$BlogRSDUrl$>
|
|
|||||
11.4.06
Há quem ache que com o post anterior corri um certo risco. O JPT disse que com ele o QeP se assumiu como blogue de referência (grande gargalhada!) e desde então deixei de ser o "simpatico alemão" e passo a ser "o c... do huno". O Dragão até entendeu de me dispensar da obrigação de linkar o seu contributo para o meu inquerito, pois não queria que me comprometesse a minha reputação! O silêncio com que foi recebido o desafio do Nuno Guerreiro parecia-me esconder mais do que indiferença. Fiz uma pergunta específica, mas não era só a resposta a ela que queria. O post vem na sequência da discussão que travei, nas últimas duas semanas, nomeadamente com a Helena do Dois Dedos de Conversa, sobre os limites da liberdade de expressão. Quis demonstrar que o tabu do anti-semitismo não só inibe as pessoas de dar opiniões insultuosas e de incitar a violência, mas também inibe a exposição de opiniões nada indecorosas que simplesmente são desfavoráveis em relação à causas judaicas. O que acho mal. Contava com algum eco, não com tanto. Contava com alguma emoção, algum ressentimento, mas não com tanto. No muito que se escreveu nos comentários aqui, nos outros posts, mas também nas caixas de comentários destes, a irritação, o ressentimento ultrapassa em quantidade e intensidade os comentários e posts ponderados. Mas houve excelentes contributos, que dão argumentos e que dão que pensar, e que por si só, para mim fizeram valer a pena o meu repto. Só como exemplos, um em favor do Não e um do Sim, destaco os posts do Miguel Silva e do Rui MCB, a quem ainda quero exprimir a minha admiração pela forma como se aguentou com uma paciência angélica num ambiente maioritariamente hóstil e carregado de emoção, para não usar outro termo mais forte. Fiquei admirado de que as pessoas que sentem tanta, digamos: irritação, com a proposta do Nuno Guerreiro que mesmo depois duma dúzia de comentários esta não lhes passou, não caiem em si e se perguntam a si próprios de onde toda essa raiva vem, e se isso não é ressentimento? (Sim, Zazie, essa é para ti, não só mas também.) Nem toda a irritação, nem todo o ressentimento será necessariamente anti-semitismo. Mas também houve-o inquestionável, apresento aqui um exemplo quase tocante na sua extrema candura, nesta pergunta num comentário a um post do Dragão: “Sejamos honestos... há alguém que goste de judeus?” Pergunta-se o que é a experiência de vida de quem acha natural que ninguém goste de judeus. Será que no seu dia-a-dia vê-se vítima deles, a si, os seus familiares, os seus vizinhos? Ou a resposta é do Umberto Eco, citada pelo Timshel? Será que exagerei, que abri uma “caixa de Pandora”? Respondo com um não convicto, e se abri, que acho que valeu a pena! Porém não ignoro, ou pelo menos imagino, que para o Nuno Guerreiro a leitura do que se escreveu aqui deve ser dolorosa: tomar contacto com tanta aversão, ressentimento, ódio. Para mim a seria, se estivesse no seu lugar. E fico genuinamente triste. Mas como disse, suprimir que ele se exprime não me parece melhor. O Nuno ainda não respondeu ao meu pedido de explicar em nome de quem, a quem e para quê lançou o desafio. Talvez ainda vai, talvez não queira responder. Eu achei-o importante. Porque, anti-semitismo a parte, a crispação resultou talvez dum malentendido. Pois o seu desafio pode ler-se: “Eu, português, desafio os meus compatriotas para que encaremos a nossa história de frente, em nome da verdade, em nome das vítimas de então e para que possamos, através de tomar consciência do perigo dos ressentimentos, evitar vítimas no futuro.” Mas também: “Eu, judeu, desafio os portugueses para assumir a vergonha dos crimes que eles cometeram contra os meus antepassados, e para reconher a sua dívida moral para com o povo judeu.” Ao primeiro apelo, entendo eu, qualquer português pode corresponder de bom grado. Ao segundo... Tenho a maior compreensão para os que mandam dar uma volta a quem faz o segundo. (Obviamente Portugal 2006 não se compara com a Alemanha 1945, nem com a Alemanha 2445.) E é verdade que o Nuno não está muito bem colocado para evitar a ambiguidade do apelo. Mesmo se quisesse, não vejo como se podia livrar da suspeita que não tem motivos da segunda. Por fim não quero furtar-me a responder a minha pergunta: Eu não vou acender uma vela, por causa da ambiguidade do contexto, e porque como estrangeiro que não tem nada a ver com este massacre, não me parece útil dar lições aos portugueses. Mas vejo com muito respeito e simpatia pessoas como o Rui MCB que o fazem. Tomara que teria sido ele a lançar o desafio! Etiquetas: alemanha, antisemitismo, cidadania, moral, sel 20.8.05
Estive a mostrar aos meus rapazes a sua cidade natal, que deixaram há onze anos, com quatro resp. um ano de idade. A primeira casa no Schleusenufer, a segunda em Steglitz, a loja em Neukölln, que era o infantário do mais velho, o "Kinderladen" gerido em cooperativa pelos pais; o Hospital dos Adventistas do Sétimo Dia, onde nasceu o Felix, no Grunewald. Um sábado soalheiro em Agosto, não só o Tiergarten, todos os jardins, como aqui o Schlesischer Busch, estão cheios de gente, a fazer pique-nique, como as famílias turcas: patriarcas barbudos com ar severo, as crianças pequenas, filhos ou netos, divertidos e despreocupados, as filhas adolecentes e a mulher menos, vestidas com lenço, trajes compridos e peúgas de senhora em sandálias, estão a tratar do pequeno churrasco portátil; enquanto dez metros além, em contraste, despreguiça uma estudante apetitosa em bikini minúsculo, ao ler o Spiegel; também há um casal de punks vestidos de preto, a rapariga com collants devidamente rasgadas em botas de paraquedista; e um hippie já velhote de barba branca e cara de quem se sabe boa pessoa, cruza, em calças largas de linho roxo, o jardim em diagonal, debaixo das castanheiras portentosas. Não mudou muito, aparentemente, na fauna berlinense. Mas uma novidade para mim são os dois rapazes, não os rapazes, mas como se renderam ao progresso tecnológico: puxam uma carrinha de mão com bateria de automóvel e aparelhagem de karaoke, do genero que se vê nos músicos do metro de Lisboa, mas aqui eles cantam "Hare Hare Krishna, Hare Rama..." Esta viagem autobiográfica-arqueológica: Os meus filhos grandes estão a adorá-la, embora não reconhecem quase