não com tanto. Contava com alguma emoção, algum ressentimento, mas não com tanto. No muito que se escreveu nos comentários aqui, nos outros posts, mas também nas caixas de comentários destes, a irritação, o ressentimento ultrapassa em quantidade e intensidade os comentários e posts ponderados. Mas houve excelentes contributos, que dão argumentos e que dão que pensar, e que por si só, para mim fizeram valer a pena o meu repto. Só como exemplos, um em favor do Não e um do Sim, destaco os posts do Miguel Silva e do Rui MCB, a quem ainda quero exprimir a minha admiração pela forma como se aguentou com uma paciência angélica num ambiente maioritariamente hóstil e carregado de emoção, para não usar outro termo mais forte. Fiquei admirado de que as pessoas que sentem tanta, digamos: irritação, com a proposta do Nuno Guerreiro que mesmo depois duma dúzia de comentários esta não lhes passou, não caiem em si e se perguntam a si próprios de onde toda essa raiva vem, e se isso não é ressentimento? (Sim, Zazie, essa é para ti, não só mas também.) Nem toda a irritação, nem todo o ressentimento será necessariamente anti-semitismo. Mas também houve-o inquestionável, apresento aqui um exemplo quase tocante na sua extrema candura, nesta pergunta num comentário a um post do Dragão: “Sejamos honestos... há alguém que goste de judeus?” Pergunta-se o que é a experiência de vida de quem acha natural que ninguém goste de judeus. Será que no seu dia-a-dia vê-se vítima deles, a si, os seus familiares, os seus vizinhos? Ou a resposta é do Umberto Eco, citada pelo Timshel? Será que exagerei, que abri uma “caixa de Pandora”? Respondo com um não convicto, e se abri, que acho que valeu a pena! Porém não ignoro, ou pelo menos imagino, que para o Nuno Guerreiro a leitura do que se escreveu aqui deve ser dolorosa: tomar contacto com tanta aversão, ressentimento, ódio. Para mim a seria, se estivesse no seu lugar. E fico genuinamente triste. Mas como disse, suprimir que ele se exprime não me parece melhor. O Nuno ainda não respondeu ao meu pedido de explicar em nome de quem, a quem e para quê lançou o desafio. Talvez ainda vai, talvez não queira responder. Eu achei-o importante. Porque, anti-semitismo a parte, a crispação resultou talvez dum malentendido. Pois o seu desafio pode ler-se: “Eu, português, desafio os meus compatriotas para que encaremos a nossa história de frente, em nome da verdade, em nome das vítimas de então e para que possamos, através de tomar consciência do perigo dos ressentimentos, evitar vítimas no futuro.” Mas também: “Eu, judeu, desafio os portugueses para assumir a vergonha dos crimes que eles cometeram contra os meus antepassados, e para reconher a sua dívida moral para com o povo judeu.” Ao primeiro apelo, entendo eu, qualquer português pode corresponder de bom grado. Ao segundo... Tenho a maior compreensão para os que mandam dar uma volta a quem faz o segundo. (Obviamente Portugal 2006 não se compara com a Alemanha 1945, nem com a Alemanha 2445.) E é verdade que o Nuno não está muito bem colocado para evitar a ambiguidade do apelo. Mesmo se quisesse, não vejo como se podia livrar da suspeita que não tem motivos da segunda. Por fim não quero furtar-me a responder a minha pergunta: Eu não vou acender uma vela, por causa da ambiguidade do contexto, e porque como estrangeiro que não tem nada a ver com este massacre, não me parece útil dar lições aos portugueses. Mas vejo com muito respeito e simpatia pessoas como o Rui MCB que o fazem. Tomara que teria sido ele a lançar o desafio! Etiquetas: alemanha, antisemitismo, cidadania, moral, sel 9.4.06
