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25.3.07
Quando recentemente visitei a minha terra, vi o Sr. R., pela primeira vez desde há anos. Estava no cemitério, a tratar da campa da sua mulher. Vi-o a partir da rua, entre ciprestes, sozinho, como sempre sozinho: um homem mais baixo que alto, de cara redonda, e com o mesmo cabelo branco que lhe conhecia de antigamente, mais fino agora, mas branco como já na primeira vez que o vi. Na forma que se mexia, notei a velhice, andava de passos curtos, parecia hesitante, como se não tivesse a certeza toda que o chão que pisava o sustentava. Sempre teve uma forma peculiar de movimentar-se: cauteloso, como preocupado em não chocar com algo, em não fazer impressão desagradável. De facto, o seu movimento lembrou-me uma rapariga que conhecia nas aulas de dança de salão da Juventude Católica, que frequentei aos quinze anos. Era muito feia, pálida até ao ponto da morbidez, com um nariz muito grande, e vestia também de forma pouco favorável, muito conservadora e fora de moda, assim que mal reparei, na altura, no seu físico de resto muito bem-feito. Quando ela me calhou na dança, fez-me uma sensação estranha: não a sentia! Era como se tivesse uma parceira fantasma. Antecipava os meus movimentos, que eu sabia pesados e bastante desajeitados ao tentar conduzir, como me competia, e movimentava-se com uma fluidez e leveza tal que não houve o mínimo de resistência. Não era uma falta de resistência inerte, pelo contrário, como bem compreendi, era uma falta de resistência altamente activa e controlada. A nossa terra foi durante oitocentos anos uma aldeia, composta por uma rua torta com casas de tijolo de burro e uma igreja gótica, que, embora rústica e modesta, quando medida por qualquer bitola normal, era manifestamente desproporcional à comunidade que servia. Situa-se na planície entre os rios Maas e Reno que aqui, graças às morenas do tempo dos glaciares, não é inteiramente plana, mas suavemente moldada. Alternam nela baixas colinas, mal perceptíveis como tais, ora cobertas por campos, ora por florestas, com pastos, pântanos e lagos deixados pela extracção de turfa e que hoje servem à pesca. Uma terra marcada por um céu baixo mas largo, como há em determinados quadros da escola holandesa. Até aos anos setenta do século XX, essa paisagem ficou remetida a sua pacata auto-suficiência, trocando o dono de vez em quando entre duques regionais e o episcopado, atravessada nas guerras por diversas tropas, que pela sua sorte aqui nunca muito se demoraram. Foi uma terra em que havia poucos forasteiros, e as pessoas que aqui viviam conheciam-se, as suas vidas e os seus segredos. Isto mudou com a construção da auto-estrada, que aproximou esta paisagem agradável às grandes cidades no vale do Reno, e a transformou numa zona de residência idílica da classe média que nelas trabalhava. Assim nasceu o bairro das moradias novas, num plano de que se via ter saído do estirador de quem não desperdiçou pensamento sobre a genese histórica ou as características topográficas da povoação. Recortou-se entre campos onde se cultivava batata, centeio e milho, um rectângulo que doravante era a extensão da nossa aldeia organicamente crescida. Na verdade, não foi a primeira extensão. Já antes, nas duas décadas que seguiram à 2ª Guerra Mundial, havia-se acrescentado ruas ao núcleo original, mas de uma forma avulsa, mais natural, ao passo do crescente bem-estar da população local, que se reflectia em casas novas e maiores para os filhos da terra. Eu morava numa delas. Embora não tendo nascido aqui, também não era um forasteiro normal. Tínhamos chegado antes deles, quando o meu pai acompanhara o seu sócio, que se instalara na terra natal da sua mulher. Assim, não me via como um dos recém-chegados das cidades. Desses era a familia R.. Ocupou um “bungalo”, ou seja uma moradia sem telhado, novo mas na altura já fora da moda, pela sua ambição modernista e falta de cedências ao estilo local. Não era melhor por isso. Se por um lado lhe faltava o kitsch habitual das moradias de quem, saído da cidade, no campo pretendia encenar a vida rural, este prédio desinspirado de tijolo branco primava pela acentuada ausência de qualquer qualidade acolhedora. Os R. tinham quatro filhos, todos rapazes, e o segundo deles, o J., chegou a ser colega da minha turma. O mais velho tinha então 15, o J. a minha idade, 13, e ainda havia os gémeos, dois rapazes com 10 anos, que andavam no 1º ano do liceu. Desta altura, ainda não éramos amigos próximos, só me lembro de uma vez que fui a sua casa. Foi assim que conheci a mãe, e de facto a única vez que a vi de perto. Entravamos na cozinha, o J. e eu, e ela estava lá a preparar um ovo estrelado para os gémeos. Perguntou-nos se também queríamos um, mas o J. apressou-se de negar para nós os dois, que ela não se preocupasse, que faziam-no nós. Achei curioso que o J. se oferecia para fazer-nos o lanche. Eu estava habituado, sem pensar, a que esse serviço sempre fosse feito pela mãe. A Sra. R. deixou-me, como depois outras coisas em casa do meu amigo, uma impressão incómoda. Tinha sido, ainda há pouco tempo, uma mulher bonita. Alta, de cabelo liso negro, grandes olhos castanhos, lábios cheios. Mas agora a boca estava descaída para um lado, e o olho direito vagueava num vazio