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24.7.07
O meu breve encontro blogosférico com Pedro Arroja lembrou-me um outro que tive, há muitos anos, como jovem turista de mochila, em Hyderabad, Índia. Já não me lembro de muitos pormenores, mas foi num café próximo da estação de comboio, onde travei conhecimento com um simpático senhor, um homem culto que falava um excelente inglês, e acabei por aceitar o seu convite de jantar em sua casa. Era um muçulmano bastante moderno, que me apresentou não só os seus filhos como também a sua mulher, antes de ficarmos, entre homens, a beber chá à espera da refeição. Confessou-me que a razão de me convidar foi, entre outro, a grande estima que tinha por Alemanha e os alemães: o rigor, a disciplina... e tantos grandes homens! Cientistas, estadistas... Hitler, por exemplo. Calculava que não seria fácil para mim assumir em público, no estrangeiro, o meu orgulho pelo Führer, mas aqui com ele, dizia, podia estar a vontade. Não havia aqui nenhum inglês. [Risos] Talvez Hitler terá ido um bocado longe de mais, mas no fundo, no fundo, o homem tinha razão. Pena é que – sem ofensa, digo isso a brincar [sorriso] - pena é que vocês os alemães, apesar da fama de tão eficientes, não terem conseguido levar esta tarefa até ao fim: acabar com os judeus de vez. Reunindo toda a minha coragem, disse o que achava do meu grande compatriota Hitler. Cedo, logo depois do jantar mais confrangedor da minha vida, saí da sua casa, deixando atrás um anfitrião defraudado, consternado e muito ofendido. Etiquetas: antisemitismo 22.7.07
Num país fictício, um ditador louco acabou por concluir que toda a lástima que estava o seu país, era culpa dos seus cidadãos cujos apelidos começavam com a letra A. E com uma energia e uma brutalidade nunca antes visto, chegou a impor ao seu país a solução final deste problema: o extermínio de todas as pessoas cujo nome de família começava com a letra A. Não com o apoio, mas também sem resistência da restante população, que até tinha saudado a sua chegada ao poder, embora não acreditado que ele fosse tão longe, pôs em prática o seu projecto, servindo-se do aparelho de repressão poderoso de que dispôs. Não poupou nem homem nem mulher, nem velhinho nem bebé, e conseguiu exterminar mesmo todas as famílias A, excepto um resto ínfimo que de uma ou outra forma conseguiu escapar. Cinquenta anos volvidos, e desaparecido o ditador de má memória, os cidadãos da capital deste país fictício olham para o seu Museu da Cidade, e apercebem-se da ausência das famílias A. Lembram-se de como o seu contributo para a comunidade tinha sido grande e determinante, até ao momento do seu extermínio. E lembram-se como horrível e triste é terem sido assassinadas. Decidem então dedicar um departamento do seu museu à memória destes concidadãos, e de dar-lhe destaque, para compensar que eles, ao contrário das famílias com outros apelidos, hoje não têm presença na vida da cidade, e assim não podem, como estes, passar o seu património cultural às futuras gerações por herança familiar. Decidem ainda dar relevo ao acontecimento histórico, insólito na sua perversão, que foi o seu assassinato em massa organizado. Um dia, vem um turista dum outro país e irrita-se com este museu. Acha que está mal. Que não devia estar na cidade onde estas famílias viveram. Se teria que existir de todo, devia estar num país longínquo, num onde alguns sobreviventes das famílias A tinham conseguido refugiar-se. Mas não devia estar na cidade onde viveram e hoje fazem falta. Os cidadãos do país fictício olham para o turista com ar incrédulo: Seguramente, o homem não bate certo! Ou talvez não goste das famílias A. Etiquetas: antisemitismo 20.7.07
Soube através do Arte da Fuga que o Pedro Arroja visitou o Museu Judaico de Berlim e saiu dele irritado. Acho natural que qualquer pessoa que visita este museu sai dele no mínimo incomodado, se não abalado pela confrontação com o Holocausto que lá o esperava. (Uma nota sobre o que é o Museu Judaico de Berlim. É uma extensão do museu municipal da história da cidade, o Berlin-Museum, que já existe há muito tempo. Ou seja, o equivalente ao Museu da Cidade de Lisboa.) Repudia o Pedro Arroja o grande destaque que nele é dado ao Holocausto, em relação às outras épocas históricas. O AMN já disse o óbvio: como se pudesse ser não assim! Pois o Holocausto não é só mais um episódio da rica história judaica em Berlim, mas o seu fim. Depois de séculos de convivência, difícil e dificultada em muitas épocas, mas noutras tão natural que resultou na plena e frutífera participação em todas as esferas da sociedade, chega o extermínio, o apagamento. O vazio, o silêncio da morte, que nem campas tem, e quase ninguém quem as podia visitar. Não se exterminou só indivíduos, mas uma cultura toda que determinou, de forma intrincada e muito benéfica, durante séculos a vida desta cidade e do país de que é capital. O Pedro Arroja imagina "aquilo que pode pensar a actual geração de alemães, que nada tem que ver com o holocausto, e mais ainda as gerações futuras. Aquele Museu, cravado ali no coração da sua capital, não pode ser senão um factor de irritação permanente". Imagina mal. Pelo menos no que diz respeito a mim e aos compatriotas que conheço. (Aproveito para adiantar que fui cidadão de Berlim entre 1982 e 1994, ou seja, quando o projecto foi discutido, lançado e realizado.) Porquê imagina mal? O Museu Judaico é meu museu, nosso, dos berlinenses. Fomos nós que o construímos, que o queríamos. Não é, como por exemplo o Memorial Soviético, uma imposição duma potência ocupante em homenagem, justa ou não, de outrem aos seus. Muito menos representa, ao contrário do que o Pedro Arroja acha, um castigo, um dedo acusatório, apontado pelos descendentes ou representantes das vítimas aos filhos e netos dos assassinos. A ideia de que nós, os berlinenses, devíamos sentir-nos irritados, advém desta leitura errada. Mas precisamente porque não aceitamos esta leitura, não nos sentimos irritados. Porque sei que sou tão pouco culpado do Holocausto como o Pedro Arroja ou qualquer outra pessoa que nasceu depois de 1945. Contudo, como berlinense e alemão, identifico-me com a cidade e a sua história. É a minha. E quando visito o museu, faço o neste sentimento de pertença, não com culpa que só podia ser individual, mas com a responsabilidade que é colectiva e advém desta pertença. Faço o tanto como descendente dos assassinos como das vítimas, que eram – dado de barato a diferente época histórica - os meus concidadãos. E entristece-me não só o sofrimento das vítimas, mas também a irremediável auto-mutilação que a Alemanha e a minha cidade cometeram a si próprios. Como disse na ocasião do debate das velas em memória do pogrom do 19 de Abril de 1506 em Lisboa: Não há aqui um nós e eles, só há um nós e nós. Essa questão da pertença, a identidade que dela advém, o orgulho e a eventual vergonha nacional, tem de facto muito que se lhe diga. Porque é verdade que o mesmo argumento que me leva a recusar de envergonhar-me de um Hitler ou Himmler, enquanto alemão, (envergonho-me deles num plano mais alargado, do ser humano ou, em termos cristãos, do pecador) devia impedir-me de orgulhar-me de um Bach ou de um Thomas Mann. E a verdade seja dita: orgulho-me deles. Sei que é imbecil. Mas é assim. Até orgulho-me quando a equipa nacional alemã ganha no futebol (excepto quando joga mesmo muito feio), o que é, apesar de banalíssimo, igualmente imbecil: como se me pudesse orgulhar de algo que não é meu próprio mérito! - Sou assim, somos quase todos assim. E não o acho demasiado grave, desde que - se pensamos bem, o que talvez não somos obrigados de fazer 24 horas por dia - não nos esquecemos que isto é imbecil e desde que continuamos conscientes da nossa responsabilidade, que é reconhecer e acarinhar a verdade. É o que fazemos com este museu. E isso enche-me de orgulho, de um orgulho por um mérito colectivo, legítimo e mesmo nada imbecil: Que hoje somos capazes de viver com este passado terrível, sem encobri-lo com silêncio ou mentiras. Que todos o fossem. Etiquetas: antisemitismo 18.4.07