Linkei aqui ao lado os posts do Nuno Guerreiro sobre o Pogrom de 1506. Não fiz ainda eco do seu apelo de vir na Quarta-feira, dia 19 de Abril à Baixa de Lisboa e acender uma vela em sua memória. Alguns bloguistas juntaram-se ao apelo; sei de outros que, menos abertamente, mostraram o seu pouco entusiasmo com a ideia. Suspeito que entre os muitos que ignoram o apelo, há quem o faz para poupar-se de ter que discutir o seu desagrado com a proposta. Gostava muito de ouvir os argumentos de quem se incomóda ou irrita com o apelo. Como gostava de ouvir o Nuno explicar em nome de quem, dirigido a quem e para quê o fez. Uma discussão aberta e controversa sobre isto acharia muito mais útil do que a congregação, no dia 19, de umas centenas de pessoas bem intencionadas e emocionadas, e de um número que não sei estimar, mas acredito ser maior, a torcer, às escondidas, o nariz e a engolir um comentário desagradável. Adenda: Para além dos comentadores aqui em baixo já se pronunciaram o Musaranho do Cocanha, o Rui do Adufe, o Miguel do Tempo dos Assassinos, o LNT do Tugir, a Abrunho do Contemplamento, o JPT do Ma Schamba, o Dragão no seu Dragoscópio, o Marco do Povo de Bahá, a Helena no 2 Dedos de Conversa, a Ana Cláudia no Amigo do Povo, o João Tunes do Água Lisa 6, o AMC do Porque, o Francisco José Viegas da Origem das Espécies e a Carla do Elsinore. A ver também este post do Minicente com links para os vários posts que o Luis Carmelo escreveu sobre o assunto. O Luis da Natureza do Mal também apoia o apelo da Rua da Judiaria. Agradeço a quem me faculte links para blogues que tomaram posição em relação à questão das velas, que vou incluir nesta lista, enquanto não incluirei blogues que só referem o Pogrom de 1506 ou posts sobre ele. Claro que a caixa dos comentários está aberta para estes links. Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral, sel 31.3.06
Helena, li a tua resposta com muita atenção. É dificil respondê-la com a seriedade que merece num único post, e ainda mais difícil sem que isso se torne um exercício longo e maçudo (pelo menos para terceiros). Alguns tópicos também interessantes, como o do ódio da mulher judia que conheceste e as anedotas do horror, deixo - por enquanto - de fora, os outros tento aqui tratar em separado por parágrafos. Sobre o estudo em questão volto a não me pronunciar. O meu post não quis meter-se na discussão sobre se ele é correcto ou errado, de boa ou de mã-fé, anti-semita ou não. Ele era sobre a provocação do Dragão e das reacções que ele provocou, e sobre a sua tese original, ou seja, nâo a do estudo citado, mas de que o discurso sobre “os judeus” está condicionado, pela ameaça de classificação sumária de anti-semitismo. Apoiei esta tese e ainda defendi que o post não é racista (excluindo o relatório desta questão). Sobre a linguagem: Criticas a minha defesa do termo “pencudos” e o termo “os judeus” que empreguei no meu post. Aqui tenho efectivamente alguns pontos a corrigir, porém talvez noutros termos como esperas. “Pencudos”: Tinha um familiar que se referiu invariavelmente aos asiáticos como “olhos obliquos” (“Schlitzaugen”). Mesmo quando o fazia num contexto aparentemente inócuo, ao falar das suas viagens como turista “Neckermann”, isso incomodava-me a mim e os demais ouvintes na família, pois na verdade era impossível não reparar no ressentimento subjacente e na boçalidade da postura. Da mesma forma, quem por hábito se referia aos judeus como “pencudos”, deixaria transparecer o mesmo ressentimento e igual falta de educação. Assim, não vou perder tempo a discutir contigo se a minha ressalva, em que disse que a denominação dos judeus como “pencudos” [...] teria, à partida, nada de racista, foi suficiente. Melhor teria feito ao admitir desde já que “pencudos” obviamente foi e pretendeu ser depreciativo. (O Dragão me corrija...) Mas mantenho, mesmo assim, que o título “O Sacrossanto Lobby dos pencudos” é perfeitamente legítimo, e não só à luz da defesa abstracta da liberdade de expressão. Não me ocorreu por um momento que o Dragão seria pessoa para chamar por regra “pencudos” aos judeus, à