sem fixar qualquer coisa, e reparei que as collants que cobriam as pernas debaixo da saia estavam amarrotadas, mal apertadas, como se fossem dum tempo em que as pernas não tinham sido tão magras, e reparei nos sapatos de salto baixo que pareciam ter fins ortopédicos, como o de garantir um poiso seguro para quem necessita ajuda para manter o equilíbrio. Mais do que os sinais directos no seu físico, que foram consequência do AVC que a Sra. R. tinha sofrido recentemente, foram as collants amarrotadas que me deram uma sensação angustiante e deprimente de desleixo, de descalabro. Embora vizinhos, durante os próximos três anos não cheguei a pôr os pés nesta casa, e o meu contacto com J., o colega da turma, limitava-se a isso mesmo, éramos colegas, sem animosidades, sem especiais simpatias. Cada um vivia no seu grupo de amigos, que não se cruzavam. Isto só mudou quando passávamos a encontrar-nos também na Juventude Católica da vila vizinha, e então a partilhar o mesmo meio. Aproximávamo-nos porque interessávamo-nos pela mesma música, claro, e por questões filosóficas, mas antes de tudo descobrimos uma paixão comum para grandes viagens, que sonhávamos fazer no futuro. O J. era diferente de nós os outros, mais rigoroso, implacável. Ao contrário de mim e da maioria dos outros amigos, que talvez éramos meninos um pouco mimados e daí tinhamos uma visão optimista do mundo, uma em que as coisas boas eram o normal e as más estavam a espera de encontrar o seu remédio, o J. não acreditava nisto. O que de certa forma o afastava de nós, lhe deu um ar severo, até um pouco assustador, que nem sempre era agradável aturar, mas também um certo fascínio. Senti que era dum mundo fundamentalmente diferente do meu. Não concordava com ele, repudiava esta forma de estar na vida, mas continuávamos amigos, e achei sempre um pouco estranho que ele, conhecendo-me a mim, tinha tanto apreço para mim como mostrava. Quando voltávamos a dar-nos, já tinha falecido a mãe, na sequência doutro AVC. Tinha permanecido em coma durante quase dois anos. Os quatro rapazes viviam desde então com o pai, que tinha o seu consultório de dentista numa cidade para lá do Reno, ausente durante o dia, e com o apoio duma governante. Como calhava, reuníamos ora em casa dum, ora em casa doutro amigo. Com frequência no quarto de J., que era dono duma excelente colecção de discos e duma aparelhagem própria. Falávamos de Deus e do mundo, mas nunca falávamos do falecimento da mãe ou de quaisquer outros problemas familiares. Mesmo assim, não sei como, sendo ele um amigo tão reservado no que respeitava os assuntos pessoais e íntimos, já antes do episódio que pô-lo à vista de forma mais chocante, tínhamos consciência do ódio, do extremo desprezo que nutria pelo seu pai. E não só ele, como chegámos a saber, outra vez não sei como, o irmão mais velho, que raramente víamos, tinha-o também. Naquele dia estávamos, como inúmeras vezes antes e depois, no quarto de J., com uns amigos. Abriu-se a porta e entrou o pai e dirigiu, em tom educado, uma pergunta de foro prático ao filho. Este levantou-se, não disse uma palavra, e empurrou o pai, sem uso das mãos, só se aproveitando do seu peito largo e da sua altura maior, pela porta fora. Fechou o trinco e voltou, sem alteração na expressão da cara, sem explicação, à nossa conversa. Ninguém lhe perguntou nada. E o pai não voltou a entrar no quarto. Com a leviandade própria da nossa idade, conseguimos ultrapassar o momento embaraçoso e continuar a nossa amena cavaqueira naquele dia. Mas é verdade que o episódio me perseguiu, tão impensável era para mim a relação entre pai e filho, em todos os aspectos. O que pode gerar um tal ódio e desprezo? E ainda mais incompreensível era: o que pode ter levado o pai a aceitar um tratamento tão humilhante? Algumas vezes ainda, mas sem grande convicção e sem êxito, tentei obter um esclarecimento da parte do meu amigo. Depois deixei a questão ficar-se por aí, aceitei-a, como um dos factos humanos que são como são, sem explicação. Coerentemente, bani o Sr. R. do meu pensamento, quer dizer, cumprimentava-o, quando o via, o que acontecia inevitavelmente e com frequência na nossa terra pequena, e também em sua casa. Nunca formei opinião consciente sobre ele, não fiz minha a opinião desfavorável do meu amigo, nem a contestei. Para mim, o homem ficou enigmático, mas sem grande interesse. Embora inconscientemente, claro, tinha uma opinião dele: Um banana com um segredo provavelmente ignóbil, que o levou a aceitar a humilhação pública pelos seus filhos, na sua própria casa. Quase trinta anos depois, numa conversa ocasional com a minha mãe sobre uma amiga que sofreu um AVC e está em estado de quase coma há anos, ela mencionou uma frase que o Sr. R. terá proferido, não sei quando: Que, no caso da sua mulher, a ambulância tinha chegado 10 minutos cedo demais. A partir dessa frase, construí-me a explicação que me falta há 30 anos. Não sei se está certa, e não faço tenções de a verificar. Há muito perdi qualquer contacto com J., com o Sr. R. ou outro membro da família. Imagino. Imagino que, depois do primeiro AVC, a mulher terá solicitado uma promessa ao marido: Na próxima vez, não faças nada! E na próxima vez, o Sr. R. tentou fazer nada, mas foi contrariado pelos seus filhos. Etiquetas: prosa 2.2.07
