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  • 15.2.07
    Liberalismo...



    ou planeamento estatal?



    No primeiro reina o livre jogo das forças, a iniciativa privada e a auto-regulação. O controlo e o cumprimento das regras de convivência é assegurado a partir do seu interior. (Bairro de difícil policiamento.)
    No segundo reinam a ordem e as regras impostas por fora. O controlo das regras de convivência é efectuado por dentro ou por fora, o seu cumprimento pode ser facilmente imposto por fora. (Bairro de fácil policiamento.)

    - Se tivesse de atribuir o adjectivo "pobre" a um e "rico" ao outro bairro, como faria?
    - Em qual dos dois bairros está a dignidade humana melhor salvaguardada?
    - Onde é que preferia viver?

    (Mais imagens impressionantes de urbanizações de México aqui, site descoberto via O Despropósito.)

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    4.1.05
    Os condomínios fechados são o cancro do espaço público!

    É preciso parar o seu crescimento antes de que seja tarde demais, ou eles destruirão o que é uma das grandes conquistas civilizacionais: Um espaço público habitável e seguro. Não me atrai nada viver num país dividido em ilhas de ordem, segurança e bem-estar, e um espaço público abandonado, pobre, sujo e inseguro, para o qual até quem vive nas primeiras, só pode sair devidamente armado e blindado.

    Free land, not land of the free!

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    18.12.04
    Apologia de edifícios faustosos, pagos pelo contribuinte

    "Os edifícios mais faustosos, monumentais, emblemáticos, de traça arquitectónica ímpar, foram construídos pelo Estado ou pela Igreja. Porque será???" pergunta o LR no Blasfémias. A resposta, certa, no meu entender, é dada pelo mesmo nos comentários ao seu post: "...porque estas foram desde sempre as únicas instituições às quais não se colocava o problema de escassez ou de custo dos recursos: sempre os obtiveram de forma duradoura e mais ou menos coerciva."

    No Complexidade e Contradição, o Lourenço responde duma forma que lhe deve custar muito crédito de que goza entre os bloguistas liberais. A sua resposta incide em dois planos: no artístico e no urbanistico. Limito-me neste post ao primeiro: A argumentação estritamente artística e cultural.

    Há uma diferença fundamental entre um edifício concebido estritamente em função do seu objectivo económico e um que tem também ou talvez prioritariamente o objectivo de representação. Entre, por exemplo, o Centro Comericial Colombo e o CCB. O Colombo não é arte, o CCB é. Pode-se discordar dos exemplos, reconhecendo valor artístico ou não a este ou aquele edifício, mas a questão fundamental não muda por isso: O Colombo não foi concebido par ser arte, mas para atrair pessoas e induzi-las a fazer compras; o CCB foi concebido, para além de facultar condições para o uso ao que se destina, para representar, no caso até é seguro dizer, para representar Portugal. E por isso é arte. Que como tal foi muito bem conseguido, como acho, mas isso não interessa para a distinção em questão.

    Costuma dizer-se que os Centros Comerciais são os Catedrais dos nossos tempos. Se isso fosse verdade, significava um declínio cultural profundamente desolador. Mas felizmente não é preciso acreditar nisto. Ainda se fazem grandes obras de arte na arquitectura. Não se fazem, é verdade, em condições económicas normais onde se optimiza a relação custo/proveito, sendo proveito a sua rentabilização económica. Uma obra de arte genuina necessita exactamente o contrário: de que a sua concepção e realização não seja refém da optimização económica. Prioritário tem de ser a optimização artística - se se consguir também uma optimização económica, excelente, se a optimização económica por acaso se integra no conceito artísitco pretendido, ainda melhor! Mas uma obra de arte caracteriza-se exactamente por isso: por transcender o plano da utilidade.

    No domínio privado toda a gente concordará com isso. Ninguém se veste ou decora a sua casa com o intuito de maximizar exclusivamente a relação funcionalidade/preço. Mas como é quando uma comunidade - igreja, estado - constroi equipamentos colectivos? Devem exprimir algo, que vá para além do seu uso? Para mim a resposta é claramente afirmativa: Uma comunidade que não se exprime, que não cria e representa uma ideia de si, uma ideia que transcende o puro utilitarismo da sua convivência, está condenada.
    __________________

    Se tiver tempo, irei explorar num próximo post o argumento urbanístico apresentado pelo Lourenço, que julgo tão válido como o artísitco.