nada - vejo os nomes nas portas, mas com excepção do senhorio em Steglitz já não encontro nenhum conhecido. Para dizer a verdade, isto deixa-me aliviado, a mim, esta viagem no passado não causa sentimentos inteiramente agradáveis, demasiado forte é a nostalgia, a sensação do passamento do tempo, e assim, como o mais pequeno, que tem cinco e nasceu em Lisboa, necessita que a intercalámos com estadias em parques infantis, para descomprimir, aproveito para ver umas obras que desenhei há quinze anos. Reparo com satisfacção e orgulho que os prédios não ficaram datadas, que resisti então aos tíques da época. Isto é que me deixa feliz: Ver as pessoas viver neles com naturalidade, num ambiente discreto e quasi-evidente, o primeiro mundo das crianças que aqui brincam, para elas e para os seus pais não só um espaço útil, mas também "Heimat", e quando vejo o velho na varanda: quantas vezes apoiou as suas mãos naquela guarda, desde que deixei Berlim, e quando entra pela porta da cozinha: quantas vezes dobrou aquela esquina entre sala e a casa de jantar, quantas vezes abriu esta porta, que eu desenhei? 18.8.05
Ao escrever um post no Quase em Português, depois de duas semanas, tempo bastante para blogues fecharem e renascerem, quase me sinto a entrar num espaço de outrem. Desde que cá cheguei, há duas semanas, choveu quase todos os dias, mas mesmo assim reconfirmo que Alemanha é um país muito belo. Já se pode nadar no Reno, como fiz, ao pé de Düsseldorf, o que, por causa da poluição, era impossível na minha infância. Hoje as fábricas têm filtros, a Henkel, a Bayer, a Thyssen/Krupp, ou estão encerradas, como as minas do Ruhrgebiet, excepto umas ou duas que funcionam como museus dos tempos aureos mas sujos do florescimento indústrial da região. Algumas minas ainda mantém-se em funcionamento, por razões que me ultrapassam: diz-se por razões sociais, mas seria mais fácil dar os 75.000 euros por ano, que custa a manutenção de cada lugar de emprego aos respectivos mineiros em dinheiro. O tempo é mau, o país belo e as pessoas estão remediadas, embora desanimadas. As que têm emprego, vivem bem por enquanto, mas têm, com razão, medo de perdê-lo, temem de cair na miséria. Uma miséria de alto nível, porém, porque para além do rendimento mínimo, de 740 euro para uma família de 4 pessoas, recebe-se o montante integral da renda duma casa apropriada, subsídio para a compra de vestuário, de livros escolares, para a compra da maquina de lavar a roupa, e outras coisas, de que não me lembro. As regras são complicadas, por isso o que se recebe, depende em boa parte da capacidade da esperteza - e da lata - do subsidiado. Auxílio presta um manual muito popular, chamado "Dem Staat nichts schenken!" ("Não oferecer nada ao estado!"), que explica como receber o máximo possivel da segurança social alemã. Ontem assisti a um despejo forçado no prédio em frente: sempre uma tragédia, mas a minha pena limitou-se aos filhos da família. Soube que os seus pais acumularam, apesar de ter recebido o subsídio da renda na íntegra pela segurança social, uma dívida de dois anos de renda. Fizeram outro uso do dinheiro... Sempre que volto para Alemanha, o que mais me salta aos olhos como diferença para Portugal é a riqueza pública: as estradas bem mantidas, os jardins bem tratadas, as escolas e os hospitais bem equipados... Mas no meio duma vida confortável, o medo e a falta de optimismo notam-se. Os cartazes da campanha eleitoral em curso não conseguem escondê-lo. Depois de Chanceler Schröder ter forçado eleições antecipadas, ciente de irá perdê-las, há uma situação política inédita na Alemanha: O CDU (os conservadores), que até há pouco eram dados como vencedores certos - só se mantendo a dúvida se necessitariam os liberais da FDP como parceiros da coligação - já não o são. Desde a virtual cisão da SPD, com a criação dum novo partido da esquerda na antiga RFA, que se juntou ao PDS (ex-comunistas da RDA), não há maioria à direita. O novo partido da esquerda "Linkspartei", com um programa que associa promessas de emprego, a ordenados elevados e a limitação do número dos estrangeiros na Alemanha, está cotado bem acima dos 10% ao nível nacional. Nem o SPD nem os Verdes consideram os novos populistas um parceiro possível de coligação. Assim tudo aponta para uma "grande coligação" entre CDU e SPD, o que significa muito provavelmente "mais do mesmo". O trabalho do meu irmão não está em risco, muito pelo contrário: ele é gestor oficioso de falências, e estes quadruplicaram no último ano. Pouco a pouco as pessoas tomam consciência de que as coisas não podem continuar como estão: A globalização atinge os alemães como os outros. Mas enquanto os custos do estado social sobem e tornam a indústria alemã (a indústria, não as suas grandes empresas, que garantiram lucros recorde este ano, tendo deslocado atempadamente a produção para fora do país) cada vez menos competitiva, ainda não se consegue desistir das "conquistas sociais", nem das mais duvidosas, como ilustra esta anedota verdadeira: Como acima escrevi, faz parte dos direitos de qualquer familia que vive legalmente na Alemanha, a posse duma máquina de lavar roupa, não interessando para a questão se consegue pagá-la ou não. Cabe a autarquia a gestão dos recursos do dinheiro dos subsídios para a sua compra. Assim, um funcionário público resposável da cidade de Essen teve uma ideia sensata: Em vez de, como até então, distribuir o dinheiro de cerca de 2000 subsídios por ano para a compra da máquina às pessoas, resolveu lançar um concurso de compra das máquinas directamente pelo município, obter assim um preço muito mais económico e distribuir as máquinas (Bosch) aos necessitados. Um dos recipientes sentiu-se ofendido pela medida e processou a cidade de Essen. O tribunal deu-lhe razão: É uma humiliação intolerável privar o necessitado do direito da escolha do modelo e estigmatizá-lo através da atribuição do subsídio em espécie. 8.5.05