"A forma como os nazis se encenaram e presentaram, meus senhores! Falo dos filmes de Leni Riefenstahl e dos edifícios de Albert Speer e das marchas de massas e das bandeiras - simplesmente fantástico. Realmente belo."* Como noticia o DN, na segunda-feira, Bryan Ferry teve de apresentar desculpas e retractar-se publicamente por aquelas declarações, após se ter abatido sobre ele a reprovação dos principais líderes da comunidade judaica na Grã-Bretanha. Teve? Mas por que raio? - Consta que o fez porque as comunidades judaicas britânicas lhe cairam em cima e pediram, entre outro, à Marks&Spencer de lhe cancelar o contrato de publicidade. Se o Bryan Ferry tivesse um pouco mais tomates, não teria pedido desculpas mas apresentado queixa contra quem exigiu isso. Não sei se existe na Inglaterra uma lei que proíbe pressionar empresas para cancelar contratos com terceiros, por delito de opinião. Mas devia existir. Os líderes das comunidades judaicas deviam mas é preocupar-se com o antisemitismo. Para começar, recomendo eu, por exemplo não se pondo a jeito com exigências arrogantes e despropositadas. (* Traduzido daqui) Etiquetas: antisemitismo 16.4.07
Sabe o que essa palavra significa? - Não? - É o nome que os ciganos deram ao que lhes aconteceu na Alemanha nazi. Ou seja, é a sua palavra para o Holocausto. ![]() Famílias Roma à chegada no campo de extermínio Belzec Para além dos ca. de 6 milhões de judeus, foram assassinados entre 200.000 e 800.000 Sinti, Roma e Jenischen, povos ciganos, o que significa o seu quase extermínio: nos territórios sob o poder nazi, a taxa de sobrevivência era inferior a 25%. Não se sabe o número dos mortos com maior exactidão, porque, ao contrário dos judeus, não dispunham de registos da sua população para permitir uma estimativa rigorosa. Faltou-lhes - e ainda hoje falta-lhes - também um lobby poderoso para insistir no seu inegável direito a que lhes seja reconhecido, à semelhança dos judeus, serem vítimas deste crime incomparável. Só pouco a pouco, na Alemanha, isto acontece, mas duvido que uma vez chegarão ao ponto equiparável aos judeus. O extermínio dos ciganos, na prática em tudo igual - os mesmos campos, as mesmas câmaras de gás, a mesma desumanidade contra homens, mulheres e crianças, o mesmo objectivo último dos seus assassinos, o seu extermínio total, obviamente não diminui o que foi feito aos judeus. Por isso não compreendo, e não tenho paciência para discussões mesquinhas, que infelizmente existem, sobre se o Porajmos é ou não é equiparável ao Holocausto. É. No dia de recordar o Holocausto (que era ontem), pareceu-me bem colocar - desta vez - o reâlce nas outras vítimas, nos ciganos, sem esquecer os homossexuais, os Testemunhas de Jeová, e os comunistas. Sobre o Porajmos: Porajmos (Wikipedia); Historical Amnesia: The Romani Holocaust; A brief romani chronology of the Holocaust; Sobre a palavra Porajmos; Jewish responses to the Porajmos Etiquetas: antisemitismo 18.3.07
![]() ![]() ![]() Até hoje não sabia da existência de Irene Sendler. Agora sei, devido a um artigo do Spiegel. Irene Sendler era enfermeira quando os Nazis ocuparam Varsóvia e iniciaram a perseguição sistemática dos judeus. Começou a sua actividade de resistência ao falsificar documentos para possibilitar a judeus necessitados de continuar de beneficiar da segurança social. Em 1940, após o internamento dos judeus no gueto de Varsóvia, isso deixou de ser possível. Sendler e as suas colegas conseguiram então arranjar documentos que as autorizavam visitar o gueto regularmente, como técnicas de saúde, devido ao medo que os nazis tinham de epidemias, para quais as condições no gueto eram obviamente propícias. Quando em 1942 começaram as deportações para os campos de extermínio, Sendler criou um plano para salvar as crianças do gueto. Para que elas, depois da guerra, constituissem o núcleo duma nova vida judia, e assim contrariar o objectivo dos Nazis da aniquilação de tudo que era judeu. Contactou com a Zegota, uma organização de resistência que unia judeus e não judeus, e o director desta organização convidou Irene Sendler de criar e dirigir então o “departamento Crianças”. No gueto, iam de família em família e disseram-lhes que tinham a possibilidade de levar as crianças, clandestinamente, para fora. Muitos pais e mães não conseguiram separar-se dos seus filhos, e frequentemente, quando as enfermeiras voltaram no dia seguinte, para persistir na tentativa de convecê-los, já não encontraram ninguém. No total foram assim salvas cerca de 2500 crianças. Saíram escondidas debaixo da maca da ambulância, através do edifício do tribunal, que tinha uma entrada para a porta do gueto e outra para o lado “ariano”, ou pela canalização. Algumas foram anestesiadas com soporíferos e levado em sacos ou malas. As crianças foram primeiros levadas para “centros de segurança” clandestinos, onde lhes ensinaram de comportar-se como crianças polacas não judeus, depois foram distribuídas, com nova identidade, para famílias, orfanatos e conventos. Os nomes das crianças Irene Sendler guardou, em código, em papel de cigarro, que enterrou em garrafas no quintal. Assim queria assegurar a possibilidade da posterior restituição às suas famílias originais, que, como se sabe, todavia quase nunca sobreviveram. No 20 de Outubro 1943 a SS prendeu Irene Sendler na sequênçia duma denúncia. Desmontaram a sua casa até às fundações, mas não encontraram as listas. E Irene Sendler não cedeu os nomes nem na tortura, quando lhe esmagaram os pés e lhe partiram ambas as pernas. Foi condenada a morte, mas pouco antes do fuzilamento, a Zedoka conseguiu subornar um guarda da SS que a espancou e atirou para fora do camião que a ia levar para a execução. Conseguiu manter-se na clandestinidade até ao fim da guerra. Em 1965 foi homenageada por Israel, em Yad Vashem, como uma “justa entre os povos”. Mas na Polónia, nos cinquenta anos que se seguiram à ocupação nazi, ninguém lhe ligava muito. Era uma resistente, mas não era comunista. Só nos anos noventa começou a ser reconhecida no seu país e objecto de merecidas homenagens. Mas ela não se sente heroína. Diz que ainda hoje sofre com a sua consciência: porque não fez mais e melhor do que fez. Não foi eu que foi salvo por ela, mas mesmo assim, mais do que admiração lhe tenho ainda gratidão: São pessoas como Irene Sendler que são, como alguém disse, a beleza do nosso mundo. (Mais sobre Irene Sendler aqui, em inglês.) Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral 16.2.07