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    30.7.04
    Haute cuisine e dores de barriga

    Há muito tempo desde que fiz o último post sobre arquitectura! Curiosamente na medida em que no trabalho fiquei mais ocupado com a arquitectura própriamente dita, diminuiu a minha inclinação de falar sobre ela no blogue. (A quem não conhece a nossa profissão seja dito que para mim como a maioria dos meus colegas infelizmente só uma ínfima parte do nosso tempo de trabalho é ocupado com a arquitectura própriamente dita.)
    Agora sinto me estimulado pelo post do Lourenço, que nele proclama a casa, contra a famosa definição de Le Corbusier dela como máquina de habitar, como máquina de emocionar.

    Não duvido por um momento de que Le Corbusier concordaria também com esta definição.
    O Lourenço reconhece que esta definição é a dele, ou seja a do autor. (Não necessáriamente a do habitante, do "utilizador".)
    Compreendo o bem e creio que talvez qualquer pessoa que escolhe uma profissão artística, faz isso pelo desejo de através dela conseguir alcançar as pessoas num domínio muito especial, de poder tocá-las.

    Depois de ter exprimido a minha plena concordância, quero lembrar-lhe algo que um velho professor nos explicou através duma analogia:

    Quando apreciamos uma refeição num bom restaurante, ninguem discute o seu valor nutritivo ou coloca a questão se ela eventualmente cria indigestão ou diarrheia. Discutimos a qualidade da obra do chefe de cuisine, e todas essas questãoes básicas são pressupostos que se toma por adquiridos.
    O chefe, no entanto, não as pode tomar por adquiridos, tem que garanti-las, e valha-lhe deus, e aos seus clientes, se falha neles!

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    4.3.04
    Em favor de casas inabitáveis

    Estudei arquitectura em Berlim na altura quando lá decorreu a IBA (Exposição Internacional de Arquitectura), o que tinha a fantástica vantágem de que quase todas as semanas uma vedeta de estatuto internacional estava na cidade, o que resultava quase sempre numa conferência na Faculdade.
    Lembro-me da vez de Raimund Abraham - um menos conhecido arquitecto e professor da Cooper Union - que apresentava um projecto dum prédio de trinta metros de altura e de três metros de largura, que no interior era quase só escadas. Assumidamente inabitável. O homem foi tão apupado que não conseguiu terminar a sua conferência. Nesta altura, a Faculdade de Arquitectura da TU Berlin ainda estava fortemente politizada e dominada por quem lutava contra qualquer gesto arquitectónico que não cumpria uma função social, de preferência revolucionária.
    Dois anos mais tarde a sorte dum ex-aluno desta Cooper Union não foi muito, mas um pouco melhor: Daniel Libeskind conseguiu concluir a sua conferência sobre um projecto dele, que previa um prédio de dois mil metros de comprimento situado no baldio que era o Potsdamer Platz. Era um enorme parallelepipédico que depois dos primeiros quinhentos metros se levantava do chão para se estender até para cima do muro.
    Os meus colegas na audiência não gostavam, entre outro, que o homem não tinha nenhuma resposta convincente sobre as funções que previa neste volume de construção considerável. Em vez disto ele não parou de falar dos livros filosóficos e arquitectónicos que mais o marcaram e com cujas páginas rasgadas tinha revestido toda a maqueta. (O que tinha - isso era impossivel negar - um efeito lindissimo.)
    Pensavam muitos que a Faculdade de Arquitectura se despedia naquele dia de um tarado de que nunca mais ouvirá falar...

    Como podemos reclamar o estatuto de arte para a arquitectura, se negamos a ela o direito a manifestos, projectados e construidos? Que exploram e materializam ideias e conceitos novos? Que não têm que ser habitaveis, ou sensatas, ou baratas. Desde que não se gasta dinheiros públicos dedicadas a habitação, estou me completamente nas tintas para a habitabilidade.

    E relativamente a casa Farnsworth: Estarei tão sozinho e completamente pervertido pela minha formação de arquitecto moderno, quando admito que a aceitaria, se a fundação Farnsworth me fizesse o favor de oferecê-la, como casa de fins-de-semana?
    Prometo de habitá-la mesmo e de não alterar nada!