maneira do meu tio; estava e está claro para mim que usou a expressão intencionalmente, num registo irónico, retórico, isto é: literário, no caso até claramente identificável como tal. Assim ela deixou de ser um indício dum ressentimento racista. E como não me interessam as palavras, mas a ideia subjacente, que aqui era a provocação de reacções como a tua para ilustrar a sua tese, não tinha e não tenho nada a objectar ao título daquele post. Também fizeste-me um reparo ao meu emprego do termo “os judeus”, que aceito no caso em que falei do “lobiismo político dos judeus” (no último parágrafo). Aqui deveria ter dito “lobiismo político judeu”. Mas não no exemplo por ti apresentado: “O livre discurso sobre questões relacionadas com os judeus”. Como podia dizer isto de outra forma? Não haverá questões relacionados com os judeus? Será que isto não existe, “os judeus”? Claro que existe. Não foram perseguidos e assassinados no holocausto judeus, ou seja pessoas que acidentalmente eram judeus, mas os judeus. E não só o inimigo define os assim. O Nuno Guerreiro não está a documentar a história de, mas dos judeus portugueses. A receita alemã: Dizes, e quem pode negá-lo, que “a mistura entre informação, trabalho individual de tomada de consciência dos preconceitos subjacentes aos discursos, e inclusivamente a censura de certas expressões”, teve resultados muito positivos no combate ao anti-semitismo e o racismo no país do Holocausto. Hoje estes males ali não são mais expressivos do que noutros países vizinhos. Talvez numa sociedade que acabara de sair do Império dos Mil Anos, a criminalização do discurso racista e a censura da linguagem realmente foram necessárias. Mas custa-me de aceitá-lo, por uma objecção de princípio. Acredito na informação, no trabalho de tomada de conciencia dos preconceitos subjacentes aos discursos sim, na censura de certas expressões não. Já discordámos sobre isto na ocasião do debate sobre os cartoons dinamarqueses. Não gosto das medidas coercivas e nomeadamente não confio nos seus resultados. Elas suprimem, mas não vencem o ressentimento. As primeiras duas apostam na liberdade e na responsabilidade do homem, a última pretende e consegue comportamentos irreflectidos e irracionais. Talvez perguntar-me-as, se acho realmente que a minha insistência piquinhas na ideal e pura liberdade terá qualquer importância, perante uma receita que tem tido tanto sucesso a prevenir um novo Holocausto? Não qualquer crime: um Holocausto. - Respondo: Sim, acho. Pois não é secundário apostar na liberdade e responsabilidade. Para quem acredita na possibilidade de que a luta contra o mal não se limita a uma eterna luta defensiva, a resposta só pode ser sim. A censura, a regulamentação da linguagem podem assegurar hoje o efeito desejado, mas amanhã, como já ontem foi o caso, outra censura, outro condicionamento da linguagem assegurarão semelhante efeito, mas para um objectivo inverso. Por isso, a insistência na liberdade de expressão não é um luxo, não é excesso, não é algo para que, como o Diácono Remédios diria, “não havia necessidade!” Há necessidade, sim! Criticar Israel sem ser anti-semita: Apresentas um - aliás excelente - site alemão como exemplo como é possível criticar a política de Israel sem ser arrumado no campo anti-semita. Este site é um bom sinal, e certamente haverá outros. Mas a sua existência não desmente o condicionamento da discussão pública da política de Israel pela ameaça de ser classificado como anti-semita. O artigo de Ralf Dahrendorf, que recentemente comentei, ilustra-o de forma flagrante. Um último aspecto, talvez um pouco lateral ao debate, mas importante: Depois do choque de se confrontar com o indizível crime cometido pelos seus compatriotas, muitos alemães de bem desenvolveram nos anos a seguir ao Holocausto um filo-semitismo, uma reacção inspirada por