De leitura obrigatória! De facto, é difícil compreender como quem vive em Israel consegue dormir à noite. E o sono dos que vivem noutras partes do mundo, mas se preocupam com a sua sobrevivência, não merece estar muito melhor. Ultrapassado o assalto de angústia, que a leitura deste artigo provoca, voltamos à pergunta: o que fazer? Parece que estamos remetidos à lógica do equilíbrio do terror da Guerra Fria. Que resultou, durante 40 anos. Mas não esqueci porque vivi nele - como habitante da principal warzone - tão desconfortavelmente: O equilíbrio do terror pressupõe um mínimo de racionalidade em ambos os lados. E se este pressuposto já é sempre de fraco fundamento, se pensamos em longos prazos, o que resta dele se olharmos para o actual presidente iraniano? Como o Irão ainda não tem a bomba atómica, há ainda tempo para um "preemptive strike". Aconselha-se? Falta-me know-how militar para avaliar a sua eventual eficácia, os seus riscos militares e os danos colaterais, que são de levar em conta. Mas é uma opção a considerar, se falamos de ataques cirúrgicos aos locais de produção e/ou armazenamento dos equipamentos militares nucleares. Porém nunca poderá ser uma solução a longo prazo. Pode adiar o problema por alguns anos, que voltará. E é verdade, bombas atómicas também podem-se comprar... Sobre a desadequação duma intervenção militar abrangente deve estar hoje, depois do desaire do Iraque, esclarecido até o crente mais tonto no poderio militar ocidental. Aliás, assentamos no débito pesado da política externa da Administração Bush, que o desaire do Iraque contribuiu muito para este actual problema com o Irão, que agradece a demonstração da referida desadequação bem como o reforço do seu espaço de manobra face a muito debilitada autoridade americana na política internacional. Voltamos então à opção política, que pode já não bastar para conter o perigo iminente, mas continua a ser, quão difícil sempre seja, ao longo prazo a única opção que realmente pode levar a uma solução. Daí, o que não devemos perder de vista, indepedentemente de como se responde à ameaça iminente, é a pergunta: o que podemos fazer para fomentar que no Irão prevalecerá a racionalidade, o respeito pelos direitos humanos e pela paz? Tendo em atenção que o Irão é, para além de uma cultura rica de história milenar, uma sociedade com um nível de educação elvado, e uma democracia... Há ainda uma lição importante desta crise, que não devemos ignorar: Não é o problema palestinianiano a fonte desta actual maior ameaça à existência de Israel! É antisemitismo puro e duro. Etiquetas: antisemitismo 15.4.06
Caro Nuno, fico grato pelo teu post sobre o debate do teu apelo. E fico grato e feliz com a tua apelidação de mim como amigo, apesar das posições divergentes que temos nesta questão e de alguma desilusão que te adivinho na tua apreciação do meu repto. Pois quando dizes que nunca imaginaste que poderias ser intimado (o itálico é teu) a explicar-te e a expor as razões (idem) subjacentes a tal iniciativa, não posso deixar de me achar visado. Fui eu que te pedi de precisares “em nome de quem, a quem e para quê” lançaste o teu desafio. E recusas de responder, fazendo tuas as palavras de Francisco José Viegas: “Não estou na disposição de discutir com ninguém a ideia de eu acender uma vela em homenagem às vítimas do Pogrom de 1506 e da Inquisição portuguesa. Eu vou. Não obrigo ninguém a ir. Não exijo que ninguém vá. Pedi a alguns amigos que me acompanhassem. A minha decisão é puramente individual, e quando escrevo «nós vamos» refiro-me aos que vão e querem ir. Portanto, não estou disposto a discutir aquilo que a minha liberdade individual e as minhas opções e crenças me levam a fazer. Aliás, não entendo nem a natureza da discussão nem o seu objectivo.” Sinto aqui bastante crispação que me parece toldar o raciocínio. O que pode ser razoável para o FJV, que não lançou este desafio, deixa-me algo perplexo da tua boca. Fazes um apelo, mas recusas-te a explicá-lo melhor a quem o solicita? Que devo concluir disto? Que me enganei, que o apelo não me era dirigido? Que a minha pergunta é tão absurda, que mais ninguém se interessará pela resposta? Ou que achas que o meu pedido de explicação não merece resposta por ser de má fé? E porque entendes o meu pedido como intimação? A minha pergunta não foi retórica. É verdade que, para a minha triste surpresa, também ouvi da boca de outro blogger que estimo muito, do Gabriel Silva, que essa pergunta constituia um processo de intenção. Tentei imaginar como lhe podia ocorrer essa ideia, e conclui que acha que quis insinuar motivos inconfessáveis. Mas por acaso só me ocorrem motivos confessáveis. No post O comentário do alemão apresentei duas possiveis leituras. Duas leituras muito claras e explícitas. Nenhuma delas indigna e escandalosa, só diferentes. Uma assumiu a defesa duma causa comum a todos a quem se dirige o apelo, outra a defesa duma causa particular. Acho que a possibilidade da leitura de que a comemoração teria como objectivo não só a memória, mas o reconhecimento duma dívida moral por parte dos portugueses para com o povo judeu, afasta possiveis apoiantes. Se esta leitura não é intendida, não seria melhor evitá-la, na medida do possível? Mas se ela também o é, não seria então melhor, em nome da transparência, deixar isto claro? (Eu pessoalmente não acho que intendes o reconhecimento duma dívida moral, mas percebo que alguém possa achar o contrário. Não estou 100% seguro que não o fazes, mas digo-o outra vez: reclamar esta dívida não seria escandaloso!) Dizes ainda: “Nada disto teria acontecido se os mortos não fossem judeus portugueses; se este desafio à lembrança e à preservação da memória não tivesse sido feito por um judeu; caso não tivesse partido de um blog marcadamente judaico escrito por um judeu. Este “questão” não existiria (nunca!) se eu não fosse quem sou…” É verdade. Só, porque o escreves confirmando uma observação minha, tenho de prevenir dum malentendido: Quando desejei que tivesse sido um não judeu (o Rui MCB) a lançar o apelo das velas no dia 19 de Abril, não entendi, obviamente, que se devia ou podia omitir o facto de que os assassinados do massacre de 1506 foram judeus e foram assassinados por serem judeus. Muito pelo contrário. Só que achava que teria sido melhor para o apelo, se ficasse acima de qualquer suspeita que ele foi feito para lembrar os nossos mortos, os nossos crimes, para o nosso bem. Ainda vou explicar melhor a minha insistência no “nós”... Felizmente acabaste por exprimir ainda de forma muito clara o que te moveu para o apelo. A memória. Eu acredito, mais, sei: A Rua da Judiaria é prova como estás empenhado na preservação, na reconstrução da memória dos judeus portugueses. E o sucesso do teu blogue é o reconhecimento do serviço que com isto prestas não só aos judeus mas também aos portugueses em geral. Mas com esta manifestação isto é diferente. Aqui não só tomamos conhecimento da história. Esta homenagem é um acto simbólico em que as pessoas participam partindo de pontos de partida diferentes. Para ti ela é a evocação de mais um episódio do sofrimento do teu povo judeu, nada melindrosa para o teu, o vosso amor-próprio colectivo. Para os portugueses não judeus, ela é o reconhecimento dum episódio vergonhoso, que mancha a época mais constituinte para o seu orgulho nacional. Para além da inevitavel ferida narcísica (perdoa-me o psicologismo) que o reconhecimento público deste crime constitui para a alma nacional, há um outro problema que agrave a resistência à homenagem: Que uns se sentem convocados pelos representantes das vítimas para participar nela como representantes dos assassinos. Para que os descendentes das vítimas e os descendentes dos assassinos consigam lembrar conjuntamente os mortos de 1506, é preciso construir um “nós” que abrange todos da mesma forma, e em que cada participante se assume tanto como representante dos perpetradores como das vitimas. O que é possivel, na irmandade que partilhamos num plano superior ao dos nossos povos, na nossa humanidade. Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral, sel 11.4.06