Já falei aqui dos meus pais, e quem leu as minhas notas autobiográficas (links aqui ao lado), sabe que os tenho em grande apreço, e porquê. Espero por isso não ser muito indecoroso ao relatar uma memória de infância, em que o meu pai mostra um comportamento talvez um pouco censurável. Estou seguro que ele, que sei por vezes se dá ao trabalho de decifrar os meus textos quase em português, me perdoará a indiscrição. Tinha quatro anos e aconteceu nas minhas primeiras férias de família. Férias fantásticas na lindíssima ilha frísia de Ameland, que nunca mais visitei e nunca mais visitarei para não destruir as minhas recordações. Estas férias deixaram-me marcas indeléveis, entre outras, uma paixão pela navegação. Até aos doze anos queria ser capitão de alto mar, claro que num veleiro tipo Sagres. Isso passou-me, mas não a resposta infalível e instintiva ao cheiro límpido de pinhal, areia e mar, com um sentimento de profunda alegria de viver. O episódio é este. Ao sairmos, pai, mãe, a minha irmã de ano e meio e eu, do Dois-Cavalos, num parque de estacionamento ao pé das dunas, detectei no chão arenoso uma pequena rã morta, já seca, espalmada por um pneu implacável, mas de forma exacta assim que tudo ainda se identificava perfeitamente: cabeça, corpo, pernas e patas, até os dedinhos minúsculos. Eu: Olha pai, uma rãzinha morta! Pai: Onde? - Pois é. Eu: Coitada da rãzinha! Pai: Pois é! E coitada da mãe! Imagina a ela: Está agora a espera da sua filha que está morta e nunca mais vem! Começam a chegar-me as lágrimas. Pai: E coitado do seu pai também, que também gosta muito dela, e toda a família. Decerto esperam e esperam e já procuram em todo o sítio e perguntam a toda a gente, mas não adianta nada, porque eles não sabem que a rãzinha está morta e nunca, nunca mais volta para casa! Eu desfaço me em soluços. Mãe: Ó Ernst, chega! Pára com este disparate! Vem cá Lützchen, não penses mais nisso! ... As coisas de que me lembro estes dias! Etiquetas: prosa 20.10.06
Há dias comprei um monitor. Encontrei-me cedo, às nove menos um quarto, no parque do Lidl Xabregas, porque a Margarida me tinha avisado: “Tens de lá estar antes que a loja abre, as promoções esgotam-se num instante!” A cortina de alumínio do largo portão deste armazém estava semi-subida, à sua frente esperavam um jovem segurança e já um grupo de 20-30 pessoas. Gente de vária ordem, mas toda da população activa, creio eu, pessoas com vestes de trabalho, de escritório e também uns de fato-macaco, que, para poder aproveitar a promoção, tinham resolvido chegar hoje um pouco atrasado ao emprego; ou talvez elas estavam aqui a mando do patrão. Ainda reparei num jovem casal, aparentemente estudantes, ela muito grávida. O grupo não constituia fila, pelo que comecei a memorizar as caras que se encontravam na sua periferia, critério que escolhi para identificar os meus mais prováveis antecessores na ordem da chegada. Felizmente tive mais logo a melhor ideia de memorizar em vez disto as pessoas que vieram depois de mim. A primeira destas era um homem baixo e compacto, vestido de fato e gravata, um representante típico desta estirpe de pequeno empresário português, que se distingue dos quadros médios de empresas maiores, semelhantemente fardados, pela sua porte dominante e vagamente desafiadora. Às nove menos cinco a cortina de alumínio subiu por completo, e a supervisora de serviço juntou-se ao segurança. Ainda não libertaram a entrada. Só quando às nove em ponto destrancavam as portas de vidro, o nosso grupo, entretanto crescido para cerca de sessenta pessoas, se pôs em movimento. “Atenção, a entrada é apenas pelo corredor previsto, à esquerda!”, repetia a funcionária. Apesar disso só metade passou por ali, a outra metade atalhou pelos corredores das caixas não ocupadas. Aqui deram-se os primeiros empurrões. Mais cinco metros em frente, à altura das cervejas, o passo acelerado já tinha cedido ao trote. Chegados ao meio da loja estavamos em plena corrida. Também eu estava a correr, porém travado pela mulher grávida a minha frente, cuja lentidão amaldiçoei mas que me sentia inibido de ultrapassar. Isso fez, com o olhar enérgico posto em frente, o homem de negócios a nós os dois. Os primeiros tinham entretanto alcançado o fundo da loja, onde julgavam os artigos da promoção. E ouviam-se os gritos ofendidos: “Os monitores! Onde estão os monitores?!” Afinal os monitores não estvam ali, mas escondidos debaixo das duas únicas caixas ocupadas, perto da entrada, no lado oposto do corredor para onde nos tinham encaminhado. Após uns segundos de hesitação confusa, invertia-se o sentido da corrida, que prosseguia então com redobrada ferocidade. Pois os concorrentes mais determinados encontravam-se agora em posição de desvantagem, atrás dos moles e fracos. Pouco antes de chegarmos a uma das duas caixas abertas, o homem de negócios tinha alcançado a mulher grávida, que se dirigia à caixa dois, e a mim, que me aproximava à caixa um. Aqui fez uma escolha, talvez, num momento de fraqueza, cedendo a um instinto nobre: Optou por mim como pessoa a ultrapassar. Aproveitando-me de todos os meus 1.93m de altura, estiquei os cotovelos e impedi-o de entrar antes de mim no corredor da caixa. Comprei o penúltimo monitor em stock, o último calhou à mulher grávida. 6.4.06