O colapso. Era este o termo que a geração dos meus avôs usava para denominar o fim do Terceiro Reich. Não: a libertação. Para muitos europeus, em que se incluam os alemães ocidentais, foi a libertação. Para muitos outros não. Embora ser verdade que em qualquer caso, até no pior, o que veio a seguir era muito melhor do que a guerra, e muito melhor do que continuar a viver sob o poder nazi. A libertação para os alemães não veio para todos, e não veio imediatamente. Ainda estava em curso ou para vir: A limpeza étnica, a deslocação de 14 milhões de civís alemães, dos antigos territórios do leste - outros dois milhões não a sobreviveram - as violações em massa de mulheres alemãs, no minimo dois milhões. E a fome. Durante os próximos três anos, Alemanha vivia sob o governo dos aliados, o que restava da indústria foi desmontado e enviado como pagamento (obviamente insuficiente) de reparações para os paises vencedores. A economia estava parada, e quem dependia só da alimentação racionada distribuida oficialmente, morria de fome, o que aconteceu a mais uns três ou quatro milhões pessoas, principalmente idosos que viviam nas cidades. (Só quem tinha algo para trocar para comida, ou que tinha relações familiares ou amigáveis com agricultores safava-se.) Muitos que foram feitos prisioneiros de guerra e levados para os campos da URSS, nunca mais voltaram. Os alemães ocidentais tiveram a sorte que se avizinhava a Guerra Fria, e que por isso em 1946 os americanos abandonaram o Plano Morgenthau, que visava transformar Alemanha num estado rural, com uma população sem formação superior, para que nunca mais constituisse uma ameaça para o mundo. Em vez disto, Alemanha (ocidental) foi integrado no Plano Marshall, que pretendeu e conseguiu a rapida reconstrução dos paises da Europa ocidental, animar e fortalecer a suas economias, para que pudessem fazer frente à ameaça comunista. Na Alemanha oriental o 8. de Maio foi sempre chamado dia da libertação, e não - ou pouco - o foi. Na Alemanha ocidental, que ganhou a sua soberania (vigiada) em 1949, o termo se justifica pelo menos à partir desta data, mas durou 40 anos, até ao 8 de Maio 1985, que um presidente da RFA pôde reconhecê-lo oficialmente. É compreensível que a geração que (sobre)viveu a libertação, tem dificuldade de lembrar-se dela com gratidão, pelo que tiveram ainda de sofrer, embora quase todos reconhecem pelo menos o alívio que o "Zusammenbruch" facultou. Quanto às gerações posteriores, como a minha, mesmo entre nós os alemães, é bem claro: graças a Deus, que a nossa Alemanha foi derrotada de forma tão contundente!
Etiquetas: alemanha, antisemitismo, sel 8.4.05
O bombyx mori (que nome intrigante!) convida-nos a dizer a nossa razão sobre isto: A questão (uma questão!) que a obra de Riefenstahl – intimamente ligada à própria construção do regime nacional-socialista como regime de matriz estética para realizar a grande epopeia do renascimento do povo alemão – suscita é saber se devemos e/ou conseguimos apreciar um trabalho artístico, no caso cinematográfico, autonomizando-o das injunções políticas (monstruosas) que ele transporta. Desprezo particularmente quem me quer pre-escrever, por razões morais, de que devo ou não gostar! Longe vão os tempos quando andava, como estudante de arquitectura do primeiro ano, de consciência pesada por descobrir que gostava do Estádio Olímpico de Berlim. Algo devia estar terrivelmente errado comigo, pensei. Mal saído do lar da família, revelei me um proto-fascista... Enquanto todos os meus colegas falavam da responsabilidade social das artes em geral, e da arquitectura em especial, eu perdi-me em longos passeios solitários e excitava-me com a construção monumental do aeroporto de Tempelhof, em vez de aprender aplicar as receitas de Lucien Kroell e de Günter Behnisch, como fazer "arquitectura democrática". Mas viver em Berlim também tem as suas vantágens: incentiva uma pessoa a assumir-se. Se os homossexuais podem fazer o seu coming out, porque então não podia confessar os meus gostos suspeitos? - Também não era verdade que estava tão só: Ungers, Rossi e Grassi estavam bem presentes, embora que a sua arquitectura estava proscrita, entre os meus colegas, como "arquitectura fascista". Voltando à Leni Riefenstahl. Claro que ela não só serviu ao Nazismo com uma propaganda muito eficáz; a sua arte era efectivamente adequada à sua ideologia. Também é verdade que ela tirou proveito do apreço que o Führer tinha por ela, até ao ponto de usar presos de campos de concentração (ciganos) como comparsas para o seu filme Tiefland. E é verdade que nunca assumiu responsabilidade pela sua parte no desastre humano e moral que o Nacional-Socialismo foi. Isso terei em conta para apreciar a pessoa Leni Riefenstahl. E a obra? Triumph des Willens e Olympia são obras primas. Não é possível ver um filme de Hitchcock, e os de todos que aprenderam com ele, sem reconhecer a dívida que este tem com Riefenstahl. E não há nenhuma transmissão dum evento desportivo, que não deve a Olympia. Leni Riefenstahl acrescentou novas palavras, uma nova gramática, à linguagem cinematográfica. É hipócrito não admitir isso. É estúpido não querer ver a arte na sua obra, não querer aprender com ela. É legítimo entusiasmar-se com ela. (Só é preciso não esquecer para que foi usada e para que podem servir os meios que inventou e empregou.) Quem limita a sua percepção artística por considerações moralistas, demite-se do território das artes, e escolhe passar a sua vida como um castrado no recreio da criatividade condicionada. Etiquetas: alemanha, antisemitismo, sel 13.2.05
Hoje é o 60º aniversário do bombardeamento de Dresden, da noite em que morreram entre 25.000 e 40.000 pessoas, quase todos civis. Na cidade, que antes da guerra tinha uma população de 630.000, não se encontravam tropas, mas nesta altura ainda ca. de 200.000 fugitivos dos territórios do leste. Há muito estava claro, que os bomardeamentos das cidades alemãs não traziam nenhuma vantagem estratégica, ou seja directamente militar. Marechal Arthur Harris, o comandante da Royal Airforce, sabia isso e que as fábricas, as estações e as linhas de comboio não puderam ser atingidas de uma forma relevante, e já tinha adaptada a sua estratégia a essa conclusão. O que ele idealizara para a campanha aerea britânica contra Alemanha foi o que chamou "moral bombing", e baseava-se na crença que um sofrimento suficientemente grande infligido à população civil demoralizava esta de tal maneira que ela se levantasse contra o regime nazi e terminasse a guerra. (Uma ideia que fracassou completamente, por um lado porque a população civil - se as uma vez tinha - na altura da guerra não