Há quem ache que com o post anterior corri um certo risco. O JPT disse que com ele o QeP se assumiu como blogue de referência (grande gargalhada!) e desde então deixei de ser o "simpatico alemão" e passo a ser "o c... do huno". O Dragão até entendeu de me dispensar da obrigação de linkar o seu contributo para o meu inquerito, pois não queria que me comprometesse a minha reputação! O silêncio com que foi recebido o desafio do Nuno Guerreiro parecia-me esconder mais do que indiferença. Fiz uma pergunta específica, mas não era só a resposta a ela que queria. O post vem na sequência da discussão que travei, nas últimas duas semanas, nomeadamente com a Helena do Dois Dedos de Conversa, sobre os limites da liberdade de expressão. Quis demonstrar que o tabu do anti-semitismo não só inibe as pessoas de dar opiniões insultuosas e de incitar a violência, mas também inibe a exposição de opiniões nada indecorosas que simplesmente são desfavoráveis em relação à causas judaicas. O que acho mal. Contava com algum eco, não com tanto. Contava com alguma emoção, algum ressentimento, mas não com tanto. No muito que se escreveu nos comentários aqui, nos outros posts, mas também nas caixas de comentários destes, a irritação, o ressentimento ultrapassa em quantidade e intensidade os comentários e posts ponderados. Mas houve excelentes contributos, que dão argumentos e que dão que pensar, e que por si só, para mim fizeram valer a pena o meu repto. Só como exemplos, um em favor do Não e um do Sim, destaco os posts do Miguel Silva e do Rui MCB, a quem ainda quero exprimir a minha admiração pela forma como se aguentou com uma paciência angélica num ambiente maioritariamente hóstil e carregado de emoção, para não usar outro termo mais forte. Fiquei admirado de que as pessoas que sentem tanta, digamos: irritação, com a proposta do Nuno Guerreiro que mesmo depois duma dúzia de comentários esta não lhes passou, não caiem em si e se perguntam a si próprios de onde toda essa raiva vem, e se isso não é ressentimento? (Sim, Zazie, essa é para ti, não só mas também.) Nem toda a irritação, nem todo o ressentimento será necessariamente anti-semitismo. Mas também houve-o inquestionável, apresento aqui um exemplo quase tocante na sua extrema candura, nesta pergunta num comentário a um post do Dragão: “Sejamos honestos... há alguém que goste de judeus?” Pergunta-se o que é a experiência de vida de quem acha natural que ninguém goste de judeus. Será que no seu dia-a-dia vê-se vítima deles, a si, os seus familiares, os seus vizinhos? Ou a resposta é do Umberto Eco, citada pelo Timshel? Será que exagerei, que abri uma “caixa de Pandora”? Respondo com um não convicto, e se abri, que acho que valeu a pena! Porém não ignoro, ou pelo menos imagino, que para o Nuno Guerreiro a leitura do que se escreveu aqui deve ser dolorosa: tomar contacto com tanta aversão, ressentimento, ódio. Para mim a seria, se estivesse no seu lugar. E fico genuinamente triste. Mas como disse, suprimir que ele se exprime não me parece melhor. O Nuno ainda não respondeu ao meu pedido de explicar em nome de quem, a quem e para quê lançou o desafio. Talvez ainda vai, talvez não queira responder. Eu achei-o importante. Porque, anti-semitismo a parte, a crispação resultou talvez dum malentendido. Pois o seu desafio pode ler-se: “Eu, português, desafio os meus compatriotas para que encaremos a nossa história de frente, em nome da verdade, em nome das vítimas de então e para que possamos, através de tomar consciência do perigo dos ressentimentos, evitar vítimas no futuro.” Mas também: “Eu, judeu, desafio os portugueses para assumir a vergonha dos crimes que eles cometeram contra os meus antepassados, e para reconher a sua dívida moral para com o povo judeu.” Ao primeiro apelo, entendo eu, qualquer português pode corresponder de bom grado. Ao segundo... Tenho a maior compreensão para os que mandam dar uma volta a quem faz o segundo. (Obviamente Portugal 2006 não se compara com a Alemanha 1945, nem com a Alemanha 2445.) E é verdade que o Nuno não está muito bem colocado para evitar a ambiguidade do apelo. Mesmo se quisesse, não vejo como se podia livrar da suspeita que não tem motivos da segunda. Por fim não quero furtar-me a responder a minha pergunta: Eu não vou acender uma vela, por causa da ambiguidade do contexto, e porque como estrangeiro que não tem nada a ver com este massacre, não me parece útil dar lições aos portugueses. Mas vejo com muito respeito e simpatia pessoas como o Rui MCB que o fazem. Tomara que teria sido ele a lançar o desafio! Etiquetas: alemanha, antisemitismo, cidadania, moral, sel 9.4.06
Linkei aqui ao lado os posts do Nuno Guerreiro sobre o Pogrom de 1506. Não fiz ainda eco do seu apelo de vir na Quarta-feira, dia 19 de Abril à Baixa de Lisboa e acender uma vela em sua memória. Alguns bloguistas juntaram-se ao apelo; sei de outros que, menos abertamente, mostraram o seu pouco entusiasmo com a ideia. Suspeito que entre os muitos que ignoram o apelo, há quem o faz para poupar-se de ter que discutir o seu desagrado com a proposta. Gostava muito de ouvir os argumentos de quem se incomóda ou irrita com o apelo. Como gostava de ouvir o Nuno explicar em nome de quem, dirigido a quem e para quê o fez. Uma discussão aberta e controversa sobre isto acharia muito mais útil do que a congregação, no dia 19, de umas centenas de pessoas bem intencionadas e emocionadas, e de um número que não sei estimar, mas acredito ser maior, a torcer, às escondidas, o nariz e a engolir um comentário desagradável. Adenda: Para além dos comentadores aqui em baixo já se pronunciaram o Musaranho do Cocanha, o Rui do Adufe, o Miguel do Tempo dos Assassinos, o LNT do Tugir, a Abrunho do Contemplamento, o JPT do Ma Schamba, o Dragão no seu Dragoscópio, o Marco do Povo de Bahá, a Helena no 2 Dedos de Conversa, a Ana Cláudia no Amigo do Povo, o João Tunes do Água Lisa 6, o AMC do Porque, o Francisco José Viegas da Origem das Espécies e a Carla do Elsinore. A ver também este post do Minicente com links para os vários posts que o Luis Carmelo escreveu sobre o assunto. O Luis da Natureza do Mal também apoia o apelo da Rua da Judiaria. Agradeço a quem me faculte links para blogues que tomaram posição em relação à questão das velas, que vou incluir nesta lista, enquanto não incluirei blogues que só referem o Pogrom de 1506 ou posts sobre ele. Claro que a caixa dos comentários está aberta para estes links. Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral, sel 31.3.06
