20.5.08
«Na viagem de regresso, ao dar-me conta que não havia mais ninguém no cais, fui perguntar a um funcionário da estação o que se passava. Ele explicou que me venderam na Alemanha um bilhete para um comboio que não existia, porque no fim-de-semana essa linha estava fechada para obras. "E agora?", perguntei eu. "E agora, disse ele, vamos tentar mandá-la de táxi para a outra cidade", e telefonou imediatamente para combinar tudo. "E quanto é que isso me vai custar?", perguntei eu aflita, pensando nos mais de 100 km. "Nada", respondeu ele.» (Helena, em instantâneos holandeses) Não é de subestimar o valor de experiências dessas para a nossa forma de estar no mundo. Sem querer generalizar a historieta ao fim de um juízo sobre Holanda e os holandeses, ela é um dado que conta, como qualquer experiência concreta que fazemos. Também sem querer exagerar na generalização, veio-me a cabeça outro raciocínio, um pouco irracional, admito, mas dentro de limites acredito nele: Coisas boas tendem a acontecer a boas pessoas. Enquanto o QeP não tem dado razão para isso nos útlimos tempos, o banimento da biblioteca de Faro tem me valido referências simpáticas de Eduardo Pitta, de Luis Naves e do Rui Bebiano. Não é só falta de tempo, mas também de ânimo que motiva a intermitência dos meu bloguismo destes dias, que o Rui referiu. Por isso, foi um estímulo de que precisava e que agradeço muito. Continuarei, e que melhores dias virão para o QeP. 15.5.08
Strip (Samantha Wolow) Tenho pouco tempo, nestes dias, e quase esqueci-me das Playmates. Quem me lembrou foi a Sara Monteiro. Ela contou-me que o QeP está bloqueado na Biblioteca Municipal de Faro, por ter conteúdos impróprios para uma biblioteca pública. Não fiquei para aí além surpreendido. Vai aqui mais uma razão para a decisão dos guardiões da moral pública algarvia. 10.5.08
Reticulárea (Gego) 9.5.08
Não sei se Thomas Glavinic tem razão que algo especificamente austríaco contribuiu para que os crimes de Sr. Fritzl, tal como antes os do raptor de Natascha Kampbusch, ficaram tantos anos sem serem descobertos. Mas que isto foi possível, perturba-me. Sou um defensor convicto da privacidade, de que ninguém se meta no que os outros fazem dentro das suas quatro paredes. Mas a noção do mundo quotidiano que tenho e que me leva a ter essas convicções não inclui calabouços nas caves do meu vizinho. *(via Prozacland) Como é que se assinala os 60 anos do Estado Israel? - Se fosse outra pessoa, tivesse o talento e a experiência, faria assim. Como não sou, fico-me com isto: Dou os parabéns, desejo felicidades. Depois de milénios de humilhação, discriminação e de perseguição, os judeus israelitas conseguiram um espaço próprio onde ninguém os pode humilhar, discriminar ou perseguir. Continuam, sim, sob a ameaça diária à sua existência, de fora, e às vidas dos seus cidadãos, também de dentro. Apesar disto foram capazes de desenvolver uma sociedade vital, culturalmente e economicamente rica, e com liberdades cívicas ainda hoje ímpares nesta região. Mas é desonesto assinalar este dia de justa festa dos judeus israelitas sem lembrar que ele é um dia de igualmente justo luto e revolta de outros. Dos palestinianos que nele vivem e dos que nele já não podem viver. Haverá quem não perdoa este mas, como Henryk M. Broder não perdoa a outros. Mas dizer isto não é tirar uma jota ao direito de existência do Estado Israel. A primeira razão de defender a existência de Israel não são as raízes históricas que remontam para os tempos bíblicos. É o simples facto de que hoje nele vivem os judeus israelitas. E que, no momento em que Israel acabasse, estes seriam novamente alvos de perseguição, de humilhação, seriam expulsos ou massacrados. Ninguém deve ser obrigado de deixar de viver onde nasceu, ou ser privado da sua propriedade, liberdade religiosa e de expressão, carreira profissional de acordo com as suas capacidades, intervenção política na comunidade de que é membro. Com uma palavra, de plena cidadania. Para defender a existência de Israel basta invocar este lugar comum. Mas este direito elementar aplica naturalmente a todos, aos palestinianos também. Repitamos: Ninguém deve ser obrigado de deixar de viver onde nasceu, ou ser privado da sua propriedade, liberdade religiosa e de expressão, carreira profissional de acordo com as suas capacidades, intervenção política na comunidade de que é membro. Com uma palavra, de plena cidadania. 3.5.08