tinha condições de levantar-se contra o regime, e por outro lado porque o resultado psicológico era o contrário: Graças ao moral bombing a última criança percebeu sem sombra de dúvida, que o inimigo era um inimigo cruel, inhumano e mau, que não lhe deixava alternativa, senão resitir até a morte.) Harris criou gabinetes de investigação que estudaram já desde 1940 cientificamente a melhor forma de matar um número máximo de pessoas nas cidades alemãs. O resultado era a descoberta de que se devia concentrar-se no uso de bombas incendiárias, e na sua distribuição calculada nas cidades alvo, no espaço e no tempo, tendo em conta em cada caso as suas especificidades urbanísticas e construtivas, para provocar o famingerado "firestorm". O "firestorm", pela primeira vez conseguido no raide de Hamburgo no verão de 1943, é o resultado da junção de vários focos de incêndio, que cria uma coluna ar quente que sobe com tanta força, que suga o ar fresco da envolvente, provocando uma tempestade de todos os lados com velocidades acima de 200km/h, que não só impede o afastamento de qualquer pessoa do centro do fogo como leva mais material combustivel para lá. Outro efeito é a combustão de todo o oxigénio respirável, a geração de gases mortiferos como monóxido de carbono, o que assegura a morte, se isso não fôr conseguido pelas temperaturas elevadas durante várias horas, das pessoas nos abrigos e nas caves dos edifícios. Embora que ainda há poucos anos lhe foi erguido um monumento em Londres, não tenho dúvidas que Harris é um criminoso de guerra. E na apreciação moral, que fazemos de Churchill, devemos também perguntar porque permitiu ao seu comandante da força aerea esta guerra sistemática contra civís. Por fim uma nota de redacção: Hoje é o dia 13 de Fevereiro de 2005. Hoje quero falar sobre o bombardeamento de Dresden. Sobre a sua impossível justificação. Não vou hoje falar sobre os crimes de alemães, dos Nazi. Também não vou falar hoje sobre se alguns Neonazi tentam aproveitar a memória deste crime para desculpar outros. Hoje falo sobre Dresden, um crime indesculpável. Amanhã voltarei a falar sobre outros crimes, como já falei antes. P.S.: Mudei o link para informações sobre o bombardeamento de Dresden (em cima, no post) para um artigo da Wikipedia em língua inglesa, que entretanto encontrei. 27.1.05
Nasci na Alemanha, em 1960. Vivi numa vila pacata perto da fronteira holandesa, onde frequentei a escola primária, liceu, fiz o serviço cívico substituto do serviço militar para objectores de consciência; mais tarde mudei-me para Berlim, onde estudei e trabalhei, até 1993, quando emigrei para Portugal. Tenho boas memórias do meu país. Um país feliz, um país rico. E quando mais recuo na minha memória, aos anos setenta, sessenta, mais me aparece um pais pacífico, solidário e decente. Nada de que me lembro, evocou os horrores do regime nazi, da guerra, do holocausto. Nos anos cinquenta e sessenta, os tempos do regime nazi, a própria guerra mundial, e antes de mais Auschwitz foram assuntos tabu, apesar de todas as cerimónias de lembrança e dos mea-culpa oficiosos, e apesar da assunção pública da herança do estado nazi, isto é, da responsabilidade pelas consequências do holocausto, por todos os governos alemães (federais) desde 1948. Demasiadas pessoas que viveram os tempos da guerra e do holocausto em idade adulta, preferiam reprimir e esquecê-los, por um sentimento mais ou menos concreto, e caso à caso mais ou menos individualmente justificado, de culpa. Isto mudou no fim dos anos sessenta, antes de mais graças a geração de ’68. Na Alemanha, essa geração tinha, para além do idealismo e da ideologia marxista, um missão moral muito própria, uma pergunta: Pai, onde é que tu estiveste, o que é que tu fizeste para impedir o holocausto? Em 1969 o SPD de Willy Brandt chegou ao poder e iniciou a sua Entspannungspolitik, que passou pela aceitação também formal dos resultados da segunda guerra múndial. Quando no 7 de Dezembro 1970 Willy Brandt se ajoelhou no gueto de Warsóvia, isto causou ainda uma enorme polémica na Alemanha, mas o resultado mostrou claramente que a maioria dos alemães se revia neste gesto. A geração dos assassinos e dos que tinham desviado o olhar já estava em minoria. Nos anos setenta, quando andei no liceu, o nacional-socialismo, incluido o holocausto, eram matéria das aulas de história, para além das da moral. (E a Fuga da Morte de Celan conheço das aulas de alemão.) Não há nenhum mérito nisto, mas considero uma grande benção de ter crescido num país que foi obrigado à ensinar aos seus filhos a verdade sobre os crimes mais indizíveis que os seus antepassados próximos cometeram. Em 1979 passou a série televisiva americana Holocaust com grande impacto na TV alemã, num tempo em que ainda só havia três canais de TV público. O holocausto finalmente tinha chegado a ser discutido publicamente pelo cidadão comum, na rua e nos cafés. Era nesta altura que as últimas pessoas que estavam comprometidas com o nazismo desapareceram da vida profissional e pública. (Havia figuras públicas de relevo que só no fim da carreira ou já na reforma foram confrontadas com o seu passado, às vezes com, outras sem consequências palpáveis.) Os anos ’80 viram surgir os Skinheads, um fenómeno geracional não específicamente alemão de que se alimentam e ao qual se procuram aliar as estruturas da extrema direita tradicional que se vê na continuação do nazismo e que nunca completamente desapareceu. E que operavam e operam ora na clandestinidade, ora dentro da legalidade. É de notar, no entanto, que estes grupos nunca conseguiram uma base de apoio suficiente para ter um partido próximo deles no parlamento nacional – para isso são precisos 5% dos votos – e até hoje só pontual- e temporariamente em alguns parlamentos regionais. Depois da queda do muro em 1989 verificou-se uma maior expressão de fascismo e antisemitismo no território da antiga RDA, que me explico em parte pela maior instabilidade social ali existente, pela falta de quarenta anos de cultura democrática e antes de mais, pela falta da confrontação com a responsabilidade decorrente do holocausto: Ao contrário da RFA, a RDA recusara desde sempre estar em qualquer sentido na continuidade da Alemanha fascista: A RDA era o estado dos que resistiram ao fascismo, e que conseguiu