Numa selva remota dum país longínquo, rezam relatos, grassa uma doênça horrível. Um parasita apodera-se do organismo, e embora não o matando, condena-o a uma vida de suplício, cansativa e penosa, pois consome toda a sua energia e tira-lhe qualquer esperança de alcançar objectivos com que podia ter sonhado. O parasita tem a especificidade de que, uma vez bem instalado, assume funções vitais do organismo, de maneira que a sua remoção põe em perigo a sobrevivência do hóspede. A medicina do país já elaborou e ainda elabora inúmeros tratados sobre as melhores formas de eliminação do parasita, mas na prática os curandeiros, bem como os próprios doentes, vêem, não sem razão, como inimigos perigosos os que querem aplicá-las. Ao contrário, eles estão empenhados em proteger e alimentar o parasita, em nome do bom senso, confirmado por longa experiência. Afinal viver é preciso. 17.3.06
Na primeira lutei freneticamente contra o facto de que não tinha nada a dizer. Na segunda deparei-me com o problema de não conseguir dizer o que tenho a dizer. Desde então posso interessar-me sem vergonha pelos segredos do meu ofício. É muito mais honroso ser um falhado do que uma fraude. 14.3.06
Encontrei-o no gabinete de arquitectura em Berlim, em 1994, quando lá voltei por uns meses para ganhar o dinheiro que em Portugal não conseguia. Ele era um fugitivo da guerra de Bósnia, um rapaz muito magro com ca. de 25 anos, e trabalhava como operador de CAD, onde se distinguia pelo empenhamento e pela sua solicitude extrema. Muitas vezes, ele e eu, imigrantes temporários sem vida privada, permanecíamos no atelier a trabalhar até muito tarde. Aí, depois dalguma reserva inicial, começou a responder às minhas perguntas curiosas sobre o que lhe acontecera, num alemão espantosamente bom, aprendido em meio ano. Era de Mostar, filho dum homem de letras, professor universitário, personalidade respeitada na cidade, de quem falava com muito carinho e admiração. Tinha uma irmã que também vivia na Alemanha, mas não em Berlim e que devido ao seu estatuto de fugitivo de guerra não podia visitar. Não sei se era por delicadeza excessiva minha ou pela resistência consistente sua, mas ainda hoje não sei ao certo da sua condição étnica. Insistia em chamar-se Bósnio, e antes da guerra, percebia-se, todos da sua familia foram bons jugoslavos. Com o tempo no entanto entendi que o pai era da origem croata e que a sua mãe não. De qualquer maneira, na sua família, nem à condição étnica nem à religiosa se dava relevo. Até ao eclodir da guerra civil, ele estudara engenharia aeronáutica na sua cidade natal. Falava da sua vida antes com nostalgia, que se percebia ser dum rapaz da classe média educada, despreocupado, inteligente, com ambição profissional mas também com apreço pela boa vida. Um dia a milícia, nunca me disse qual, entrou na casa e levou-o. Durante três noites e dois dias espancavam-no numa cave na cidade. Conhecia pessoalmente alguns dos seus maltratores. Um era um antigo colega do liceu, que até tinha frequentado a casa dos seus pais, em tempos de miudo. A resposta porque este lhe agora fazia isto, que Jirco solicitou e o outro lhe deu, de que seria em vingança por uma namorada roubada, não lhe fazia qualquer sentido. Depois levaram-no para um campo de concentração, algures na floresta. Para além dos espancamentos, torturaram-no com choques eléctricos. E havia apelos em que tinham de apresentar-se em fila para serem seleccionados. Tinham de dizer o seu número: Um, dois, três, quatro... Depois escolheram ou os numeros pares ou os ímpares para levá-los para uma “viágem de negócios”. Os que foram, nunca mais voltaram. Jirco atribuia o facto de não ter perdido a sanidade mental à paisagem, que foi de rocha calcária, cujas pedras podia usar como giz. Com a ajuda do giz, chegou a recapitular toda a álgebra linear e a geometria analítica que aprendera. Deu-lhe conforto que as leis da matemática continuavam válidas. Por dois meses ficou no campo, até que o seu pai conseguiu identificar o seu paradeiro e comprar a sua liberdade, por 20.000 DM. Depois foi, primeiro na bagageira dum Mercedes, até a Croácia, e à seguir via Eslovénia e Austria para Berlim, onde lhe foi concedido, por enquanto, o estatuto de fugitivo de guerra. Aqui recebia também tratamento médico para remediar as consequências da tortura. Entre outro estava impotente. Dizia-me que por um lado tinha muitas saudades da sua cidade, que descreveu como maravilhosa, e da sua família, claro, mas por outro não conseguia imaginar-se capaz de voltar a viver lá, mesmo se fosse em segurança, e encontrar na rua, dia sim, dia sim, pessoas que fizeram estas atrocidades. E não lhe interessava em nome de quem e à quem, porque, como sempre fez questão de realçar, nesta guerra não havia bons. Pensei eu para mim, se ele é ainda capaz de dizer isto, depois de tudo, talvez não tem razão. 25.1.06