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    13.2.04
    Formosinho Sanchez

    Anteontem, quando soube da morte de Formosinho Sanchez, fui a net, pescar uma imágem de uma obra dele, para a postar. Não encontrei nenhum. Sic transit gloria mundi. Muito injustamente, neste caso. Vou ver se levo a máquina digital este fim de semana e faço umas fotografias do Bairro das Estacas. Sempre um merecido Prémio Valmor, se não me engano.

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    Foster em Santos

    Há dias o Tiago do TM&RP desafiou-me (e o Lourenço) de pronunciar-me sobre o arquitecto Norman Foster.
    Nunca me entusiasmou muito a obra de Foster. Tenho, e muito, respeito pelo empresário, que conseguiu montar uma empresa de grande competência profissional em todos os níveis, incluindo o arquitectónico. Gosto do Reichstag, e um ou outro edifício.
    Mas a maior parte da sua produção não me toca. O que será o caso, pelo que vejo, também do projecto para Santos. Não me choca, não me entusiasma. A Torre, emfim, não me tapa a vista, mas não descubro o propósito que o fez nascer. A não ser este: Disse-me, em tempos, um professor meu, que projectou a sede de uma grande empresa alemã: "A torre tem-que ser, quem investe tanto dinheiro quer rever-se em algo que se destaca."

    Agora essa conversa do San Marco é um exemplo acabado de desinformação publicitária. (Recomendo a leitura do que m'A escreveu sobre isto, no GANG.)
    Como este blogue não se dirige só a arquitectos (nenhum arquitecto acaba o primeiro ano do curso sem ter aprendido isso), digo o aqui: A forma sozinha não faz o espaço urbano! (Por isso, a Piazza de San Marco trazido para Lisboa, deixa de ser a Piazza de San Marco...) A forma arquitectónica só é arte, se é a síntese de todos condicionantes do projecto: do programa, do terreno, da vivência do envolvente de agora, da vivência pretendida no futuro, da sensibilidade pessoal do autor do projecto, etc.
    Parece-me, que, lá em Santos, não é disto de que se trata. É um empreendimento imobilário. Será, se avança, projectado por quem sabe o seu ofício. Mas provavelmente não será arte; será talvez, o que não é pouco, como expliquei num outro post ("Well, there is a problem" do 05.02.04), boa construção corrente.

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    11.2.04
    Ó meu caro m'A, não duvides da sabedoria do mercado!

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    9.2.04
    "Arquitectura é uma oferta do arquitecto à sociedade."
    (Joachim Ganz)

    O Lourenço do Projecto está desiludido comigo. Com alguma razão, porque o texto que deixei na caixa dos comentários, é de facto, demasiado sintético e por isso equívoco:

    A pergunta devia ser: Why so many good left-wing architects?
    E a resposta: Pessoas da direita não acreditam em causas públicas e querem, antes de mais, ganhar dinheiro.


    Vou então reformular:
    Quanto sei e vi, pessoas da direita, ou seja pessoas que acreditam abrangentemente na lógica do mercado, não acham que devem, no exercício da sua profissão, perseguir um objectivo transcendente ou diverso ao qual para que são pagos.
    Um bom arquitecto procura, para além de servir ao cliente, ao bem público. E por nenhuma outra razão a não ser aquela de fazer o seu trabalho tão bem como possível. Mas esse "tão bem como possível" ultrapassa em muito o o que é, do ponto de vista duma gestão económica, racional e justificável. Se eu fosse gerente de um gabinete de arquitectura e tivesse como objectivo, como é normal em qualquer outro ramo de serviços, de maximizar o lucro ao longo prazo (o que já inclui a garantia da qualidade do produto, da imágem e da sustentabilidade da empresa), teria que impedir aos meus arquitectos de fazer o trabalho que leva o mero projecto à arquitectura.
    Isso não tem nada a ver com lirismo, ou com desinteresse pelo dinheiro (à sério, que venha o dinheiro!), tem a ver só com prioridades. E a prioridade de um bom arquitecto é fazer boa arquitectura. Agora estou convicto que boa arquitectura tem, inevitávelmente objectivos que ultrapassam os do cliente, e que se subsumam numa causa pública.

    E a experiência na própria pele, que a lógica do mercado, do livre jogo das forças económicas, não leva a boa arquitectura, faz com que os arquitectos tendem para a esquerda.

    Uma última nota: Não estou a marchar contra o sistema. Só sei que a produção de projectos puramente dentro da lógica do mercado normalmente não leva a arquitectura, mas a obras como o excelente - no sentido de cumprimento dos objectivos do cliente - Centro Comercial do Colombo.