sentimentos de vergonha e culpa e com a vontade de reparar, de compensar algo, mesmo ciente de isto ser, no essencial, impossível. Muitas alemães um pouco mais velhos do que eu foram por exemplo trabalhar durante uns meses num kibbuz. Sendo os judeus os príncipais vítimas, apoiá-los, identificar-se com eles foi uma resposta natural. E instalou-se uma equação moral simplista, que rezava mais ou menos ser decente = ser contra o holocausto = ser filosemita. O que se quase esqueceu era que o Holocausto nos obriga não só em relação aos judeus. Mais do que a expressão extrema do anti-semitismo, o Holocausto foi a falência da mais elementar humanidade. Por isso o primeiro mandamento a formular a partir desta experiência não deve rezar “Não sejas anti-semita!”, mas “Não abandonarás a tua humanidade!” Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral, sel 27.3.06
Um post do Dragão, que foi publicado já há alguns dias, deu origem a um debate, por vezes azedo, sobre a sua propriedade e o seu conteúdo eventualmente anti-semita. O post é simples. Faz referência a um estudo americano que descreve o (suposto?) poder do lóbi judeu na política externa americana. Para além da citação, o Dragão prediz as reacções indignadas – censórias - ao seu post, e para que a sua previsão se cumpre, escolhe um titulo provocatório: “O Sacrossanto Lobby dos pencudos”. Teve sucesso. Entre outros, a Helena deixou-se provocar, e surgiu o debate em que ainda participava, com destaque, a Zazie. Não li o tal estudo, por falta de tempo e de pachorra: se ele está mal ou bem feito não sei, para mim está adquirido que os judeus têm um lóbi poderoso nos EUA e não só, não está adquirido que isto é algo em si censurável. Agora, se o livre discurso sobre questões relacionados com Israel ou os judeus está condicionado pela omnipresente ameaça de se ser moralmente e sumariamente disqualificado como racista e anti-semita, já me interessa muito, não só em nome da liberdade de expressão como em nome da justiça e da razão. E está, não há dúvida. Ainda há dias apontei-o num artigo duma pessoa tão respeitável e lúcida como Ralf Dahrendorf . E o Dragão não está só ao sentir a mordaça, ao sentir de que não se pode dizer com a-vontade o que se pensa sobre esta questão. Para mim e para os alemães em geral a auto-censura neste domínio tornou-se virtualmente uma segunda natureza. Uma segunda natureza ainda incómoda para quem não interiorizou o tabu de tal maneira de que este deixa de acusar a sua existência. Para este ele significa um permanente peso na consciência, a noção duma deficiência moral. Como se o anti-semitismo fosse uma doença, um vício que ainda não conseguímos erradicar completamente, que, aliás, porventura será impossivel de erradicar em nós e por isso nos obriga ao combaté-lo eternamente... Um preço que estariamos, os alemães, talvez justamente a pagar, enquanto povo, se acreditasse que povos deviam pagar preços, e pagável comparado com outros preços que outros povos tiveram de pagar. Mas claro que não acredito nisto, não acredito em limitações do pensamento, que infelizmente e invariavelmente decorrem de tabus. Por isso, embora que não aprecio especialmente o estilo do Dragão, que frequentemente substitui uma argumentação leal pela sua retórica draconiana, simpatizo aqui com a sua provocação e suprimo o bem adquirido reflexo pavloviano de sacar o cacete do anti-semitismo. A denominação dos judeus como "pencudos" ou dos membros de etnias africanas como "pretos" tem, à partida, nada de racista, e deduzir do facto de que essas expressões são usados no discurso racista a sua proscrição é um exercício do politicamente correcto, que mostra a sua qualidade lamentável, que é a preguiça intelectual. Não há nada mais nocivo para a inteligência do que o cerceamento da linguagem. Eu sei que a crítica da Helena ao post não se centra só