Estou aqui no bar do Hotel Trópico na Praia, a fazer tempo, já sem quarto, até ser altura para ir ao aeroporto, onde o meu avião para Lisboa parte às 3.35h. (Aqui são neste momento 00.20h.) Termina mais uma "missão" na minha tarefa de ajudar que os municípios desta ilha realizem os seus Planos Directores. Hoje participei em duas sessões de júri, uma em Cidade Velha, outra no Tarrafal, e estou exausto. Mas também contente. No meio de todas as dificuldades, de coisas que ainda não funcionam bem, inspira-me o optimismo das pessoas, que é genuíno e tem fundamento: tanto ainda que pode e deve ser feito! Começou ontem aqui a campanha eleitoral das autárquicas. Com muito comício e barulho ambulante, em festa. Não é do meu género, mas até isso aqui vejo com simpatia. Tenho uma boa impressão dos autarcas aqui, pelo menos de alguns com quem tenho contacto mais directo. Gente séria e empenhada em fazer a diferença. Tive de corrigir um preconceito, desde que cheguei aqui pela primeira vez, há já quase um ano. 1.5.08
25.4.08
Nos últimos dias tenho ouvido o "Grândola Vila Morena" umas 20 ou 30 vezes. O meu filho de oito anos veio da escola com o endereço Youtube da canção e esteve a tocá-la incessantemente para decorar a letra toda até ao dia 25. Ele está muito entusiasmado com o que aprendeu na aula. Que uns soldados muito bons fizeram revolução, porque o governo que era mau os obrigava a fazer guerra e prendia as pessoas que diziam o que pensavam. Houve um especialmente bom, que veio de Santarém com os seus homens em cima de tanques e prendeu o governo mau e não teve medo, porque os soldados que também estavam junto do governo eram amigos e não dispararam. As pessoas ficaram tão contentes que ofereceram cravos aos soldados e puseram-nos dentro das espingardas como se pode ver aqui na fotografia. Hoje de manhã toda a família teve de cantar a canção, sob a sua direcção, o que fizemos de bom grado, até o meu filho de 15 anos, embora que ache a música parva. Lembro-me que há uns anos cometi uma gaffe grave aqui na blogos, porque ironizei com a frase "o povo é quem mais ordena" - na altura, sem perceber de onde ela vinha. Achei-a - e ainda acho – na sua simplicidade de uma ingenuidade tocante. Escrevi algo como "Então diga lá, Sr. Povo: o que é que havemos de fazer?" Mas reconheço que há contextos - como na canção - em que ela faz todo o sentido. E faz para o meu filho. Mais tarde perceberá que as coisas são um pouco mais complicadas. Leio no DN que a "quase candidatura" de Alberto João Jardim foi um engenho sofisticado para obrigar o Santana Lopes a "sair da toca". Não sou entendido nestas matérias, mas a ser verdade, tenho que reconhecer, essa gente é boa no que faz, menos no essencial. Não sou muito entendido nestas matérias, mas o suficiente para não ter acreditado um segundo que o AJJ se candidatasse mesmo. Se o fizesse, levava uma banhada tal que acabaria de vez com a sua mística. Se não já na candidatura à presidência do PSD, decerto na candidatura a Primeiro Ministro. E ele sabe-o. Gosta é de fazer de conta que seria um bom candidato ao nível nacional, mas é só vaidade... 23.4.08
(Denis Kardon) 22.4.08
Há dois anos, fui uma das pessoas acenderam uma vela no Largo de S.Domingos, em memória das vítimas judeus portugueses do Pogrom de 1506. Nos dias antes, houve aqui nos blogues uma discussão surpreendentemente difícil e azeda sobre se elas as mereciam. Hoje está lá um monumento. Um monumento que não deveria incomodar ninguém, excepto quem se sente mais próximo dos assassinos do que das vítimas. 21.4.08