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    7.2.04
    Coversas de atelier

    Conta-me um amigo que António Lobo Antunes, numa entrevista, falou da necessidade de ter que rasgar páginas boas para que o livro seja bom.
    Para os arquitectos, cujas obras são as páginas do livro da cidade (ou paisagem), isso é igualmente válido, mas custa ainda mais.

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    5.2.04
    Well, there is a Problem! (act.)

    O Planeta Reboque - colocou o de seguinte forma:
    "Se arte é incomodidade, se arte é trazer para o presente o olhar do futuro, como conciliar isso com a necessidade de conforto que a arquitectura implica?"

    Pedro Jordão do Epiderme não vê aqui problema nenhum, porque distingue - e bem - a incomodidade que é um necessário aspecto da arte, do conforto, que se exige dum edifício ou de forma mais geral de um espaço arquitectónico.

    Conforto (psicológico) certamente não é uma qualidade de uma obra de arte. Embora que seja verdade que obras de arte confortam, fazem-no, se o fazem, só e inevitávelmente num plano que é distinto do nosso conforto do dia-a-dia: O conforto que me dá a Paixão de S. Mateus de Bach tem nada, mas mesmo nada, a ver com o conforto que posso por exemplo comprar num daqueles CD de bem-estar da papelaria. (Irónicamente posso encontrar neles até o devidamente açucarado Air do mesmo compositor).
    Porque o conforto de uma verdadeira obra de arte só posso sentir se antes arrisquei de abrir-me para um espaço de experiência, em que a harmonia não me espera na primeira esquina, e onde pelo contrário, o caos e o desconhecido espreitam. "Porque o belo só é o início do terrível..."

    Estou então de acordo que conforto não tem nada perdido na arte. E estou também de acordo que arquitectura é arte.
    Se agora ainda aceito o pressuposto do Planeta Reboque, de que arquitectura implica conforto, estou numa aporia. E esta só se resolve, se admito que a arquitectura de que o Planeta Reboque fala, não é a mesma de que o Epiderme ou eu falamos.
    Dou por adquirido que o Pedro do Planeta Reboque não só se refere ao conforto físico, mas também ao conforto psicológico. Porque a questão do primeiro seria facilmente dissociar da arte, enquanto do segundo já não.
    Para mim, quem pratica a arquitectura (faz e realiza projectos), surge este problema que o Planeta Reboque menciona, com frequência, e como um problema de consciência. Porque o meu cliente procura os meus serviços na espectativa de que lhe crio uma espaço (casa, jardim, etc.) que lhe confere conforto. E mesmo que lhe providencio com bastante à-vontade o conforto físico, - opõe-se não raras vezes o interesse manifesto do cliente e o interesse do projecto enquanto arte. Porque quase ninguém quer viver o seu dia-a-dia numa obra de arte. E a história, que já ouvi várias vezes da boca de arquitectos famosos, que esse antagonismo não existe, e que o cliente só não sabe, que o intereese da obra de arte é o verdadeiro dele, e por isso isto resume-se a uma questão de pedagogia, que o arquitecto terá que aplicar ao cliente/utente; isto é um mito de autojustificação do arquitecto, que não compro. Há dias um colega contou me que um arquitecto famoso português dizia: "Quando inicias um projecto, tens que ter consciência que no fim terás mais dois inimigos para a vida: o empreiteiro e o cliente!"
    É - nem sempre, obviamente - possivel persuadi-lo. Mas se o faço feliz, ao longo prazo, é muito menos do que certo.

    A questão que se me coloca - contragosto - é se realmente toda a produção arquitectónica pode e deve ser arte: um instrumento cujo principal fim é colocar o destinatário fora do seu contexto habitual e pô-lo em contacto com o - aterrador e belo - essencial. Não será só construção que se procura: um projecto, sim, bem pensado, mas não mais? (Um dos meus antigos professores, Joachim Ganz, dizia que a arquitectura é uma oferta do arquitecto a sociedade, porque o que nos solicitam - e pagam - é só um projecto...)
    Claro que me vão responder que um artista não condiciona o que faz pela procura (Picasso: "Um pintor pinta o que vende, um artista vende o que pinta!"), mas um arquitecto?
    Não estou convencido que - por exemplo - cada prédio de habitação deve ser um instrumento para a experiência do desconhecido. Se não o é, pode ser na mesma um bom prédio: Quais foram as intenções, as menságens artisticas de toda a excelente arquitectura anónima que se fez, durante a história humana toda e em tantas diversas culturas? Não defendo com isto o desleixo, nem que outros deviam, em vez do arquitecto, ser autores destes projectos. Acredito que continua indispensável a sensibilidade artística do arquitecto, e também todo o seu empenho enquanto artista, quando, nas sua missão de construção corrente, deve procurar de contribuir com o seu objecto de não-arte, de forma adequada para aquela grande obra de arte que é a paisagem, paisagem urbana.