no “pencudo”, mas sim no estudo referido e a sua alegada tese que, como disse, não li, mas acredito na Helena e no Dragão que seja essa, de que a política externa dos EUA está refém dum lóbi judeu poderoso e por ele é levado a agir contra os próprios interesses e os de grande parte do mundo. Se isto é o caso ou não, acho eu, devia poder discutir-se sem que se chame logo anti-semita a quem o defende. Devia, mas é de facto impossivel. Detesto teorias de conspiração, e algumas das teorias mais detestáveis foram usados contra os judeus – aliás, seguramente são eles que levem a taça no campeonato mundial dos objectos de teorias de conspiração – mas não decorre da detestabilidade delas que não existem conspirações. Curioso salto de raciocínio: Porque estou a falar em conspirações? Só falavamos em lóbi. Aí está o problema: Basta alguém referir um lóbi judeu cuja influência ultrapassa as fronteiras dum país, vêm nos irremediavelmente à cabeça, entre outro, “os Protocolos dos Sábios de Zion”, e a “Conspriação do Judaismo Mundial”, tão badalada pelos Nazis, e colocamos o pobre diabo na desagradável companhia dos defensores destas teorias, e identificamo-no com os seus objectivos. Na prática isto significa que na discussão do lobiismo político dos judeus só ha dois campos: Os que defendem que este não existe ou que não existe nele nada de criticável, e os anti-semitas. Isto não é aceitável. Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral, sel 3.3.06
O assassinato da Gis foi um crime especialmente hediondo. Não é atenuante nenhuma o desvalor social da vítima. Menos ainda a sua fragilidade. O facto de que a vítima foi o que foi e que o crime foi cometido em grupo, por uma matilha, revolta-me especialmente. Como me repugna e assusta o grau da desumanidade que os autores do crime revelaram ao terem continuado durante dias as sevícias numa vítima indefesa e agoniante. Mas não tenho complacência pela ligeireza, pela preguiça moral de quem, como a Esther Mucznik, pretende enfrentar o horror deste crime em primeiro lugar com a confortavel condenação moral dos seus autores, pronto para empurrá-los junto com a sua culpa para fora do nosso espaço que chamamos sociedade. Não me alio a uma condenação que quer dizer: Quem comete um crime como este não pode ser dos nossos, por definição. Desde já não pode ter sido e agora muito menos poderá ser. Porque nos não fazemos coisas como esta. Somos diferentes, humanos. E antes de que nos assalta qualquer dúvida sobre isto, vamos nos indignar ainda um pouco mais. Acho sim um atenuante que estes jovens são menores. Outro que eles não tiveram uma família, mas viveram numa “instituição da solidariedade social”. Outro ainda que agiram em matilha. Como disse, este último facto enoja e revolta-me especialmente. Mas é um atenuante. Não conheço os jovens, as suas biografias, nem as Oficinas de São José, por isso o que direi agora só é um palpite que carece de verificação ou falsificação, mas é um palpite que se baseia um pouco na minha própria experiência, naquilo que vi e vivi como criança em ambientes sociais menos agraciadas pela sorte: O que estes rapazes fizeram à Gis, calculo eu, não foi uma coisa tão do outro mundo, quero dizer, tão fora do mundo deles. Não me admiraria nada se o seu quotidiano estava cheio de violência, de sevícias, de humilhações. Sexuais e outras. Neste caso o que fizeram à Gis só teria sido um prolongamento, uma ampliação daquilo que eles já sofreram e já fizeram uns aos outros. Embora que mais brutal, mais final, sem dúvida. Se este meu palpite for correcto, a culpa não pesa sozinha sobre estes rapazes de treze, catorze e dezasseis anos. (Também não só sobre a instituição em que vivem.) Mas é mais fácil deixá-los sozinhos com a sua culpa. E é mais que provável que vamos fazê-lo. Vamos abandoná-los a outras instituições da dessolidariedade social, só desta vez com grades. Não vamos matá-los, como eles mataram a Gis, mas vamos descartá-los como lixo, como eles a descartaram. Tiveram eles a ilusão que ao negar qualquer valor à sua vítima pudessem provar que lhes sobrava uma restia dele para eles. Claro que estavam duplamente enganados. (Isto é uma resposta ao António Machado, ao seu comentário ao post anterior.) Etiquetas: moral 10.12.05