julgar e punir atempadamente todos que de alguma forma foram culpados, só com excepção daqueles que antes conseguiram fugir para a RFA. Daí o legado do holocausto não se colocou como problema para os cidadãos da RDA. Já não sei como as coisas estão a desenvolver-se hoje, mas para a grande maioria dos alemães, o holocausto continua a ser um elemento indelével da sua história, e gostava de falar por todos, mas como não conheço as pessoas da Ex-RDA e já não vivo na Alemanha há 11 anos, não tenho a certeza toda quando digo que Auschwitz é um elemento indelével da nossa identidade nacional. O que acho bem que assim seja. Não por ser uma vergonha, mas como missão. P.S.: Quando refiro, no início do post, o país pacífico, solidário e decente, em que me lembro ter crescido, faço o hoje com a consciência incómoda de que foram só 15 anos, que separavam este país do país de Auschwitz, e que as mesmas pessoas ainda viviam nele que viviam no anterior... Este incómodo cresce com os anos, em que passo a perceber cada vez melhor que quinze anos são muito pouco. Não tinhamos e não temos consciência disto. Porque todos nós os alemães, que nascémos depois do holocausto, partilhamos uma sensação: Não interessa quão drasticamente fomos confrontados com estes horrores, quão seriamente queremos aprender com eles, sempre tomamo-los por histórias dum passado remoto e também por isso - quer nos parecer - incompreensível. Etiquetas: alemanha, antisemitismo, sel 25.1.05
Schwarze Milch der Frühe wir trinken sie abends wir trinken sie mittags und morgens wir trinken sie nachts wir trinken und trinken wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete er schreibt es und tritt vor das Haus und es blitzen die Sterne er pfeift seine Rüden herbei er pfeift seine Juden hervor läßt schaufeln ein Grab in der Erde er befiehlt uns spielt auf nun zum Tanz Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts wir trinken dich morgens und mittags wir trinken dich abends wir trinken und trinken Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete Dein aschenes Haar Sulamith wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng Er ruft stecht tiefer ins Erdreich ihr einen ihr andern singet und spielt er greift nach dem Eisen im Gurt er schwingts seine Augen sind blau stecht tiefer die Spaten ihr einen ihr andern spielt weiter zum Tanz auf Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts wir trinken dich mittags und morgens wir trinken dich abends wir trinken und trinken ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete dein aschenes Haar Sulamith er spielt mit den Schlangen Er ruft spielt süßer den Tod der Tod ist ein Meister aus Deutschland er ruft streicht dunkler die Geigen dann steigt ihr als Rauch in die Luft dann habt ihr ein Grab in den Wolken da liegt man nicht eng Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts wir trinken dich mittags der Tod ist ein Meister aus Deutschland wir trinken dich abends und morgens wir trinken und trinken der Tod ist ein Meister aus Deutschland sein Auge ist blau er trifft dich mit bleierner Kugel er trifft dich genau ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete er hetzt seine Rüden auf uns er schenkt uns ein Grab in der Luft er spielt mit den Schlangen und träumet der Tod ist ein Meister aus Deutschland dein goldenes Haar Margarete dein aschenes Haar Sulamith (Paul Celan) _________ Fuga da morte Leite negro da aurora bebemo-lo ao anoitecer bebemo-lo ao meio-dia e de manhã bebemo-lo à noite bebemos e bebemos cavamos uma sepultura nos ares aonde o espaço não falta um homem vive em casa brinca com serpentes escreve escreve quando a noite cai na Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida escreve e sai de casa e brilham as estrelas e chama os cães de caça aqui aqui apita aos seus judeus venham cá cavem uma sepultura na terra manda que toquemos para a dança Leite negro da aurora bebemos-te à noite bebemos-te pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao anoitecer bebemos e bebemos um homem vive em casa brinca com serpentes escreve escreve quando a noite cai na Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida o teu cabelo de cinza Sulamita cavamos uma sepultura nos ares aonde o espaço não falta Ele grita cavem na terra bem fundo vocês aí vocês outros cantem e toquem agarra no cano de aço à cinta e brande-o como são azuis os seus olhos enterrem mais fundo a pá vocês aí vocês toquem para a dança Leite negro da aurora bebemos-te à noite bebemos-te ao meio-dia e de manhã bebemos-te ao anoitecer bebemos e bebemos um homem vive em casa o teu cabelo de oiro Margarida o teu cabelo de cinza Sulamita ele brinca com serpentes Grita toquem mais doce a Dança da Morte ela é um Senhor de Alemanha grita toquem mais sombriamente os violinos depois hão-de subir em fumo nos ares depois haveis de ter uma sepultura nas nuvens onde o espaço não falta Leite negro da aurora bebemos-te à noite bebemos-te ao meio-dia a morte é um Senhor de Alemanha bebemos-te ao anoitecer e pela manhã bebemos e bebemos a Morte é um Senhor de Alemanha como são azuis os seus olhos há-de abater-te com uma chumbada abater-te com pontaria um homem vive em casa o teu cabelo de oiro Margarida açula contra nós os lebréus magros dá-nos sepultura nos ares brinca com serpentes e sonha a morte é um Senhor de Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida o teu cabelo de cinza Sulamita. (Tradução de Jorge de Sena) Etiquetas: alemanha, antisemitismo, sel 10.11.04