    Muitas das casas mais famosas enquanto obras de arte não costumavam ou costumam ser habitadas, a não ser pontualmente (Haus Tugendhat, Vila Savoie, Falling Water, House Fansworth, House Douglas). Porque será? Merecedor de uma análise interessante seria a questão porque as casas de Adolf Loos escapam... Loos, de facto, era, como o seu conterraneo e companheiro de lutas Karl Kraus, um inimigo declarado da "Gemütlichkeit" (conforto psicológico), mas as suas casas, sem ficarem por isso nada, mas mesmo nada, menores enquanto obras de arte, são quase todas muito confortáveis.
    A palavra alemã "Gemütlichkeit" (conforto psicológico) é familiar da palavra "Gemüt" (alma), assim que se pode traduzi-la com "confortável para a alma". Este tipo de conforto, a "Gemütlichkeit" é o horror de qualquer arquitecto com ambição de artista.

    Infelizmente não tenho só pessoas com Karl Kraus como cliente, que dizia (cito de memória):
    "As pessoas queixam-se que as cidades modernas não são confortáveis ("gemütlich"). O que quero da cidade é eléctricos e agua quente da torneira, gemütlich é que sou eu!"

    E depois há ainda o texto de Vilém Flusser, em que explica que o próprio acto de morar transforma o "belo" em "bonito", ou seja, a arte em kitsch.

    Se isso não é um problema para a arquitectura...

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    1.2.04


    Auditórios da Universidade de Aveiro

    Morreu Vítor Figueiredo,
    um dos melhores arquitectos portugueses dos últimos cinquenta anos. Quando Portugal reparou nele, tinha ele 69 anos. Foi em 1998.

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    29.1.04


    Charles Correa: JNIDB staff housing - Hyderabad 1986-91

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    28.1.04
    Comunicação e Espaço

    Este post é uma tradução dumas notas minhas que já tinha alguns anos, e dos quais me lembrei graças ao post serendipity do Lourenço nO Projecto. A questão nele levantada acho uma das mais importantes e fascinantes para quem se interroga o que hoje e amanhã pode ser arquitectura.

    Pelo menos até há muito pouco tempo não havia dúvida de que a profissão do arquitecto era a concepção do ambiente espacial do homem.
    A tradicional ideia do arquitecto que os leigos têm, mas também a maioria dos arquitectos têm deles próprios, é a de um especialista que concebe edificícios, isto é, projecta um ambiente físicamente real (e coordena a sua realização). Ele assume a responsabilidade pelas características desse ambiente físico, das suas qualidades construtivas, funcionais e estéticas. Enquanto os dois primeiros aspectos não são exclusivos do seu metier, são também do dos engenheiros, é o genuinamente característico da sua profissão o terceiro.

    Esta terceira área perde - enquanto se limita à realidade física – diáriamente importância no espaço de experiência ("Erfahrungsraum") do homem. Este espaço é cada vez mais preenchido por conteúdos que não existem no seu espaço físico. Informação chega lhe e comunicação - em tempo real - faz se atravessando distâncias já não sensualmente compreensiveis, e cria lhe uma "vizinhança" que não tem nada a ver com o espaço físico em que ele se move.

    O espaço físico como palco da comunicação, da interacção social: Grande parte do fascínio e encanto de lugares “genuinos” (normalmente antigos) provém provavelmente da relação estreita – da dialéctica da mútua representação - entre a interacção social e realidade física. Os objectos não só mostram os vestígios do uso, como são também requisitos da interacção social, dos rituais, são simbolos de status etc. No tempo da telecomunmicação uma parte substancial desta comunicação é privado deste plano, da representação no espaço e do ritual. (A classica cena de filme cómico das vénias do subordinado que fala com o superior ao telefone.)
    Mesmo assim, até há pouco, ficou o lugar: Isto é - por exemplo - o escritório, com a mediação pela telefonista e secretária na antecamara. O telefone como objecto já não podia encarnar o que antes fizeram roupas e o espaço. Mas ainda ficou o lugar do telefone. O exemplo extremo é o “telefone vermelho”. (Mas o seu acesso físicamente restringido já deu na prática, sem dúvida, lugar há muito ao código secreto digital...)