Não é dos prazeres menores aquele que me dá uma das minhas actividades bloguísticas que, embora consumindo mesmo muito tempo, não se vê, e que, ao contrário do que é o caso na escrita dos posts, pode estar muito desfasada do momento da sua manifestação no blogue. Falo da angariação e da educação das minhas playmates. Um trabalho que exige dedicação, atenção ao pormenor, critério e, antes de tudo, uma enorme capacidade de abnegação, de domínio sobre os próprios instintos. Ninguém mais do que a quem cabe a gerência dum bordel, necessita tanto do distanciamento, do controlo dos seus impúlsos mais básicos, sob pena de descuidar da qualidade. Não é por acaso que as Madames dos bordeis que se recomendam e as donas das agências de acompanhantes de qualidade são mulheres, e só a puta da rua tem o seu chulo. As meninas que acabo de levar a estrear-se no Quase em Português antes passam por um longo processo de selecção. Mais do que isso! Descobertas há pouco ou outras vezes já há muito, cumprem um estágio nas salas não públicas desta casa, enquanto são apreciadas, observadas as suas qualidades e descobertos os seus defeitos, são experimentadas nas diversas vertentes das suas aptidões, aperfeiçoadas se for o caso, enquanto aguardam que se verifique a ocasião adequada para a sua missão. Nem sempre isso é um processo linear. Há mulheres que acolhi entusiasticamente, cuja sensualidade ainda hoje me corta a respiração e perturba o meu sono, mas que, embora já sendo cá da casa há muito, nunca irão ter a sua oportunidade no salão público. E não é por uma questão de pudor ou de gosto. A questão é bem mais súbtil! (O qu é que confere classe a uma mulher? Sensualidade animalesca e refinamento, inocência ou experiência, fragilidade ou robustez, a insinuação da submissividade ou a ostentação do seu contrário, volúpia e castidade, saúde ou morbidez...quem conseguia catalogar a mistura dos seus encantos?) E há outras, acolhidas sem paixão, que eventualmente vieram em "pacote" com outra menina mais promissora, ou achados ocasionais nas minhas deambulações googleanas, que uma vez no ambiente propício, desabrocham e desenvolvem uma sensualidade e um estilo inesperado que faz brilhar o nosso estabelecimento. São essas meninas as minhas preferidas! Admito que mais do que os encantos sensuais, aos que naturalmento não estou nem posso estar insensível, apesar de toda a abnegação referida, o que mais me satisfaz neste meu trabalho é o sentimento do poder. Sou eu e mais ninguém quem as escolha e as manda submeter-se aos vossos olhares! Não estava nos meus planos desenvolver essa faceta de mim, mas apráz-me, sim, apráz. 30.11.05
Claro que o k-sssss é reles, nojento, convite clandestino e cobarde. Nunca k-ssssei nenhuma rapariga. Mas já mandei assobios e convites dum lado da rua para outro. Acabado de sair do liceu, trabalhei por uns meses nas obras. Era normal procurar um emprego para fazer algum dinheiro, - não para viver, pois ainda viviamos em casa dos pais, mas para a aparelhagem, umas férias, ou para a mota – e para ocupar os meses antes do começo do serviço militar ou civil, ou da faculdade. Trabalhar nas obras era o mais respeitado: aqui ganhava-se mais, mas também era o mais duro. Condizia com o que achei exigível ao meu estatuto entre os amigos, nestes tempos, tê-lo conseguido, e é verdade que ainda hoje não queria prescindir dessa experiência, embora ou porque durante as primeiras semanas chegava à casa literalmente de rastos, sem mais força do que para um banho e para cair na cama; e embora ou porque tinha de enfrentar os preconceitos e a suave hostilidade dos operários de vida inteira, que só estavam à espera de que o menino fino martelava o dedo, entornava o carrinho de mão ou fraquejava ao empilhar os tijolos. Mas depois de ter sido inúmeras vezes o moço de recados para os serviços mais baixos como limpezas ou buscar a cerveja; depois de ter sido vítima de gozos de velha tradição, como ser mandado buscar os “pesos da balança de água”; depois de ter arranjado coragem para mandar a merda um colega superior na hierarquia (estavam todos), e recusar outra exigência de serviço cujo único fim foi evidenciar o meu lugar hierárquico, ganhei o respeito deles e tomei mesmo gosto no que fazia. Também já não caia na cama no fim do trabalho, restava-me força entretanto para ir ao pub, beber copos e exibir a massa muscular recem-adquirida. Comparado com muitos outros trabalhos físicos, trabalhar nas obras é um privilégio, não só porque se faz uma coisa que se vê crescer, mas também porque não se trabalha num espaço fechado, mas literalmente na rua, no espaço público. Enquanto se continua na rotina de esforço, o mundo está lá a nossa volta, lembrança aliciante da vida bela e livre. É assim. Uma pessoa já passou a manhã inteira no andaime, suada e cheia de pó, quando de repente, lá no passeio do outro lado da rua caminha uma rapariga bem feita ou talvez nem tanto, em mini-saia, ou talvez não, já não o quero jurar. Ah que deleite! Um rasgo de sol ilumina o estaleiro por um momento maravilhoso, toda a gente pára, deixa cair o que tem na mão, e chovem os piropos, assobios e convites sobre a rapariga, que, como quem não ouviu nada, continua majestosamente o seu percurso, sem virar a cabeça. Quinze segundos depois, cada um está de volta a fazer o que fez, comentando o que teria feito com a rapariga, se não tivesse, merda, neste momento de trabalhar... 17.11.05
Nota autobiográfica X
Cá em Portugal, um colega mais velho e bom amigo pegou–me no braço, depois de ouvir-me referir o meu avô carteiro. Sem ofensa, disse ele, mas não é prudente falares das tuas origens assim, estás a prejudicar-te e a desperdiçar a vantagem de seres alemão.