Helena, li a tua resposta com muita atenção. É dificil respondê-la com a seriedade que merece num único post, e ainda mais difícil sem que isso se torne um exercício longo e maçudo (pelo menos para terceiros). Alguns tópicos também interessantes, como o do ódio da mulher judia que conheceste e as anedotas do horror, deixo - por enquanto - de fora, os outros tento aqui tratar em separado por parágrafos. Sobre o estudo em questão volto a não me pronunciar. O meu post não quis meter-se na discussão sobre se ele é correcto ou errado, de boa ou de mã-fé, anti-semita ou não. Ele era sobre a provocação do Dragão e das reacções que ele provocou, e sobre a sua tese original, ou seja, nâo a do estudo citado, mas de que o discurso sobre “os judeus” está condicionado, pela ameaça de classificação sumária de anti-semitismo. Apoiei esta tese e ainda defendi que o post não é racista (excluindo o relatório desta questão). Sobre a linguagem: Criticas a minha defesa do termo “pencudos” e o termo “os judeus” que empreguei no meu post. Aqui tenho efectivamente alguns pontos a corrigir, porém talvez noutros termos como esperas. “Pencudos”: Tinha um familiar que se referiu invariavelmente aos asiáticos como “olhos obliquos” (“Schlitzaugen”). Mesmo quando o fazia num contexto aparentemente inócuo, ao falar das suas viagens como turista “Neckermann”, isso incomodava-me a mim e os demais ouvintes na família, pois na verdade era impossível não reparar no ressentimento subjacente e na boçalidade da postura. Da mesma forma, quem por hábito se referia aos judeus como “pencudos”, deixaria transparecer o mesmo ressentimento e igual falta de educação. Assim, não vou perder tempo a discutir contigo se a minha ressalva, em que disse que a denominação dos judeus como “pencudos” [...] teria, à partida, nada de racista, foi suficiente. Melhor teria feito ao admitir desde já que “pencudos” obviamente foi e pretendeu ser depreciativo. (O Dragão me corrija...) Mas mantenho, mesmo assim, que o título “O Sacrossanto Lobby dos pencudos” é perfeitamente legítimo, e não só à luz da defesa abstracta da liberdade de expressão. Não me ocorreu por um momento que o Dragão seria pessoa para chamar por regra “pencudos” aos judeus, à maneira do meu tio; estava e está claro para mim que usou a expressão intencionalmente, num registo irónico, retórico, isto é: literário, no caso até claramente identificável como tal. Assim ela deixou de ser um indício dum ressentimento racista. E como não me interessam as palavras, mas a ideia subjacente, que aqui era a provocação de reacções como a tua para ilustrar a sua tese, não tinha e não tenho nada a objectar ao título daquele post. Também fizeste-me um reparo ao meu emprego do termo “os judeus”, que aceito no caso em que falei do “lobiismo político dos judeus” (no último parágrafo). Aqui deveria ter dito “lobiismo político judeu”. Mas não no exemplo por ti apresentado: “O livre discurso sobre questões relacionadas com os judeus”. Como podia dizer isto de outra forma? Não haverá questões relacionados com os judeus? Será que isto não existe, “os judeus”? Claro que existe. Não foram perseguidos e assassinados no holocausto judeus, ou seja pessoas que acidentalmente eram judeus, mas os judeus. E não só o inimigo define os assim. O Nuno Guerreiro não está a documentar a história de, mas dos judeus portugueses. A receita alemã: Dizes, e quem pode negá-lo, que “a mistura entre informação, trabalho individual de tomada de consciência dos preconceitos subjacentes aos discursos, e inclusivamente a censura de certas expressões”, teve resultados muito positivos no combate ao anti-semitismo e o racismo no país do Holocausto. Hoje estes males ali não são mais expressivos do que noutros países vizinhos. Talvez numa sociedade que acabara de sair do Império dos Mil Anos, a criminalização do discurso racista e a censura da linguagem realmente foram necessárias. Mas custa-me de aceitá-lo, por uma objecção de princípio. Acredito na informação, no trabalho de tomada de conciencia dos preconceitos subjacentes aos discursos sim, na censura de certas expressões não. Já discordámos sobre isto na ocasião do debate sobre os cartoons dinamarqueses. Não gosto das medidas coercivas e nomeadamente não confio nos seus resultados. Elas suprimem, mas não vencem o ressentimento. As primeiras duas apostam na liberdade e na responsabilidade do homem, a última pretende e consegue comportamentos irreflectidos e irracionais. Talvez perguntar-me-as, se acho realmente que a minha insistência piquinhas na ideal e pura liberdade terá qualquer importância, perante uma receita que tem tido tanto sucesso a prevenir um novo Holocausto? Não qualquer crime: um Holocausto. - Respondo: Sim, acho. Pois não é secundário apostar na liberdade e responsabilidade. Para quem acredita na possibilidade de que a luta contra o mal não se limita a uma eterna luta defensiva, a resposta só pode ser sim. A censura, a regulamentação da linguagem podem assegurar hoje o efeito desejado, mas amanhã, como já ontem foi o caso, outra censura, outro condicionamento da linguagem assegurarão semelhante efeito, mas para um objectivo inverso. Por isso, a insistência na liberdade de expressão não é um luxo, não é excesso, não é algo para que, como o Diácono Remédios diria, “não havia necessidade!” Há necessidade, sim! Criticar Israel sem ser anti-semita: Apresentas um - aliás excelente - site alemão como exemplo como é possível criticar a política de Israel sem ser arrumado no campo anti-semita. Este site é um bom sinal, e certamente haverá outros. Mas a sua existência não desmente o condicionamento da discussão pública da política de Israel pela ameaça de ser classificado como anti-semita. O artigo de Ralf Dahrendorf, que recentemente comentei, ilustra-o de forma flagrante. Um último aspecto, talvez um pouco lateral ao debate, mas importante: Depois do choque de se confrontar com o indizível crime cometido pelos seus compatriotas, muitos alemães de bem desenvolveram nos anos a seguir ao Holocausto um filo-semitismo, uma reacção inspirada por sentimentos de vergonha e culpa e com a vontade de reparar, de compensar algo, mesmo ciente de isto ser, no essencial, impossível. Muitas alemães um pouco mais velhos do que eu foram por exemplo trabalhar durante uns meses num kibbuz. Sendo os judeus os príncipais vítimas, apoiá-los, identificar-se com eles foi uma resposta natural. E instalou-se uma equação moral simplista, que rezava mais ou menos ser decente = ser contra o holocausto = ser filosemita. O que se quase esqueceu era que o Holocausto nos obriga não só em relação aos judeus. Mais do que a expressão extrema do anti-semitismo, o Holocausto foi a falência da mais elementar humanidade. Por isso o primeiro mandamento a formular a partir desta experiência não deve rezar “Não sejas anti-semita!”, mas “Não abandonarás a tua humanidade!” Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral, sel 27.3.06