    Enquanto os vizinhos e os familiares já há algumas décadas têm que concorrer pela nossa atenção, nosso interesse e a nossa participação emocional ("Anteilnahme") com personágens fictícias (ou reais mas distantes) nomeadamente da televisão, desaparece agora, no tempo dos telemóveis e portáteis, também o lugar distinto da telecomunicação. Hoje posso existir económicamente e socialmente, e estar ao mesmo tempo em nenhum lado.
    Compramos uma liberdade nunca visto como o sacrifício do lugar.
    ____________

    Na interrogação sobre o que pode ser o arquitecto é útil pensar no colega, que os arquitectos “verdadeiros” talvez respeitam como artista, mas como colega a sério, arquitecto, não levam inteiramente a sério: o cenarista. Recorda-se como o seu metier já mudou no decurso da história: da arquitectura de pedra do teatro de Palladio, pelo cenarismo do desvão da ópera do século XIX (Schinkel), pela luminonotecnia e pelo maquetismo de cartolina de Metropolis até aos cenários immateriais dos nossos tempos (Senhor dos Aneis). Quando os arquitectos (e como se viu, arquitectos da primeira linha) fazem cenários, isto é uma especie de etude, uma coisa não totalmente séria, porque o que se constroi aqui é um mundo simulado, um mundo contraposto ao real para o curto tempo do espectáculo – enquanto a sua profissão verdadeira - óbviamente - não é a produção de simulações de mundos, mas a concepção ("Gestaltung") do mundo real, e não de maneira efémera, mas permanente, de preferência eterna: firmitas!

    Já se vê como será profundo o impacto sobre a ideia que o arquitecto tem de si, quando terá de abandonar a distinção entre o mundo real e virtual!

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    25.1.04
    Da vida de arquitecto

    O meu filho com então sete anos de idade veio buscar-me ao gabinete onde trabalhava na altura. O Patrakim, meu amigo e melhor desenhador-projectista do país, despediu-se de mim com o seu habitual e meio irónico "até amanhã, Sr. Engenheiro".

    Vira-se o Frederico para mim e pergunta: "Ó pai, foste promovido?"

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    22.1.04
    Visita ao terreno

    Alguns dos seus encantos são muito parecidos ao turismo, isto é: Estar num lugar pela primeira vez. Mas é uma coisa muito mais forte. E diferente: Sei que vou transformar este lugar!
    Curioso é como consigo deleitar-me totalamente sem remorsos com a beleza de espaços que sei que vou destruir - como este olival, por exemlo...

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    21.1.04
    Gosto de começar um novo projecto. Da primeira visita ao terreno. Ir a um local aonde nunca teria ido, se não fosse a razão do projecto.
    Primeiro: Tomar um café no café do bairro. Ver as pessoas. (Os alunos do liceu ao lado, a fazerem os trabalhos, a conversar...)
    Gosto de chegar lá, sabendo ainda quase nada. Tendo lido - só superficialmente - o programa.
    Trepar redes, caminhar em baldios.
    Orientar-me, caminhando, e olhar com uma atenção dispersa, que tenta perceber alguma coisa de que ainda não sabe o que será.
    Ver se aparecem perguntas.
    Ainda não ter ideias.

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    19.1.04
    St. Álvaro

    "[...] Esquece a esquerda intelectual, que o projecto de Alcântara é de um arquitecto genial, um artista eterno que Portugal deu ao mundo. A partir deste momento recusamos qualquer discussão política, recusamos qualquer democracia, a maioria não vence em questões estéticas, a democracia não funciona em arte. [...]"
    (O Crítico)

    Não falo em nome da esquerda intelectual (quem é visado é o Tchernignobil do BdE), mas este a muitos títulos notável post merece-me uma resposta. Ele reúne equívocos, que me parecem paradigmáticos para o estado lastimoso em que se encontra a cultura arquitectónica no (se me permitem:) nosso país. E tenho pena que o LAC do Projecto, uma referência entre os blogues de arquitectura, dá o seu - ao que parece – incondicional apoio.