Saving Ikarus (Cynthia Breusch) «A crónica de Ferreira Fernandes hoje no Diário de Notícias tocou-me como um violento um soco na barriga: porquê tamanha e generalizada indiferença? A “intelligenzia” dominante criou e alimenta os seus Tabus, Vacas Sagradas e Bodes Expiatórios. Quando preparamo-nos para celebrar uma vez mais o 25 de Abril, convém lembrar que sem a verdade não há efectiva Liberdade: sobram a alienação e o oportunismo que alimentadas pelos poderes, constituem a mais vil das opressões.» (João Távora) É bom que este reparo vem de onde vier, pois isto não é uma questão de esquerda ou direita. Ao contrário do que é infelizmente habitual, não se pode resignar á coexistêencia de várias "verdades dos factos", cada uma de acordo com o respectivo campo político. E é mesmo muito mau que há aparentemente na comunicação social portuguesa intocáveis que podem contar com o silêncio comprometido dos seus colegas, mesmo se cometem um erro escandaloso. (Ou lhes é imputado um erro escandaloso.) 20.4.08
Actualmente, ninguém tem razão de eleger o PSD, com excepção dos militantes e a clientela no pior sentido, aquela que espera os seus interesses correspondidos através da proximidade com o seu pessoal político. Mas mesmo depois de encontrado e eleito um líder credível, não haverá razão para mais ninguém de votar no PSD. Pois a sua política está já a ser executada e, diga-se o que disser, de forma competente pelo governo de Sócrates. Exactamente pelo que este tem feito e ainda está a fazer, os militantes lhe cantariam hoje loas, se fosse um dos seus. Não creio que as causas de esquerda, com que adorna o seu mandato, as leis do aborto e do divórcio (que eu ambos muito saúdo!) mudariam isto. O dano causado por Santana Lopes ao seu partido não só consiste no desbarato de credibilidade difícil de recuperar. Ele permitiu ao PS de Sócrates usurpar o espaço tradicional do PSD e instalar-se de forma tão sólida no centro, que nem à esquerda nem à direita sobra espaço suficiente para uma alternativa com perspectivas de poder. Só o desgaste real, com o tempo, alterará esta situação. Não quero desvalorizar a evidente falta de nível da direcção demissionária do PSD, nem a sua vacuidade programática, mas essa última resulta de facto da impossibilidade de construir uma alternativa no quadro das suas referências tradicionais. Também daí veio o curso errático da sua oposição, ora atacando pela direita, ora pela esquerda e, quando se aperceberam da sua impotência, o recurso aos golpes baixos. Agradeço à Sofia Loureiro dos Santos a simpática atribuição de um Prémio. Sinto-me genuinamente grato e honrado, não obstante a minha relutância em aderir a correntes internéticas. Aproveito para apresentar as minhas desculpas ao Filipe Tourais que, já lá vai algum tempo, me convidou de enumerar "insignificâncias", convite ao que não respondi. Não é por menosprezo pelo Filipe ou pelo Pais do Burro - muito pelo contrário! - que não o fiz. Para além da relutância referida, acrescentou-se no caso a falta de inspiração: não me ocorreu nada que merecesse ser referido. Quando me aparece o caso no jornal, viro a página. Quando no noticiário se mostra o último episódio da ainda não entrega da menina Esmeralda, mudo de canal. É o que faço as vezes aquando de notícias de horrores vindos de longe, de Darfur, da Costa de Marfim e semelhantes. Custa-me ver isso. Custa-me antes de mais saber a minha compaixão inconsequente. No caso da Esmeralda, acrescenta-se a vergonha e a raiva impotente ver isso passar-se aqui a minha frente, no país em que vivo - perverso, cruel e desnecessário; e mesmo assim, ao que parece, inevitável. Adenda: É certo que os referidos horrores lá fora são incomparavelmente maiores. Até esta história de outra menina, Nojoud Ali Nasser, é infelizmente superada todos os dias. Mas claro que isso não serve como consolo para que cá não conseguimos fazer a coisa certa, ainda por cima tão óbvia e fácil. 19.4.08
«Há qualquer coisa nos sapatos vermelhos do Papa que me perturba. Não sei bem o que é, mas, ao vê-lo de vestes brancas e sapatões encarnados, dou por mim a tentar adivinhar que tipo de roupa interior usará. Parece que estão muito na moda os slips Robert Cavalli. Acho que a Laurinda Alves podia escrever sobre tal assunto. É um tema aliciante. Mais interessante do que aqueles que costuma abordar. As crianças, os idosos, os doentes, as reclusas, os retiros, os doentes, a fé, a esperança.» 18.4.08