Nota autobiográfica IX
Uma vez na minha vida fui empregado. Até funcionário público. Durante três anos fui monitor do Instituto de Urbanismo e Habitação da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Berlim. Para quarenta horas de trabalho por mês, ganhava 660 DM (que, em poder de compra, corresponderia a ca. de 660 Euros hoje). Teoricamente, tinha 22 dias de férias por ano, mas como todos os funcionários lectivos da faculdade, a começar pelo professor catedrático, se baldavam integralmente durante as férias lectivas, também eu podia fazê-lo. Então, nestes três anos, passava dois meses de verão e um de inverno em Portugal, onde tinha namorada, enquanto o meu ordenado continuava a entrar na minha conta corrente em Berlim. As viagens fazia de avião, com a Interflug de Berlim (oriental) para Praga, e com a CSA de Praga para Lisboa. Era o voo mais barato, primeiro na barulhenta Iljushin 62 e depois na belissima Tupolev 134, ambas mais que semi-vazias; e o bilhete incluia ainda uma estadia duma noite na capital checa, num hotel de luxo à antiga com criados fardados e toda a cerimónia. Tudo pago com o meu ordenado de funcionário público part-time. Quando o Senador do Ensino Superior de Berlim decidiu reduzir o ordenado dos monitores em 30%, fizemos greve, organizados com sindicato como deve ser. Sindicalizamo-nos todos na altura para este efeito. Fizemos a greve e ganhamos mais do que uma meia vitória, pois a redução ficou-se pelos 5%. Desde o início, para nenhum de nós, este corte teria tido algum efeito, pois os nossos contratos estavam a salvo de condições retroactivas. Mas não fizemos a greve por isso. Era uma questão de solidariedade e de princípio. Lembro-me ainda da boca do nosso chefe de campanha, um dirigente do sindicato que não era nem estudante nem arquitecto, e que hoje é presidente do sindicato dos funcionários públicos de Berlim, que me ofendeu: "Amanhã, de qualquer maneira, vocês estarão do outro lado..." Quando, uns anos mais tarde, tive o meu primeiro emprego num gabinete de arquitectura, o meu patrão pôs me a escolher: podia receber o meu honorário completo contra recibo verde, ou podia empregar-me, com um ordenado que lhe criava exactamente os mesmos encargos. Explicou-me o câlculo como se pode comparar um ordenado com um honorário, e fiquei pasmado, pois antes sempre tive a ideia vaga que existia qualquer semelhança entre um ordenado de quatrocentos contos e um honorário de quatrocentos contos: Não existe nenhuma. Sem hesitação escolhi o recibo verde. 16.11.05
Nota autobiográfica VIII
Havia tempos em que não havia dinheiro. Em que o meu pai passava noites sem dormir, a fazer contas e cenários de que fazer se não podia pagar o emprestimo da casa, se não conseguia pagar as contribuições da reforma, o seguro de vida. Nestas fases, sentíamos todos muito a sua angústia. Curiosamente, nós os filhos, só sentiamo-na como a sua, embora as consequências diziam-nos tanto respeito como a ele. Felizmente, chegou a reformar-se antes de a revolução informática o teria levado a falência...