No verão de 1989 chegámos, um jovem casal com um bebé de seis semanas, vindos de Portugal, a nossa casa extraordinária na ilha Lohmühleninsel em Berlim Kreuzberg. Como o último dente na boca duma velha, o prédio estreito, de quatro pisos e três fogos, erguia-se, entre terrenos baldios e barracas, no beco sem saida que era o Schleusenufer, a única rua da ilha. Dois dos nossos três quartos davam para a rua, que do outro lado não tinha prédios, mas o canal e a eclusa que deu à rua o nome. A ilha era o resultado da bifurcação do Landwehrkanal, que aqui entrava no rio Spree. Um canal estreito, mas nevegável, embora que desde a construção do muro sem tráfego. No outro lado da eclusa, por de trás duma fila de plátanos majestosas, havia uma típica fábrica berlinense, um prédio sólido e comprido de tijolo, com janelas altas e pé-direitos elevados, que estava semi-abandonada: uma ou outra empresa tinha aqui um gabinete, para poder tirar proveito de benefícios fiscais por estar sediada em Berlim ocidental. De resto, os espaços ou estavam fechados, ou - alguns poucos - aproveitados como lofts. A casa da eclusa contrastava com este fundo: fingindo ser uma moradia, com telhado de duas águas muito inclinadas, situava-se mesmo na margem do canal, por detrás da vedação em rede que separava a eclusa da terra firme de Berlim ocidental. Pois ambas as margens da Spree e também desta parte do canal, eram território da RDA. O guarda da eclusa era assim, tal como os motoristas da S-Bahn que embora circulando em Berlim ocidental, também estava sob a administração da RDA, uma pessoa de especial confiança do regime. Porque seria uma brincadeira para ele, se quisesse, em vez de voltar, todos os dias, no barco para o lado comunista, trepar a rede e fugir. Nem a torre de vigia, que se erguia como um farol macabro uns cinquenta metros em frente nas águas da Spree, seria um problema para ele. O outro lado, esse encontrava-se para lá do rio. Aqui, na Spree, não havia muro. Não era necessário. Para além da torre, bastavam as redes na água, os barcos patrulha e os fortes holofotes, que iluminavam toda a envolvente durante a noite, e que faziam com que eu, em todos os meses que vivia nesta casa, nunca dormi no escuro. O outro lado também ficava nas traseiras da nossa casa. O segundo ramo do canal passava a uns trinta metros por detrás do nosso prédio, e este era suficientemente estreito para justificar o muro no lado de lá da água. Por detrás dele, outro prédio, outra fábrica abandonada. Mas em cima do telhado dela estava montada uma galeria metálica, na qual patrulhavam os polícias de fronteira da RDA, os Kalashnikov sempre debaixo do braço. Era sob os seus olhares que tomávamos os nossos pequenos almoços na cozinha. No início uma pessoa podia achar este cenário perverso e incomodativo, mas na verdade a zona tinha um encanto muito próprio, um charme de fim do mundo. A Lohmühleninsel era, no sentido mais literal, um idílio a sombra do muro. Alí até se pescava, com calma, mesmo na margem do canal pertencente à RDA, protegido pelo próprio muro da vista dos guardas. E enquanto Kreuzberg na estação U-Bahn Kottbusser Tor ainda fervilhava de vida, com a sua fauna multi-cultural, de turcos, curdos, punks, estudantes, velhos berlinenses e activistas das varias seitas da extrema esquerda, aqui, mais em frente, descia-se da estação terminal Schlesisches Tor já num ambiente muito mais sossegado; e quem passava pelo Bonjour Tristesse de Siza Vieira e percorria a Schlesische Strasse no seu último quilómetro até ela esbarrar no muro, sentia à cada passo a crescente solidão. Já não havia mais pubs, nem sequer snack-bares turcos com Döner Kebap, nem lojas - só quase no fim, o quiosque que vendia cerveja de garrafa e vodka em frente do asilo dos sem-abrigo. A seguir veio a ilha, e quem virava à esquerda antes da bomba de gasolina abandonada, estava na nossa rua. Nos fins de semana, vieram aqui os turcos fazer pique-nique, abriam as portas dos seus velhos Ford Escort e Golf e inundavam este lugar com a sua música pop oriental. Nas noites dos dias úteis, menos barulhentos, vieram para o mesmo local as prostitutas nos carros dos seus clientes, para fazer, em dez minutos, o serviço, e ir se embora logo a seguir. Três ou quatro dias antes do 9. de Novembro estava sozinho em casa quando vi uma coisa insólita: Um rebocador, mais precisamente „empurrador“ de batelão amarrado a nossa ilha. Vi um homem com óbvio nervosismo trepar a vedação da eclusa. No meio do rio, um batelão abandonado à deriva. Mais tarde pude observar da minha janela como um barco da guarda da fronteira da RDA conseguiu apanhar o batelão antes de este chocar com a margem. Não sei por que razão, mas quando vi o homem nervoso não percebi logo o que se estava a passar e não me lembrei de olhar para a torre de vigia. Da casa da eclusa, não se via reacção alguma. Foi a única fuga a qual assisti. Não houve tiros. À parte desta história, tudo que sabia e sentia da agitação em que se encontrava a RDA vinha, como para todos os outros, da televisão: o quadragésimo aniversário da RDA, a visita de Gorbatchov, as manifestações de Segunda-feira em Leipzig, as fugas em massa da Hungria para a Austria, o drama emocionante na embaixada alemã de Praga. Eram tempos em que era animador ver o notíciário, mas tinha outras prioridades. Estava na recta final do meu trabalho de fim do curso, que devia entregar na terça-feira, 14 de Novembro. Na quinta-feira, 9 de Novembro, as 10h00 da noite, decidi terminar o trabalho por este dia. Os amigos, que ajudavam nos desenhos finais, já se tinham ido embora para jantar. O bebé estava com os meus pais em Westdeutschland e a Margarida fora mostrar os bares in de Kreuzberg a uma amiga que estava de visita de Portugal. Liguei a TV. Um reporter na rua, em frente da Oberbaumbrücke, falava excitadamente. “Aqui ainda está tudo calmo, vamos então mudar para o colega na Bernauer Strasse, parece que lá já estão a chegar os primeiros compatriotas...” Peguei no meu casaco e fui para a rua. A Oberbaumbrücke era aqui ao lado. Ela era a ponte na qual o U-Bahn antigamente atravessava a Spree, logo a seguir a estação Schlesisches Tor. Desde a guerra, a ponte estava fechada e até os carris desmantelados. Usava-se, sim, como ponto de travessia exclusiva para soldados das quatro forças aliadas. Comigo aguardavam lá talvez uma dúzia de berlinenses ocidentais a chegada dos primeiros que vieram do leste. Não demorou muito. Lembro me da atmosfera irreal e da enorme calma, em que tudo isso se passou, no nosso lado, nestas primeiras horas. E lembro me ter ficado impressionado pela extraordinária juventude dos visitantes. Um rapaz e uma rapariga, seguramente não com mais do que 16 anos, aproximavam-se da linha branca, que demarcava a margem do rio - oficialmente RDA - do território ocidental. Havia aqui as famosas placas: „Atention! You are Leaving the American Sector!