"Wichsvorlage" ("Folheto pra punheta") chamámos as revistas do género na faculdade em Berlim. Mas não achas, Lourenço, que esse teu mostra uma filha da pior casa do mundo? ...recomendo ler esta bela prosa. Se o antropólogo já se assume como leigo, o que hei de dizer eu? Continuarei, com acordo ou sem acordo, a escrever quase em português. Já por isso o acordo não me tira o sono. Sei que não o cumprirei, mais p menos p, como não cumpro a ortografia actual. É pena, mas não é realmente importante. De resto confesso a minha aversão a normalizadores em geral, e em especial a normalizadores de algo natural, orgânico e vivo, como uma língua. 16.4.08
Lovers (Andrew Wyeth) 15.4.08
«Quem hoje quer casar a sério e proclamar à sociedade uma união sólida e perene vai onde, ao registo ou à capela? As modas intelectuais mudam mas a Humanidade fica. Quando daqui a uns anos os políticos voltarem a reconhecer o valor da família, é no seio da Igreja que a vão encontrar.»* Se não se soubesse há muito que o homem é inimputável, sentir-me ia seriamente ofendido e teria de mandá-lo à merda, junto com as suas lengalengas e bujigangas como cruzes, vestes, incenso, etc. Vivo há vinte anos com a mesma mulher, educámos três filhos, e planeio continuar a viver com ela até ao fim dos nossos dias, se o tal Deus quiser. Não casámos pela Igreja, e possivelmente nem teríamos casado de todo, não fosse a razão de assegurar aos nossos filhos também a nacionalidade alemã. Foi uma cerimónia de dez minutos no Registo Civil de Loures, e do mais marcante de que me lembro dela, é a magistrada me ter perguntado se percebia o que se lá dizia em português, o que confirmei, só parcialmente honesto. Depois fomos nós os quatro, a Margarida, eu e as duas testemunhas, meu cunhado e o amigo Rui Filipe, beber uma imperial na tasca ao lado. E pronto. Quinze dias depois nasceu o Frederico. Ninguém me dê lições sobre o que é compromisso ou família! Muito menos um João César das Neves, para quem a Biblia tem um nome: Fariseu. * via Água Lisa às mulheres (sorry Cenas...) do Womenage a trois, que hoje linkaram o Quase em Português em três posts seguidos! Se não fossem vocês, quem visitava este modesto estaminé? Há dias passam pela imprensa fotografias de Angela Merkel com o decote que mostrou na inauguração da nova ópera de Oslo. Hoje, o DN faz capa com a ministra de defesa espanhola altamente grávida, e com roupa adequada à condição, a passar em revista as suas tropas. Compreende-se que é notícia, pelo seu assunto que sempre vende, e porque (ainda) é invulgar. Passámos a ver com maior frequência mulheres em altos cargos do Estado, mas essas quase sempre evitam judiciosamente ostentar esta condição na sua aparência. Vide Angela Merkel, até a semana passada, ou Hillary Clinton, com a sua farda de calças e blazer na campanha americana. A essa contenção subjaz a cedência a uma ideia machista de que, se mulheres possam estar aptas para cargos políticos, o são pela falta da sua feminilidade. Essa, a feminilidade, na vida pública está reservada a modelos e actrizes e às trophy-wives, como Carla Bruni. Adenda: Não resisto a aditar esta fantasia: Situação de crise em Espanha. O Estado Maior reúne na sala de parto para receber, entre gemidos – "respire, ministra, respire! Agora faça força!" - as ordens da sua comandante. 14.4.08
O facto que a direcção do PSD não deixa de insistir no "caso Fernanda Câncio" só se explica com que estes senhores estão convencidos que a maioria dos portugueses vê isto como eles. Alguém me garante, por favor, que estão enganados! É certo que o subvencionamento do Biodiesel foi um tiro no pé, do ponto de vista de quem com essa medida política quis melhorar o bem-estar da humanidade. Não tenho a certeza que esse foi o único motivo para promovê-lo. Pois outro - esse egoísta e de acordo o interesse estritamente nacional - é a redução da dependência de energia estrangeira. Quem tem este objectivo, não estará necessariamente incomodado. Gostava de perguntar aos liberais que com visível prazer apontam o dedo aos ambientalistas estúpidos, em que é que ficámos: Que isto é uma prova que dá sempre barraca quando se tenta interferir na sabedoria natural do mercado, ou que defendem, sim, uma política ambiental, centrada em interesses supra-nacionais. Pois quase parece. Neste caso, bemvindos! Podemos empenhar-nos