Nota autobiográfica VII
Uma vez perguntei ao meu pai porque não empregava pessoas, como tinha mais trabalho do que podia dar conta... Respondeu que o seu trabalho era tão específico, que havia tão poucas pessoas capaz de desenhar como ele, que muito dificilmente encontrava uma. E se porventura encontraria alguém que era tão bom como ele, não podia empregá-lo mas teria de aceitá-lo como sócio, pois não tinha feitio para explorar pessoas... Acredito que a resposta foi honesta. Mas também era verdade que ele gostava tanto de fazer o que fazia, que não ia trocá-lo pelo trabalho comercial e de gestão, só para ganhar mais dinheiro. 15.11.05
Nota autobiográfica VI
Quando tinha nove anos, mudámo-nos para uma pequena vila perto da fronteira holandesa. Um colega tinha desafiado o meu pai a associar-se a ele e trabalhar por conta própria. A experiência correu mal, mas depois da separação dos sócios o negócio do meu pai começou a florescer. Mudámos do apartamento no bairro dos prefabricados para uma moradia, onde o meu pai instalou o seu atelier no sótão. Desde então ganhava a vida da família, estando em casa a desenhar rotulos para garrafas de vinho e frascos de marmelada. Dum dia para outro, deixei de ter problemas com os vizinhos. Já ninguém me batia ou cuspia. Pertencia à classe média, como eles. Os meus amigos e namoradas eram filhos e filhas de médicos, advogados, pequenos empresários, funcionários públicos, professores. Tocava violino e fazia vela (embora o barco não era meu, mas do meu melhor amigo). A minha mãe, que antes da mudança se indignara porque a engomadoria exigia o pagamento adiantado por nós termos uma morada de gente pobre, rapidamente passou a ser uma pessoa respeitada na vila: fazia trabalho social gerindo o dia a dia das três ou quatro famílias desfavorecidas que havia na comunidade; foi convidada como candidata da lista independente para a câmara e, depois de ter frequentado um curso de cerâmica na "Volkshochschule", o que significa "academia do povo" mas é uma espécie de ATL de donas de casa desocupadas, lançou-se numa terceira carreira de ceramista. E fi-lo a sério: Com o tempo acabou por ser uma ceramista muito boa, que vendia e expunha o trabalho próprio, e dava no seu atelier aulas de cerâmica para os alunos do jardim infantil e da escola primária, que tinham muito sucesso. O meu pai, por sua vez, não tinha jeito para uma vida social; felizmente o seu negócio não dependia disso. Nunca integrara qualquer clube ou associação, muito menos por razões interesseiras. Nem sequer convidaria alguém com o objectivo de promover a sua carreira ou o seu negócio. Preferia ficar em casa e desenhar mais rótulos; e a sua vida teria sido bastante solitário, se não tivesse tido como frequentes interlocutores e audiências dos seus discursos filosóficos os amigos dos seus filhos adolescentes. Pois ao compensar pela falta de formação acadêmica, chegou a ser um homem muito lido, e estava sempre disponível e grato por oportunidades de poder discutir e transmitir o seu saber. Para ele como para a minha mãe, o dinheiro servia antes de mais como oportunidade de manter uma casa aberta, de preferência cheia de gente, amigos seus mas mais ainda os amigos dos seus filhos, a quem estavam feliz de poder oferecer o que lhes tinha faltado na sua infância. Não se preocupavam muito com o aumentar do património, e sempre nós disseram, que deviam aos filhos nenhuma herança, só uma infância feliz e uma educação decente. 14.11.05
Nota autobiográfica V
Na escola primária os professores distinguiam entre alunos em que se batia, quando fizeram asneira, e outros em que não se podia bater. Sem qualquer hesitação incluiam-me naqueles que estavam a salvo dos castigos corporais.
Nota autobiográfica IV
Os primeiros nove anos da minha vida vivemos num bairro operário de Wuppertal: o meu pai, que arranjara emprego numa fábrica téxtil onde desenhava os rótulos interiores de vestuário, a minha mãe que, depois do meu nascimento, se cingiu ao papel de doméstica e os meus dois irmãos que aqui nasceram. Embora o meu pai ganhava exactamente o mesmo como os seus vizinhos, eu nunca fui aceite pelos rapazes da vizinhança, com quem brincava na rua desde pequenino, como um deles. O meu vocabulário, também a minha roupa, costurada pela minha mãe com gosto diferente, traía-me como menino fino, e inúmeras tareias lembravam-me diáriamente da minha condição de outsider. Há uma história (há outras) que ilustra bem esta condição: Ao lado do nosso bairro havia uma colina, que era o local de eleição onde lançavamos os nossos papagaios. Na altura os papagaios que se compravam eram construções bastante pesadas, de pano e com estrutura de madeira. Mas o meu pai construiu um que era de papel de lustre com estrutura de bambú, e que tinha em vez dos 100 metros de corda de linho, 600 metros de linha de pesca. Voava tão alto que o ponto minúsculo no céu quase se perdia de vista. Uma vez quando voltavamos, com os papagaios nas costas, duma tarde de lançamentos - eu pela primeira vez sem ser acompanhado pelo meu pai - ia eu a frente, absorvido na memória empolgante da boa performance do meu papagaio. Primeiro não reparei neles, e depois não prestei, durante muito tempo, atenção aos risos e barulhos esquisitos dos meus amigos atrás de mim. Só a porta da casa dei pelo que tinha acontecido: Nas costas do meu anorak desciam lesmas de ranho, e da estrutura do meu papagaio pendia o papel de lustre em tiras amolecidas por viscosas lagrimas de cuspo. 13.11.05