P: Se um governo continua a permitir e encobrir a violação sistemática dos direitos humanos por serviços que lhe estão subordinados, acha sustentável votar nele, porque porventura concorda com a sua política noutros assuntos? 7.12.05
P: É contra a tortura? R: Sou. P: Incondicionalmente? R: Incondicionalmente. P: Há poucos anos ficou público um caso na Alemanha, em que um interrogador da polícia judiciária alemã ameaçou um suspeito raptor – capturado na entrega do resgate – de tortura para conseguir que este revelasse o paradeiro da criança raptada. O interrogador foi julgado e condenado. Concorda? R: Sim. P: Acha ímoral o procedimento do interrogador, que colocou a vida da criança rapatada – que aliás já tinha sido assassinado pelo raptor, como se provou posteriormente – acima da integridade física do provável raptor? R: Não necessariamente. Admito que a ponderação de bens que levou o interrogador à proceder como fez possa ser moralmente consistente. Neste caso, porém, agiu mal, em termos morais, ao integrar as forças policiais e ao aceitar as funções de interrogador. P: Defende então quem exerce um cargo público como polícia submete a sua moral individual às ordens que recebe? R: Não às ordens que recebe, aqui pode haver casos em que deve contrariá-las, mas aos prerrogativos constitucionais do estado que decidiu servir como polícia. Se não pode fazê-lo, não deve serví-lo. P: Voltando à escolha moral: Antes de torturar o presumível raptor, deve aceitar-se a morte da criança raptada? R: Sim. O bem de todos viverem num estado em que a tortura está excluida em todo o caso, vale mais do que a vida duma criança em concreto. P: A CIA e o governo americano negam que esta pratica tortura, admitem no entanto metodos duros do "debriefing". Não foram expressamente negados métodos concretos, como o asfixiamento temporário (simulação de afogamento), a privação de sono, a exposição ao frio. Considera estes métodos tortura? R: Obviamente. P: E prisões secretas, a negação de garantias mínimas do estado de direito, como o contacto com familiares, um advogado, um regime legal e apelável da sua situação, como aquelas cuja existência se revelou agora, fora dos EUA? Recusa as também incondicionalmente? R: Sim. P: A Secretária de Estado dos EUA chamou a atenção ao que as práticas da CIA servem para salvar muitas vidas. Mantém a sua recusa categórica? R: Sim. Pelas razões acima expostas no caso do rapto da criança. P: Acha que as democracias e o estado de direito, isto é, as liberdades cívicas e os valores ocidentais são possíveis defender sem o recurso a medidas destas em casos extremos? R: Acho que sim. O que acho dúbio é que as democracias e o estado de direito, as liberdades cívicas e os valores ocidentais são possíveis defender se houver aceitação do recurso a medidas destas. P: Todos os estados têm serviços secretos, também as democracias e os estados de direito. Não concorda com a necessidade de que eles possam também agir fora da esfera do estado de direito? R: Recuso um regime de excepção que nega direitos fundamentais como os acima referidos. P: E a prática também? R: O que está a sugerir é uma moral dupla como a se conhece dos filmes do género. Do tipo: "A pátria precisa e quer que ages contra a lei, mas se fores apanhado, estarás por tua conta." No que diz respeito a violações de direitos humanos, nunca a considero aceitável. P: Se lhe fosse demonstrado que a defesa dos nossos valores não seria possível sem recurso a estes meios, mudava a sua posição? R: ... P: Não tem resposta? R: Não. 17.6.05