“ Antes da linha, paravam, e deram, de mãos dadas, o passo em simultâneo. As imagens desta noite e do dia seguinte, no Brandenburger Tor, no Tiergarten, no Kurfürstendamm, são conhecidas. Na minha ilha não se sentia ainda muita diferença. Isto só mudou no Sábado, quando veio uma auto-grua do lado da RDA e abriu uma fresta no muro onde ela atravessava a Schlesische Strasse. E o nosso mundo abandonado tornou-se preto de gente. Neste dia, tinha de ir para o centro da cidade ocidental, e demorei quase três horas para os 12 quilómetros. Não havia maneira de deslocar-se de carro, nas entradas do U-Bahn as filas chegaram a ter centenas de metros, e a minha decisão de ir de bicicleta revelou-se uma má ideia. Era mais um obstáculo que tive de empurrar, durante quase todo o percurso, no mar de pessoas. Durante todos estes dias havia um ambiente de festa, um sentimento generalizado de solidariedade e de enorme esperança. Mas não tardou muito que se fez notar o espírito empreendedor. Os primeiros que o revelavam eram os turcos que, compreensivelmente, estavam menos emocionados. Depois de o governo da RFA ter começado a distribuir, através dos correios e agências bancárias o „Dinheiro das Boas-Vindas“ (ca. de 10 contos para quem aceitava um carimbo no seu BI da RDA), na minha Schlesische Strasse, onde nem lojas havia, alinhavam stands improvisados que vendiam bananas, pastilhas elásticas e latas de Coca Cola morna aos novos visitantes. Demorou ainda umas semanas até os berlinenses ocidentais começavam a perder a paciência com o facto de já não haver lugares sentados no metro, e em vez disso filas de espera e prateleiras vazias nos supermercados. E que apareceu o primeiro T-Shirt que dizia, em berlinense: „Ick will meene Mauer wiederhaam!“ O que é em português: „Quero o meu muro de volta!“ 9.11.04
"Logo que o decurso dos acontecimentos desta noite permite o destacamento dos oficiais para isso, deve prender-se em todos os distritos tantos judeus - nomeadamente abastados - como é possivel alojar nas prisões para isso preparadas. No início, só se deve prender Judeus saudáveis, de sexo masculino e não demasiado velhos. Depois da conclusão da prisão deve imedatamente ser estabelecido o contacto com os respectivos campos de concentração para a transeferência mais rápida possível para eles." (Reinhard Heydrich: Telex do 9.11.38)
Na "Reichskristallnacht" o poder Nazi organizou um pogrom contra os Judeus a escala nacional, incendiando e destruindo sinagogas, assaltando lojas judias e prendendo arbitráriamente milhares de judeus para deportá-los para os campos de concentração. O NSDAP esforçou-se de dar a esta acção o aspecto dum surto espontáneo de "justa raiva popular", mas era uma acção minuciosamente planeada e organizada. O "povo", quer dizer o mob, eram, na verdade, membros do partido disfarçados de civís. A Kristallnacht foi um marco na escalada da perseguição antisemita na Alemanha Nazi, e um teste importante para ver em que medida a população comum tolerava ou até participava na violência aberta contra os Judeus. Ela não participou, mas não se mexeu. A partir daí, os assassinos sabiam que podiam contar com a cobardia do povo. _______________ Exactamente 51 anos depois, caiu o muro de Berlim. Por coincidir esta data com a Kristallnacht, hoje não é o dia 9 de Novembro feriado nacional, mas o incomparavelmente menos emocionante dia da assinatura do tratado da reunificação, o 3 de Outubro. Etiquetas: alemanha, antisemitismo, cidadania, sel 20.6.04
Reparo frequentemente que o texto da primeira estrofe do hino alemão, que começa com "Alemanha, Alemanha acima de tudo", é muitas vezes associado à atitude militarista e expansionista que Alemanha revelou na primeira metade do último século. Injustamente, como quero aqui demonstrar. Percebe-se que depois da 2ª Guerra Mundial, muitos países vizinhos ficaram especialmente alérgicos ao som do hino alemão. Mas a razão, porque os aliados, quando em 1948 devolveram a soberania à Alemanha vencida, exigiram entre outro como condição o abandono desta primeira estrofe, era mais concreta. Não era, em primeiro lugar o verso: "Deutschland, Deutschland über alles" ("Alemanha, Alemanha acima de tudo"), mas a delimitação do seu território: "Von der Maas bis an die Memel, Von der Etsch bis an den Belt -" ("Do [rio] Maas ao [rio] Memel Do [rio] Etsch ao Báltico") Não podia permitir-se a alusão a um território, que depois do ajuste das fronteiras alemães em 1945, deixou de ser alemão. (Em 1939 Hitler e Estaline tinham repartido Polónia entre eles. A ocupação alemã da Polónia desencadeou a II Guerra múndial, foi a razão da entrada de França e Inglaterra nesta guerra. Após a vitória dos aliados, por isso não podia haver dúvida sobre que Polónia tinha que ser reestabelecida. Mas como vencedor da guerra, Estaline não entendeu que tinha que devolver a sua parte. Por isso compensou os Polacos com os territórios alemães entre os rios Memel e Oder sob a sua ocupação, o que levou a mais uma enorme limpeza étnica do século XX, com 12 milhões de deslocados.) Hoffmann von Fallersleben, o autor do hino, não escreveu, 1841, "Deutschland Deutschland über alles" como apelo para uma campanha expansionista, mas como uma chamada à unidade de todos os alemães que viviam em várias dúzias de pequenos reinos e ducados. Queria a Alemanha posto acima não das outras nacões, mas de todos os interesses particulares dos seus compatriotas. Para ele e muitos da sua geração, os ideiais da revolução francesa fundiram-se com o sonho duma Alemanha unida e livre, sonho que não se concretizou: Em seu lugar surgio em 1871 um império militarsta dominado pela Prussia. Não vejo nada no texto do hino, de que um alemão se teria que envergonhar. Embora que a segundo estrofe me faz sorrir, pelo alinhamento daquilo que von Fallersleben entendeu como os quatro valores principais alemães. E a 3ª estrofe do hino, à qual se resume hoje o hino oficial, destaca-se de muitos outros hinos pela sua total ausência de militarismo e pelos valores nela enunciados. 