Nota autobiográfica III
O meu pai, que tinha aprendido a profissão de gráfico, e a minha mãe conheceram-se no comboio que partilhavam no seu caminho para o emprego, no caso do meu pai, e para a escola para educadoras infantís, no caso da minha mãe, que tinha conseguido impôr a família essa segunda formação, desde que ela ficou, nos anos cinquenta, um pouco mais remediada. Descobriam que partilhavam interesses que extravazavam o mundo que lhes calhou por nascença: pela poesia, pela arte, pela história e filosofia, - e começavam a namorar. Descobriam também que, embora os unia a sua condição social, os afastava um obstáculo quase inultrapassável. A minha mãe era evangélica e o meu pai católico, e para ambas as famílias a ideia dum casamento interconfissional era algo absolutamente inimaginável. O seu namoro demorou cinco anos, até o meu nascimento iminente obrigou as famílias a escolher a vergonha menor. Não tenho à mão as fotografias do casamento, se não mostrava-as aqui: nenhuns sorrisos, as caras de quase todos, avôs, tios e tias, máscaras da censura moral. Com custo a minha mãe conseguiu impôr que casava em branco, apesar de já não ser vírgem. 12.11.05
Nota autobiográfica II
O meu avô materno era carteiro dos correios. Mas também era um membro muito empenhado e respeitado da comunidade evangêlica da sua terra, o que fez com que ele, que também por razões profissionais e pela sua personalidade comunicador fez muitos amigos, alcançou um estatuto social muito acima da sua condição profissional e económica. Tinha seis filhos e o dinheiro também foi sempre escasso. Quando o seu único rapaz, o sexto filho depois de cinco raparigas, alcançou a idade para frequentar o liceu, o meu avô tirou a minha mãe do liceu e relegou-a ao ensino geral. Só havia dinheiro para um filho estudar e fazer possivelmente um curso superior, e não ocorria a ninguém que podia ser outro do que o herdeiro. O meu tio é hoje médico, professor doutorado e director dum grande laboratório público. A minha mãe aprendeu a profissão de costureira.
Nota autobiográfica I
O meu avô paterno era mestre carpinteiro, que tinha uma oficina própria de que ainda me lembro: das ocasiões em que ele – já semi-reformado - me levou consigo, para fabricarmos barcos e carrinhos de brincar. Lembro-me do barracão de tábuas grossas, das ferramentas antiquadas, da luz filtrada pelo pó de serradura e do fumo do seu inevitável cachimbo, cujo cheiro a tabaco barato nunca esquecerei. A minha avó, que na juventude estava "em serviço" como empregada domêstica interna, e tinha conseguido casar com um mestre artesão, nunca-lhe perdoou que a ascensão social, que ela ansiava e que achava devida ao estatuto profissional do seu marido, nunca se concretizou: A falta de espírito empresarial do meu avô fez com que o homem com a fama de fazer as melhores escadas da cidade nunca ganhava dinheiro que chegava, que a insegurança do dia de amanhã nunca se ultrapassou e que nos tempos mais difíceis, depois da guerra, a família com cinco filhos passava fome. Com catorze anos, no fim do nono ano e acabada a escolaridade obrigatória, tiraram o meu pai da escola, para contribuir com trabalho para o orçamento familiar. E a uma comissão de professores do liceu do meu pai, que veio a casa para oferecer uma bolsa para que o melhor aluno da turma possa continuar a estudar, a minha avó respondeu que não aceitava esmolas, e que tinha educado os seus filhos não para ser líderes, mas bons subordinados. 14.4.05
No Metro meio vazio, Domingo ao meio-dia. - Senta-te ali! A menina negra, com talvez nove anos, senta-se à minha frente. A sua mãe, com as compras, fica no outro lado do corredor. É uma criança muito bonita, num vestido de bombazina preta, camisola de gola alta e colãs azul céu. As suas tranças compridas são dobradas para formarem laços. Podia contemplar os olhos grandes e a boca de beijo com prazer descontraido, se não fossem os lábios maquilhados. Com bom gosto, diga-se, com muito bom gosto: num castanho alaranjado que identifico só à segunda vista como não natural, e que cria um contraste discreto, mas irresistível, com a sua tez escura. Por causa dos lábios pintados desvio a vista, mas volto a olhar de novo, furtivamente, num impulso, que, devido ao baton, já não é inocente. 18.3.05
Em Samos, no porto da ilha grega do mesmo nome, dirigi-me ao companheiro de viagem e comentei (em alemão) um prédio - já não me lembro o quê: - Já viste como é "komisch" (="curioso, cómico")? Não tinha reparado no homem a minha frente. O homenzinho já idoso, vestido, apesar do calor, com rigor, com fato e casaco, que no entanto já tinha visto melhores dias, virou-se e repreendeu-me, irado, num alemão perfeito: - "Komisch", pois! Você está aqui em calções e chinelos para divertir-se e achar "komisch" o meu país. Porém, tudo o que vocês são e têm, são e têm graças aos meus antepassados, que criaram estas obras magníficas quando os seus ainda só vestiam peles e nem em cabanas dormiam. Graças aos meus você sabe ler e escrever e fazer contas e tudo o resto, o que lhe permite vir cá, sentar-se na esplanada, vestido como nem em casa me atrevia estar, e achar "komisch" o meu país, enquanto os meus filhos lhe servem à mesa. |
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