Quando escrevi o post da "aproximação voluntária" fi-lo para levantar uma questão que acho importante, e não para atacar ou desacreditar o Timshel enquanto pessoa ou nem sequer as suas opiniões. Tive escrúpulos por saber que especulava sobre os motivos de outrem, e também porque sabia das grandes diferenças entre o exemplo referido com Cunhal e o que quis apontar a ele. Disse-o no post. Mesmo assim, fiquei algo apreensivo com a sua reacção. Porque seria difícil dissipar a ideia de haver má fé da minha parte, ao comparar declarando saber que não devo comparar, ao adivinhar motivos declarando saber que não devo fazer processos de intenção. Mas esperava, conhecendo o Timshel, que ele não me atribuiria má-fé. Como calculava, o Timshel não me levou mal. E para a minha surpresa, houve ainda outra pessoa, que assumiu, de livre vontade, que enfiou o capucho: a Helena. (Ocasião para dizer como me acho feliz por ter interlocutores assim; não por me terem dado razão, mas por me terem dado razão num caso em que seria menos embaraçoso negá-la!) Mas outro amigo, o José do Guia dos Perplexos, não gostou. Aponta a ilicitude das minhas comparações: A de Timshel com Cunhal, e a do PCUS com o Papa Bento XVI. Não tenho como me defender. Evidentemente, o Timshel não é, nem de longe, Cunhal e o Papa não é o PCUS (ou Brezniev). É o problema das comparações, que as coisas comparadas (pessoas, instituições, neste caso) incluem sempre imensos aspectos em que a comparação não se justifica, para além daqueles que a motivaram. E é verdade que por isso as comparações são uma arma eficaz e popular no combate intelectual desonesto. Com elas consegue colar-se características ao visado que não têm nada a ver com ele. Reconheço que a crítica do José me afectaria mais, se não houvesse o eco positivo nos comentários, do Timshel e da Helena, claro, mas também do C.Indico, que diz: “Os 3 : Lutz, José(?) e o Nuno G. sentados a uma mesa simplesmente a conversarem”. É o que tento fazer no blogue, na medida que me é possível: falar como estivesse a conversar com amigos, o que me leva a faltar ao rigor – na escolha dos exemplos, por exemplo – e ao respeito, espicaçando o amigo com a insinuação de motivos, para fazer o meu ponto e para ver o que ele diz. É verdade que há diferenças e a blogosfera não é a mesa do café: as coisas ficam escritas, podem ser citadas e mal interpretadas, para além de lidos por virtualmente toda a gente. Mas decidi de não – ou pouco – importar-me com essa diferença, até ver. Agora, caro José, respondo à duas críticas à exigências no meu post que não fiz: Que um católico, um bloguista católico ainda mais, se dedica à tarefa de dar a conhecer a si e a outros os pensamentos do novo Papa, acho tão natural como legítimo. Até eu, não católico e discordando de grande parte do que lhe conheço, interesso-me por ele. E esforço-me, em nome da honestidade intelectual, para que a minha curiosidade não seja contaminada pelo desejo antecipado de atacar e desfazê-lo. Mas pela mesma razão estou atento para um eventual desejo antecipado de concordar, que julguei ter cheirado nos posts do Timshel. Ambas as posturas seriam, no meu entender, incorrectas, embora psicologicamente compreensíveis e até a um certo degrau inevitáveis. Não me excluo, evidentemente, desta avaliação. E assim posso dizer-te que a tua censura do meu P.S. se baseia certamente num malentendido. Longe de mim de exigir ao Timshel que abjurasse da sua eventual vontade de aproximação ao pensamento do Papa. Quem sou eu para exigir tal coisa?! Simplesmente quis dizer: E se me enganei redondamente ao adivinhar-te essa vontade, peço desculpa por ter montado uma crítica em cima dessa insinuação. |
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