1. Deutschland, Deutschland über alles, Über alles in der Welt, Wenn es stets zu Schutz und Trutze Brüderlich zusammenhält, Von der Maas bis an die Memel, Von der Etsch bis an den Belt - Deutschland, Deutschland über alles, Über alles in der Welt. 2. Deutsche Frauen, deutsche Treue, Deutscher Wein und deutscher Sang Sollen in der Welt behalten Ihren alten schönen Klang, Uns zu edler Tat begeistern Unser ganzes Leben lang. Deutsche Frauen, deutsche Treue, Deutscher Wein und deutscher Sang. 3. Einigkeit und Recht und Freiheit Für das deutsche Vaterland. Danach lasst uns alle streben, Brüdelich mit Herz und Hand! Einigkeit und Recht und Freiheit Sind des Glückes Unterpfand. Blühe im Glanze deines Glückes Blühe deutsches Vaterland! ___________ 1. Alemanha, Alemanha acima de tudo Acima de tudo no mundo, Quando sempre, na defesa e resistência Fica unida irmãomente, Do [rio] Maas ao [rio] Memel Do [rio] Etsch ao Báltico Alemanha, Alemanha acima de tudo Acima de tudo no mundo. 2. Mulheres alemãs, fidelidade alemã, Vinho alemão e canto alemão Devem manter no mundo O seu velho e belo som, inspirá-nos para acto nobre durante toda a nossa vida. Mulheres alemãs, fidelidade alemã, Vinho alemão e canto alemão. 3. Unidade e justiça e liberdade Para a pátria alemã. Zelaremos todos para isso Fraternamente com coração e mão. Unidade e justiça e liberdade São a garantia da felicidade. Floresce no brilho da tua felicidade Floresce pátria alemã! 20.4.04
Não fui eu. Nem os meus pais, que eram crianças na altura. Nem os meus avôs, de ambos os lados, cometeram crime maior (que já é grande, mas comum) do que olhar para o lado e de não erguer a voz. Mas quando vejo as imágens na Rua da Judiaria (que conheço bem), sinto uma inenarrável vergonha. E essa vergonha é merecida, enquanto continuo alemão, me sinto alemão. Desde muito novo, tento, por causa dessa vergonha, suprimir qualquer sentimento patriótico em mim, qualquer sentimento de orgulho nacional: Para não ter que sentir essa vergonha. - Por achar que se não fosse alemão, ou se meu ser alemão fosse um acaso que me calhou sem qualquer mérito ou demerito (racionalmente sei que assim é), não podia orgulhar-me de Kant ou de Beethoven mas também não teria que sentir essa vergonha. Por isso tento de não orgulhar-me de Kant ou de Beethoven. E de não estar contente quando a equipa nacional alemã ganha no futebol, por exemplo. Houve um tempo em que achei possivel recusar essa herança: tudo, bens e dívidas, como é possivel na vida civil. Mas não é. É evidente que não é. Sou alemão, e embora que não acredite nas leis de sangue, não posso devolver nem os benefícios nem as obrigações que vêm com isso, mesmo se quisesse. E assim vou ter que viver com a vergonha. E tentar aprender de fazer com ela algo que sirva para alguma coisa. E pensando nisto, percebi: Mesmo se deixasse de ser alemão, não me livrava dessa vergonha. Essa vergonha que é minha enquanto alemão, é também a vergonha de todos os Homens, de todos mesmo. Não somos só eu e os meus compatriotas que têm de aprender com ela. Etiquetas: alemanha, antisemitismo, sel 16.12.03
Quando fiz seguir às minhas especulações sobre a orígem da desumanidade nos campos de extermínio aquele texto fascinante de Ignácio de Loyola sobre a obediência, isto era óbviamente intencional. Não é que quero postular alguma paternidade moral (ou seja, em relação a objectivos) de Loyola para a shoah; isto seria tão injusto como fazê-lo em relação a Wagner e Nietzsche, que de resto tinham mesmo muito pouco em comum com Loyola. (Mas em relação não aos objectivos mas ao método, há uma citação interessante de Hitler*: "Aprendi muito com a ordem dos jesuitas. Até hoje, nunca existiu uma coisa tão grandiosa na terra como a organização hierarquica da igreja católica. Transferi muito desta organização para dentro do meu partido." E Walter Schellenberg, antigo chefe da contra-espionágem alemã, disse o seguinte: "A organização da SS foi constituido por Himmler de acordo com os princípios da ordem jesuita. Os seus regulamentos e os exercícios espirituais prescritos por Ignácio de Loyola foram o modelo que Himmler tentou copiar exactamente. O título de Himmler como chefe supremo da SS era para ser o equivalente do "general" dos jesuitas e toda a estrutura era uma imitação estreita da ordem hierarquica da igreja católica." ) Não me interessa aqui julgar Loyola; se isto acontecer, será um efeito colateral. Estou a tentar compreender assassinos. E aqui acho que a carta ajuda. A carta, de resto, fala por si. A obediência foi uma sempre reincidente explicação e justificação apresentada pelos arguidos nos processos que tentaram julgar os crimes nos campos da morte. E não me parece que era só conversa, só desculpas fabricadas a posteriori. Há aqui algo que evidentemente não desculpa mas que convém perceber. É verdade que houve animais que matavam e torturavam por prazer, mas a questão da obediência, e da convicção dos arguidos da sua inocência resultante dela, parece-me a questão chave: Sem essa obediência nada do que aconteceu poderia ter acontecido. A carta de Loyola é talvez o texto mais lúcido que uma vez foi escrito sobre a obediência. É uma pena que não encontrei nenhuma tradução portuguesa dela na net (o que não deixa de ser um pouco irónico, tendo em conta que ela foi escrito para destinatários portugueses...): Aqui havia uma tarefa meritória para os colégios jesuitas portugueses. Não sei se o Colégio S. João de Brito o faz, mas esta carta deveria ser leitura obrigatória nas escolas... Porque ela explica muito, explica como a obediência bem aprendida cria robots inteligentes, que não são atrapalhados por qualquer sentimento ou raciocínio divergente daquele que é transmitido pela cadeia de comando. Basta uma vez na vida ter se convencido da legitimidade do topo da hierarquia (para os jesuitas: Deus, para os nazi: Hitler), e nunca mais pensa-se nisso... Há mais uma outra coisa que torna essa carta tão importante. Percebi através dela o enorme fascínio que exerce a ideia da obediência absoluta. É uma tentação forte (que consigo sentir bem), para desprender-me de uma vez por todos do meu ego e de entregar-me, com todas as fibras, corpo e alma, à uma vontade alheia. Isto é um fascínio essencialmente religioso: É o doce canto de sereia da submissão. Essa atracção para mim era tão grande, que durante os anos da minha adolescência não consegui ler esta carta: Tinha o texto entre os meus livros, tinha curiosidade, mas desisti, ao mais tardar na segunda página, com um sentimento de repulsa, de pudor, como se de uma aproximação imprópria se tratasse... Afinal, talvez é melhor não. Não deveria ser leitura obrigatória nas escolas... * (não tenho uma fonte segura destas citações) Etiquetas: alemanha, antisemitismo, moral, sel |
|
||||
|
|
|||||