Um post do Dragão, que foi publicado já há alguns dias, deu origem a um debate, por vezes azedo, sobre a sua propriedade e o seu conteúdo eventualmente anti-semita. O post é simples. Faz referência a um estudo americano que descreve o (suposto?) poder do lóbi judeu na política externa americana. Para além da citação, o Dragão prediz as reacções indignadas – censórias - ao seu post, e para que a sua previsão se cumpre, escolhe um titulo provocatório: “O Sacrossanto Lobby dos pencudos”. Teve sucesso. Entre outros, a Helena deixou-se provocar, e surgiu o debate em que ainda participava, com destaque, a Zazie. Não li o tal estudo, por falta de tempo e de pachorra: se ele está mal ou bem feito não sei, para mim está adquirido que os judeus têm um lóbi poderoso nos EUA e não só, não está adquirido que isto é algo em si censurável. Agora, se o livre discurso sobre questões relacionados com Israel ou os judeus está condicionado pela omnipresente ameaça de se ser moralmente e sumariamente disqualificado como racista e anti-semita, já me interessa muito, não só em nome da liberdade de expressão como em nome da justiça e da razão. E está, não há dúvida. Ainda há dias apontei-o num artigo duma pessoa tão respeitável e lúcida como Ralf Dahrendorf . E o Dragão não está só ao sentir a mordaça, ao sentir de que não se pode dizer com a-vontade o que se pensa sobre esta questão. Para mim e para os alemães em geral a auto-censura neste domínio tornou-se virtualmente uma segunda natureza. Uma segunda natureza ainda incómoda para quem não interiorizou o tabu de tal maneira de que este deixa de acusar a sua existência. Para este ele significa um permanente peso na consciência, a noção duma deficiência moral. Como se o anti-semitismo fosse uma doença, um vício que ainda não conseguímos erradicar completamente, que, aliás, porventura será impossivel de erradicar em nós e por isso nos obriga ao combaté-lo eternamente... Um preço que estariamos, os alemães, talvez justamente a pagar, enquanto povo, se acreditasse que povos deviam pagar preços, e pagável comparado com outros preços que outros povos tiveram de pagar. Mas claro que não acredito nisto, não acredito em limitações do pensamento, que infelizmente e invariavelmente decorrem de tabus. Por isso, embora que não aprecio especialmente o estilo do Dragão, que frequentemente substitui uma argumentação leal pela sua retórica draconiana, simpatizo aqui com a sua provocação e suprimo o bem adquirido reflexo pavloviano de sacar o cacete do anti-semitismo. A denominação dos judeus como "pencudos" ou dos membros de etnias africanas como "pretos" tem, à partida, nada de racista, e deduzir do facto de que essas expressões são usados no discurso racista a sua proscrição é um exercício do politicamente correcto, que mostra a sua qualidade lamentável, que é a preguiça intelectual. Não há nada mais nocivo para a inteligência do que o cerceamento da linguagem. Eu sei que a crítica da Helena ao post não se centra só no “pencudo”, mas sim no estudo referido e a sua alegada tese que, como disse, não li, mas acredito na Helena e no Dragão que seja essa, de que a política externa dos EUA está refém dum lóbi judeu poderoso e por ele é levado a agir contra os próprios interesses e os de grande parte do mundo. Se isto é o caso ou não, acho eu, devia poder discutir-se sem que se chame logo anti-semita a quem o defende. Devia, mas é de facto impossivel. Detesto teorias de conspiração, e algumas das teorias mais detestáveis foram usados contra os judeus – aliás, seguramente são eles que levem a taça no campeonato mundial dos objectos de teorias de conspiração – mas não decorre da detestabilidade delas que não existem conspirações. Curioso salto de raciocínio: Porque estou a falar em conspirações? Só falavamos em lóbi. Aí está o problema: Basta alguém referir um lóbi judeu cuja influência ultrapassa as fronteiras dum país, vêm nos irremediavelmente à cabeça, entre outro, “os Protocolos dos Sábios de Zion”, e a “Conspriação do Judaismo Mundial”, tão badalada pelos Nazis, e colocamos o pobre diabo na desagradável companhia dos defensores destas teorias, e identificamo-no com os seus objectivos. Na prática isto significa que na discussão do lobiismo político dos judeus só ha dois campos: Os que defendem que este não existe ou que não existe nele nada de criticável, e os anti-semitas. Isto não é aceitável. Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral, sel 8.5.05
Etiquetas: alemanha, antisemitismo, sel 8.4.05
Quando vi o famoso documentário The wonderful, horrible life of Leni Riefenstahl, de Ray Muller, fiquei muito impressionado pela energia, pela coragem e pela força de vontade da realizadora. Proscrita e impedida de fazer filmes, e sem grandes meios económicos, encontrou forma de continuar a trabalhar como artista, entre outro na África, e comecou aos 70 anos a fazer fotografia subaquática. Para poder aprender mergulhar, teve de falsificar a sua idade no BI para os 50. Não se pode negar que a sua própria vida foi um triunfo da vontade. Embora que também sobre a sua consciência, como Jens Jessen muito bem diz. Até ao fim Riefenstahl sentia-se muito injustiçada pelo castigo "McCarthyista", que sofreu depois da guerra. Não lhe ocorreu comparar essa injustiça àquela que aconteceu aos seus comparsas ciganos, mas antes - aqui admito que especulo - ao destino dum outro alemão, contemporáneo seu, que também tinha uma paixão e uma vontade indomável. Que também não se interessava pela política a não ser que ela lhe fosse útil para ajudar à realização dos seus projectos. Não foram umas dúzias de ciganos, foram milhares de trabalhadores forçados, presos de campos de concentração, que pereceram nas condições mortíferas e nos bombardeamentos dos Aliados das fábricas de Peenemünde, onde construia os misseis V1 e V2. Para não falar dos habitantes civis de Londres, que eram os seus alvos. Wernher von Braun sempre alegou, o que é absolutamente credível, que não era o Endsieg, que o fez correr, mas a sua obsessão com os foguetões, o sonho de viagens no espaço. A carreira pós-guerra do pai do Saturn V, que levou os americanos à Lua, e de outros foguetões, que transportam ogivas nucleares, é conhecida. Não foi marcada pela ostracisão. Etiquetas: antisemitismo O bombyx mori (que nome intrigante!) convida-nos a dizer a nossa razão sobre isto: A questão (uma questão!) que a obra de Riefenstahl – intimamente ligada à própria construção do regime nacional-socialista como regime de matriz estética para realizar a grande epopeia do renascimento do povo alemão – suscita é saber se devemos e/ou conseguimos apreciar um trabalho artístico, no caso cinematográfico, autonomizando-o das injunções políticas (monstruosas) que ele transporta. Desprezo particularmente quem me quer pre-escrever, por razões morais, de que devo ou não gostar! Longe vão os tempos quando andava, como estudante de arquitectura do primeiro ano, de consciência pesada por descobrir que gostava do Estádio Olímpico de Berlim. Algo devia estar terrivelmente errado comigo, pensei. Mal saído do lar da família, revelei me um proto-fascista... Enquanto todos os meus colegas falavam da responsabilidade social das artes em geral, e da arquitectura em especial, eu perdi-me em longos passeios solitários e excitava-me com a construção monumental do aeroporto de Tempelhof, em vez de aprender aplicar as receitas de Lucien Kroell e de Günter Behnisch, como fazer "arquitectura democrática". Mas viver em Berlim também tem as suas vantágens: incentiva uma pessoa a assumir-se. Se os homossexuais podem fazer o seu coming out, porque então não podia confessar os meus gostos suspeitos? - Também não era verdade que estava tão só: Ungers, Rossi e Grassi estavam bem presentes, embora que a sua arquitectura estava proscrita, entre os meus colegas, como "arquitectura fascista". Voltando à Leni Riefenstahl. Claro que ela não só serviu ao Nazismo com uma propaganda muito eficáz; a sua arte era efectivamente adequada à sua ideologia. Também é verdade que ela tirou proveito do apreço que o Führer tinha por ela, até ao ponto de usar presos de campos de concentração (ciganos) como comparsas para o seu filme Tiefland. E é verdade que nunca assumiu responsabilidade pela sua parte no desastre humano e moral que o Nacional-Socialismo foi. Isso terei em conta para apreciar a pessoa Leni Riefenstahl. E a obra? Triumph des Willens e Olympia são obras primas. Não é possível ver um filme de Hitchcock, e os de todos que aprenderam com ele, sem reconhecer a dívida que este tem com Riefenstahl. E não há nenhuma transmissão dum evento desportivo, que não deve a Olympia. Leni Riefenstahl acrescentou novas palavras, uma nova gramática, à linguagem cinematográfica. É hipócrito não admitir isso. É estúpido não querer ver a arte na sua obra, não querer aprender com ela. É legítimo entusiasmar-se com ela. (Só é preciso não esquecer para que foi usada e para que podem servir os meios que inventou e empregou.) Quem limita a sua percepção artística por considerações moralistas, demite-se do território das artes, e escolhe passar a sua vida como um castrado no recreio da criatividade condicionada. Etiquetas: alemanha, antisemitismo, sel 27.1.05