juntos para fazer melhor. Já variadíssimas vezes irritei-me com Pacheco Pereira, com a sua arrogância, com a sua incapacidade de reconhecer um erro, até já encolhi os ombros quando a sua teimosia o leva, o que já aconteceu mais do que uma vez, ao francamente ridículo. Mas, aparte disso, reconheço lhe o mérito, a independência, a inteligência e a sua curiosidade intelectual. Vem isto a propósito da última crónica no "Público", O Telemóvel. Quando toda a gente se deleitava com a indignação sobre a decadência dos costumes, da disciplina, e anunciava, com o prazer mórbido dos profetas da desgraça, o caminho de perdição para que enveredou a nossa juventude e com ele o país, Pacheco Pereira pôs-se a pensar. Sobre o que realmente muda e mudou na nossa sociedade. Ao que chegou conta-nos aqui. Como ficou (ainda mais) evidente nos últimos tempos, Portugal tem muita gente que o envergonha. Mas também tem um Pacheco Pereira. Felizmente. E agora, depois desta revelação, as autoridades judiciais farão alguma coisa? Move-se-lhe um processo em Portugal ou entrega-se o Almirante ao TPI em Haia, onde teria companhia do seu calibre? Adenda 15.4.2008: Ferreira Fernandes afirma hoje no DN que a carta é falsa. A ler também a opinião de João Tunes. Adenda à adenda: É estranho que essa história não tem mais eco. Porque a ser verdade ela é grave, mas se não é, a divulgação também é grave. E se fica tudo inconsequente, não se esclarece tudo cabalmente e não se chama os responsáveis à sua responsabilidade, também é grave, embora neste caso típico em Portugal: fazer de conta que não é grave o que é grave. Adenda 5.5.2008: António Barreto admitiu que a carta é falsa. Assim, a minha sugestão de entregar o Almirante ao TPI em Haia perde o fundamento. O que é dizer o óbvio. 12.4.08
O que Daniel Cohn-Bendit era na França, Rudi Dutschke era na Alemanha, o lider carismático do movimento estudantil de '68. Dutschke nasceu em 1940 e viveu até aos 21 anos na RDA. Os tempos na Juventude Evangélica da sua cidade natal marcaram-no para um socialismo de fundamentação religiosa. A repressão da revolta na Hungria, em 1956, levou o jovem a distanciar-se do regime socialista no seu país e a tomar posições públicas cada vez mais críticas. Recusou o serviço militar (na altura na RDA uma opção legal) e incentivou publicamente outros a fazerem o mesmo. Consequentemente as autoridades vedaram-lhe o acesso ao ensino superior, e Dutschke mudou-se poucos dias antes da construção do Muro para Berlim ocidental, onde estudou sociologia, antropologia, filosofia e história. O seu socialismo adquiriu aqui o fundamento teórico marxista que lhe faltava, mas nunca perdeu o seu cariz cristão e sempre se destacou pelo valor que dava a liberdade do indivíduo. Dutschke ficou, destes tempos, amigo de proeminentes teólogos evangélicos na Alemanha. Desde cedo empenhado no movimento estudantil, centrou as suas críticas na continuada presença de estruturas e de personalidades do tempo nazi na vida pública e política na Alemanha. Mais tarde juntou-se a oposição à guerra de Vietnam. Após a morte do estudante Benno Ohnesorg a tiro de um polícia numa manifestação contra a visita do Shah Reza Pahlevi, no 2.6.1967, Dutschke ganhou protagonismo ao nível nacional e passou a ser o principal objecto de ódio para quem se sentia ameaçado pelo movimento estudantil. Nomeadamente a imprensa do editor Axel Springer, com o principal tabloide alemão, o "Bildzeitung", lançou-lhe uma campanha maciça ad hominem, com manchetes como "Apanhem-nos!" e "Rudi Dutschke - Inimigo Público Nº1!". Ontem, há 40 anos, Josef Bachmann, um trabalhador precário de Munique, meteu-se num comboio para Berlim, fez-lhe uma espera e disparou três tiros. Dutschke sobreviveu com ferimentos graves na cabeça, mas demorou anos a recuperar e reaprender a fala. Viveu então com a sua mulher e os seus três filhos na Dinamarca. Quando, no fim dos anos setenta, se julgava capaz de se empenhar novamente na vida pública – estava a preparar com outros o congresso de fundação do partido "Os Verdes" - morreu afogado na banheira durante um ataque epiléptico, consequência ainda do atentado. |
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