    Não ponho em dúvida a genialidade e o estatuto mundial de Álvaro Siza. Os Portugueses tem razão em orgulhar se dele.
    Mas isso não dispensa-nos de analisar com olhar crítico as suas propostas. A infalibilidade dos génios é um mito tão primário, que não posso acreditar que o Crítico ou o Lourenço são vítimas dele. (Lembram-se de Le Corbusier? Um génio, não é? Porqué então é que Paris não lhe aceitou o Plan Voisin?)
    Por isso não se prostrem aos pés dele e veneram-no como uma divindade infalível.

    Se não houvesse falta de hábito em lidar com personalidades desta estatura, achávamos natural que também as propostas deles devem ser submetidos a uma análise crítica por um lado e a procedimentos democráticos por outro.
    Parece-me que a posição do Crítico enferma do defeito que quer ultrapassar: o provincialismo.

    Provincialista é achar que uma decisão acertada num caso específico compensa a falta de uma cultura artística e arquitectónica, que passa pelo debate qualificado, pela escolha e a promoção de projectos e da arte pública (como a arquitectura) não arbitrária mas por mecanismos e pessoas competentes.
    Diz o Crítico que recusa qualquer democracia, quando está em questão a obra de um génio, e que a democracia não funciona em arte. - O Crítico está a confundir – aparentemente – o voto directo, o referendo sobre uma obra de arte específica – com o estabelecimento de regras, por via democrática, que delegam a elites preparadas para esta tarefa, a tomada de decisões sobre a realização de projectos de interesse público.

    Pois, estou a falar – entre outro - de concursos públicos.

    A questão de democracia está mal posta: A escolha (se podemos isso chamar assim) das Torres por Santana Lopes é também resultado da democracia, isto é, da eleição deste homem como Presidente da Câmara de Lisboa, e dos seus cálculos para a sua futura reeleição. Mas se daí resulta a escolha de qualidade, é completamente arbitrário. (Quem diz ao Santana quem é um génio? Ou quem só está de momento na berra...)

    Mais grave do que um bom projecto realizado a menos ou do que um mau projecto realizado a mais é uma outra coisa:
    Enquanto rendemos nos aos grandes mestres, depois de eles terem provado a sua qualidade lá fora, e lhes entregamos, no fim da sua carreira, os trabalhos, que devíamos ter lhes entregue quando ainda andavam por cá ignorados, para que um pouco do seu brilho também nos ilumine cá na nossa terra, estamos a repetir o mesmo crime com aqueles talentos - por enquanto - menos famosos entre nós, aos quais negamos a oportunidade de se qualificar para estes trabalhos perante grémios e pessoas competentes e em procedimentos transparentes. Os Sizas de amanhã estão entre nós.

    ________________________

    Uma última nota sobre a arte e democracia:
    Há um engraçado bonmot de Mussolini sobre esta questão, que só posso citar da memória:

    Olhem para o Império Romano, as grandes cidades, os monumentos, e depois olhem para a Suiça: 500 anos de democracia, e qual é o seu contributo para a cultura mundial? – O relógio de cuco!

    Respondo eu, hoje, como arquitecto: E Luigi Snozzi, Aurélio Galfetti, Lívio Vacchini, Mário Botta, Herzog e De Meuron, Peter Zumthor.

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    3.1.04
    Jardins

    "Quem mora num subúrbio, cujo carácter ajardinado tem como intenção destacar-se do carácter escabroso de deserto de pedra do centro urbano, experiência o jardim não como uma zona vedada ganho a natureza, mas como uma tentativa um pouco ridícula, de introduzir um pouco de natureza para a cultura. Isto é uma experiência muito característica para o homem actual, e se não fosse coberto pela hábito, poderia servir como chave para a descodificação da nossa existência moderna. Porque isto é uma experiência que mergulha a nossa vida numa disposição completamente diferente daquela, em que provavelmente viveram os nossos antepassados "históricos". Nos atrasados da história não deambulamos, como os nossos antepassados, em jardins risonhos, mas em jardins ridículos. O sorriso - visto a partir d'aqui - arcáico transformou-se em nos para uma ligeira careta do ridículo. Nos vestimos outras mâscaras do que os nossos antepassados, somos pessoas de uma especie diferente, e a diferênça entre nossa mâscara de jardim e a deles é um exemplo para a diferênça entre pessoas da história e da emergente pós-história. [...]"

    em Vilém Flusser: Dinge und Undinge

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