Nasci na Alemanha, em 1960. Vivi numa vila pacata perto da fronteira holandesa, onde frequentei a escola primária, liceu, fiz o serviço cívico substituto do serviço militar para objectores de consciência; mais tarde mudei-me para Berlim, onde estudei e trabalhei, até 1993, quando emigrei para Portugal. Tenho boas memórias do meu país. Um país feliz, um país rico. E quando mais recuo na minha memória, aos anos setenta, sessenta, mais me aparece um pais pacífico, solidário e decente. Nada de que me lembro, evocou os horrores do regime nazi, da guerra, do holocausto. Nos anos cinquenta e sessenta, os tempos do regime nazi, a própria guerra mundial, e antes de mais Auschwitz foram assuntos tabu, apesar de todas as cerimónias de lembrança e dos mea-culpa oficiosos, e apesar da assunção pública da herança do estado nazi, isto é, da responsabilidade pelas consequências do holocausto, por todos os governos alemães (federais) desde 1948. Demasiadas pessoas que viveram os tempos da guerra e do holocausto em idade adulta, preferiam reprimir e esquecê-los, por um sentimento mais ou menos concreto, e caso à caso mais ou menos individualmente justificado, de culpa. Isto mudou no fim dos anos sessenta, antes de mais graças a geração de ’68. Na Alemanha, essa geração tinha, para além do idealismo e da ideologia marxista, um missão moral muito própria, uma pergunta: Pai, onde é que tu estiveste, o que é que tu fizeste para impedir o holocausto? Em 1969 o SPD de Willy Brandt chegou ao poder e iniciou a sua Entspannungspolitik, que passou pela aceitação também formal dos resultados da segunda guerra múndial. Quando no 7 de Dezembro 1970 Willy Brandt se ajoelhou no gueto de Warsóvia, isto causou ainda uma enorme polémica na Alemanha, mas o resultado mostrou claramente que a maioria dos alemães se revia neste gesto. A geração dos assassinos e dos que tinham desviado o olhar já estava em minoria. Nos anos setenta, quando andei no liceu, o nacional-socialismo, incluido o holocausto, eram matéria das aulas de história, para além das da moral. (E a Fuga da Morte de Celan conheço das aulas de alemão.) Não há nenhum mérito nisto, mas considero uma grande benção de ter crescido num país que foi obrigado à ensinar aos seus filhos a verdade sobre os crimes mais indizíveis que os seus antepassados próximos cometeram. Em 1979 passou a série televisiva americana Holocaust com grande impacto na TV alemã, num tempo em que ainda só havia três canais de TV público. O holocausto finalmente tinha chegado a ser discutido publicamente pelo cidadão comum, na rua e nos cafés. Era nesta altura que as últimas pessoas que estavam comprometidas com o nazismo desapareceram da vida profissional e pública. (Havia figuras públicas de relevo que só no fim da carreira ou já na reforma foram confrontadas com o seu passado, às vezes com, outras sem consequências palpáveis.) Os anos ’80 viram surgir os Skinheads, um fenómeno geracional não específicamente alemão de que se alimentam e ao qual se procuram aliar as estruturas da extrema direita tradicional que se vê na continuação do nazismo e que nunca completamente desapareceu. E que operavam e operam ora na clandestinidade, ora dentro da legalidade. É de notar, no entanto, que estes grupos nunca conseguiram uma base de apoio suficiente para ter um partido próximo deles no parlamento nacional – para isso são precisos 5% dos votos – e até hoje só pontual- e temporariamente em alguns parlamentos regionais. Depois da queda do muro em 1989 verificou-se uma maior expressão de fascismo e antisemitismo no território da antiga RDA, que me explico em parte pela maior instabilidade social ali existente, pela falta de quarenta anos de cultura democrática e antes de mais, pela falta da confrontação com a responsabilidade decorrente do holocausto: Ao contrário da RFA, a RDA recusara desde sempre estar em qualquer sentido na continuidade da Alemanha fascista: A RDA era o estado dos que resistiram ao fascismo, e que conseguiu julgar e punir atempadamente todos que de alguma forma foram culpados, só com excepção daqueles que antes conseguiram fugir para a RFA. Daí o legado do holocausto não se colocou como problema para os cidadãos da RDA. Já não sei como as coisas estão a desenvolver-se hoje, mas para a grande maioria dos alemães, o holocausto continua a ser um elemento indelével da sua história, e gostava de falar por todos, mas como não conheço as pessoas da Ex-RDA e já não vivo na Alemanha há 11 anos, não tenho a certeza toda quando digo que Auschwitz é um elemento indelével da nossa identidade nacional. O que acho bem que assim seja. Não por ser uma vergonha, mas como missão. P.S.: Quando refiro, no início do post, o país pacífico, solidário e decente, em que me lembro ter crescido, faço o hoje com a consciência incómoda de que foram só 15 anos, que separavam este país do país de Auschwitz, e que as mesmas pessoas ainda viviam nele que viviam no anterior... Este incómodo cresce com os anos, em que passo a perceber cada vez melhor que quinze anos são muito pouco. Não tinhamos e não temos consciência disto. Porque todos nós os alemães, que nascémos depois do holocausto, partilhamos uma sensação: Não interessa quão drasticamente fomos confrontados com estes horrores, quão seriamente queremos aprender com eles, sempre tomamo-los por histórias dum passado remoto e também por isso - quer nos parecer - incompreensível. Etiquetas: alemanha, antisemitismo, sel 25.1.05
Schwarze Milch der Frühe wir trinken sie abends wir trinken sie mittags und morgens wir trinken sie nachts wir trinken und trinken wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete er schreibt es und tritt vor das Haus und es blitzen die Sterne er pfeift seine Rüden herbei er pfeift seine Juden hervor läßt schaufeln ein Grab in der Erde er befiehlt uns spielt auf nun zum Tanz Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts wir trinken dich morgens und mittags wir trinken dich abends wir trinken und trinken Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete Dein aschenes Haar Sulamith wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng Er ruft stecht tiefer ins Erdreich ihr einen ihr andern singet und spielt er greift nach dem Eisen im Gurt er schwingts seine Augen sind blau stecht tiefer die Spaten ihr einen ihr andern spielt weiter zum Tanz auf Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts wir trinken dich mittags und morgens wir trinken dich abends wir trinken und trinken ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete dein aschenes Haar Sulamith er spielt mit den Schlangen Er ruft spielt süßer den Tod der Tod ist ein Meister aus Deutschland er ruft streicht dunkler die Geigen dann steigt ihr als Rauch in die Luft dann habt ihr ein Grab in den Wolken da liegt man nicht eng Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts wir trinken dich mittags der Tod ist ein Meister aus Deutschland wir trinken dich abends und morgens wir trinken und trinken der Tod ist ein Meister aus Deutschland sein Auge ist blau er trifft dich mit bleierner Kugel er trifft dich genau ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete er hetzt seine Rüden auf uns er schenkt uns ein Grab in der Luft er spielt mit den Schlangen und träumet der Tod ist ein Meister aus Deutschland dein goldenes Haar Margarete dein aschenes Haar Sulamith (Paul Celan) _________ Fuga da morte Leite negro da aurora bebemo-lo ao anoitecer bebemo-lo ao meio-dia e de manhã bebemo-lo à noite bebemos e bebemos cavamos uma sepultura nos ares aonde o espaço não falta um homem vive em casa brinca com serpentes escreve escreve quando a noite cai na Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida escreve e sai de casa e brilham as estrelas e chama os cães de caça aqui aqui apita aos seus judeus venham cá cavem uma sepultura na terra manda que toquemos para a dança Leite negro da aurora bebemos-te à noite bebemos-te pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao anoitecer bebemos e bebemos um homem vive em casa brinca com serpentes escreve escreve quando a noite cai na Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida o teu cabelo de cinza Sulamita cavamos uma sepultura nos ares aonde o espaço não falta Ele grita cavem na terra bem fundo vocês aí vocês outros cantem e toquem agarra no cano de aço à cinta e brande-o como são azuis os seus olhos enterrem mais fundo a pá vocês aí vocês toquem para a dança Leite negro da aurora bebemos-te à noite bebemos-te ao meio-dia e de manhã bebemos-te ao anoitecer bebemos e bebemos um homem vive em casa o teu cabelo de oiro Margarida o teu cabelo de cinza Sulamita ele brinca com serpentes Grita toquem mais doce a Dança da Morte ela é um Senhor de Alemanha grita toquem mais sombriamente os violinos depois hão-de subir em fumo nos ares depois haveis de ter uma sepultura nas nuvens onde o espaço não falta Leite negro da aurora bebemos-te à noite bebemos-te ao meio-dia a morte é um Senhor de Alemanha bebemos-te ao anoitecer e pela manhã bebemos e bebemos a Morte é um Senhor de Alemanha como são azuis os seus olhos há-de abater-te com uma chumbada abater-te com pontaria um homem vive em casa o teu cabelo de oiro Margarida açula contra nós os lebréus magros dá-nos sepultura nos ares brinca com serpentes e sonha a morte é um Senhor de Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida o teu cabelo de cinza Sulamita. (Tradução de Jorge de Sena) Etiquetas: alemanha, antisemitismo, sel 9.11.04
"Logo que o decurso dos acontecimentos desta noite permite o destacamento dos oficiais para isso, deve prender-se em todos os distritos tantos judeus - nomeadamente abastados - como é possivel alojar nas prisões para isso preparadas. No início, só se deve prender Judeus saudáveis, de sexo masculino e não demasiado velhos. Depois da conclusão da prisão deve imedatamente ser estabelecido o contacto com os respectivos campos de concentração para a transeferência mais rápida possível para eles." (Reinhard Heydrich: Telex do 9.11.38)
Na "Reichskristallnacht" o poder Nazi organizou um pogrom contra os Judeus a escala nacional, incendiando e destruindo sinagogas, assaltando lojas judias e prendendo arbitráriamente milhares de judeus para deportá-los para os campos de concentração. O NSDAP esforçou-se de dar a esta acção o aspecto dum surto espontáneo de "justa raiva popular", mas era uma acção minuciosamente planeada e organizada. O "povo", quer dizer o mob, eram, na verdade, membros do partido disfarçados de civís. A Kristallnacht foi um marco na escalada da perseguição antisemita na Alemanha Nazi, e um teste importante para ver em que medida a população comum tolerava ou até participava na violência aberta contra os Judeus. Ela não participou, mas não se mexeu. A partir daí, os assassinos sabiam que podiam contar com a cobardia do povo. _______________ Exactamente 51 anos depois, caiu o muro de Berlim. Por coincidir esta data com a Kristallnacht, hoje não é o dia 9 de Novembro feriado nacional, mas o incomparavelmente menos emocionante dia da assinatura do tratado da reunificação, o 3 de Outubro. Etiquetas: alemanha, antisemitismo, cidadania, sel 20.4.04
Não fui eu. Nem os meus pais, que eram crianças na altura. Nem os meus avôs, de ambos os lados, cometeram crime maior (que já é grande, mas comum) do que olhar para o lado e de não erguer a voz. Mas quando vejo as imágens na Rua da Judiaria (que conheço bem), sinto uma inenarrável vergonha. E essa vergonha é merecida, enquanto continuo alemão, me sinto alemão. Desde muito novo, tento, por causa dessa vergonha, suprimir qualquer sentimento patriótico em mim, qualquer sentimento de orgulho nacional: Para não ter que sentir essa vergonha. - Por achar que se não fosse alemão, ou se meu ser alemão fosse um acaso que me calhou sem qualquer mérito ou demerito (racionalmente sei que assim é), não podia orgulhar-me de Kant ou de Beethoven mas também não teria que sentir essa vergonha. Por isso tento de não orgulhar-me de Kant ou de Beethoven. E de não estar contente quando a equipa nacional alemã ganha no futebol, por exemplo. Houve um tempo em que achei possivel recusar essa herança: tudo, bens e dívidas, como é possivel na vida civil. Mas não é. É evidente que não é. Sou alemão, e embora que não acredite nas leis de sangue, não posso devolver nem os benefícios nem as obrigações que vêm com isso, mesmo se quisesse. E assim vou ter que viver com a vergonha. E tentar aprender de fazer com ela algo que sirva para alguma coisa. E pensando nisto, percebi: Mesmo se deixasse de ser alemão, não me livrava dessa vergonha. Essa vergonha que é minha enquanto alemão, é também a vergonha de todos os Homens, de todos mesmo. Não somos só eu e os meus compatriotas que têm de aprender com ela. Etiquetas: alemanha, antisemitismo, sel 25.2.04
Já aqui disse, e mantenho, que não acho estar na posição certa para me meter em debates sobre a questão Israel/Palestina. Mas não posso, pela mesma razão que me obriga a contenção nesta matéria, ignorar a questão do antisemitismo. Daí a minha pergunta: Confesso que não identifiquei o antisemitismo velado que o CAA detectou no artigo de Vital Moreira. Será que sou também antisemita, sem o saber? Ou só ingénuo? Gostava muito de ouvir a opinião da Rua da Judiaria. O Aviz já se pronunciou sobre isto. Porque também eu achei e acho, que é preciso distinguir entre a condenação da política do governo israelita e o antisemitismo. Bem, confesso que me deve ter escapado aqui alguma coisa. Porque isso decerto nem o CAA quer por em causa... O límite para mim e, leio, para Vital Moreira é, quando se começa a por, explicita- ou implicitamente, em causa o direito a existência do estado de Israel. Há com certeza ocasiões em que convém clarificar os campos no combate político. (Embora eu pessoalmente, talvez por defeito meu, não estou muito dado a arrumar-me num ou noutro.) Mas identificar a questão Israel/Palestina com a do antisemitismo parece-me uma coisa absolutamente desastrada. Para quem quer lutar conta o antisemitismo, e contra outras agressões aos direitos humanos também. Etiquetas: antisemitismo, moral |
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