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19.4.07
![]() Os rapazes da fotografia no post Porajmos estão mortos, há muito tempo. Sufocados e envenenados nas câmaras de gás de Belzec. As crianças na imagem em cima ainda não. Para que estas e outras, que, ao contrário de 300.000 crianças, mulheres e homens já mortos no genocídio em curso, em Darfur, sejam salvos, podemos fazer algo. Devemos. A resposta à questão "What can I do" encontra-se aqui. (Obrigado pelo lembrete no Kontratempos!) Etiquetas: cidadania 19.3.07
Deu-me gozo o espectáculo do Conselho nacional do CDS/PP? – Sim. Sim, deu-me imenso gozo ver aquilo e contrastá-lo com o discurso de dignidade, valores, elevação, ao que nos habituaram os dirigentes deste partido e ninguém mais do que o próprio Paulo Portas. Mas esse é um prazer pecaminoso. Porque se esta demonstração do vale-tudo é representativa pelo que é política em Portugal, e receio que é, ou quase, então temos todos motivo para andarmos deprimidos. Eu pelo menos ando, e por uma razão muito digna para um conservador que não sou: Falta aqui algo que, atrás e por baixo de toda a dureza exigível, manha necessária e ambição legítima, é imprescindível: Nem digo princípios, antes algo que chamamos Haltung: Porte. A não confundir com a palavra “postura”, que sempre soa um pouco a “postiço”, a pretensão, o que Haltung não é. Tem mais a ver com dignidade, e antes de tudo, com substância. Etiquetas: cidadania 18.3.07
![]() ![]() ![]() Até hoje não sabia da existência de Irene Sendler. Agora sei, devido a um artigo do Spiegel. Irene Sendler era enfermeira quando os Nazis ocuparam Varsóvia e iniciaram a perseguição sistemática dos judeus. Começou a sua actividade de resistência ao falsificar documentos para possibilitar a judeus necessitados de continuar de beneficiar da segurança social. Em 1940, após o internamento dos judeus no gueto de Varsóvia, isso deixou de ser possível. Sendler e as suas colegas conseguiram então arranjar documentos que as autorizavam visitar o gueto regularmente, como técnicas de saúde, devido ao medo que os nazis tinham de epidemias, para quais as condições no gueto eram obviamente propícias. Quando em 1942 começaram as deportações para os campos de extermínio, Sendler criou um plano para salvar as crianças do gueto. Para que elas, depois da guerra, constituissem o núcleo duma nova vida judia, e assim contrariar o objectivo dos Nazis da aniquilação de tudo que era judeu. Contactou com a Zegota, uma organização de resistência que unia judeus e não judeus, e o director desta organização convidou Irene Sendler de criar e dirigir então o “departamento Crianças”. No gueto, iam de família em família e disseram-lhes que tinham a possibilidade de levar as crianças, clandestinamente, para fora. Muitos pais e mães não conseguiram separar-se dos seus filhos, e frequentemente, quando as enfermeiras voltaram no dia seguinte, para persistir na tentativa de convecê-los, já não encontraram ninguém. No total foram assim salvas cerca de 2500 crianças. Saíram escondidas debaixo da maca da ambulância, através do edifício do tribunal, que tinha uma entrada para a porta do gueto e outra para o lado “ariano”, ou pela canalização. Algumas foram anestesiadas com soporíferos e levado em sacos ou malas. As crianças foram primeiros levadas para “centros de segurança” clandestinos, onde lhes ensinaram de comportar-se como crianças polacas não judeus, depois foram distribuídas, com nova identidade, para famílias, orfanatos e conventos. Os nomes das crianças Irene Sendler guardou, em código, em papel de cigarro, que enterrou em garrafas no quintal. Assim queria assegurar a possibilidade da posterior restituição às suas famílias originais, que, como se sabe, todavia quase nunca sobreviveram. No 20 de Outubro 1943 a SS prendeu Irene Sendler na sequênçia duma denúncia. Desmontaram a sua casa até às fundações, mas não encontraram as listas. E Irene Sendler não cedeu os nomes nem na tortura, quando lhe esmagaram os pés e lhe partiram ambas as pernas. Foi condenada a morte, mas pouco antes do fuzilamento, a Zedoka conseguiu subornar um guarda da SS que a espancou e atirou para fora do camião que a ia levar para a execução. Conseguiu manter-se na clandestinidade até ao fim da guerra. Em 1965 foi homenageada por Israel, em Yad Vashem, como uma “justa entre os povos”. Mas na Polónia, nos cinquenta anos que se seguiram à ocupação nazi, ninguém lhe ligava muito. Era uma resistente, mas não era comunista. Só nos anos noventa começou a ser reconhecida no seu país e objecto de merecidas homenagens. Mas ela não se sente heroína. Diz que ainda hoje sofre com a sua consciência: porque não fez mais e melhor do que fez. Não foi eu que foi salvo por ela, mas mesmo assim, mais do que admiração lhe tenho ainda gratidão: São pessoas como Irene Sendler que são, como alguém disse, a beleza do nosso mundo. (Mais sobre Irene Sendler aqui, em inglês.) Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral 8.3.07
Uma vez voltei ontem à sala, levado pela curiosidade se e como referiram o Carlos Cruz na gala da RTP. Soube que referiram-no, que até lhe gravaram uma mensagem a partir da sua casa. A Maria João Lima indigna-se que o fizeram. Eu acho muitissimo bem. Que venha a ser condenado ou não, o Carlos Cruz é parte da história da RTP, que é como quem diz da memória colectiva dos Portugueses. Branquear esta dele é como retocar fotografias históricas fazendo desaparecer personagens que cairam em desgraca. Um procedimento habitual em regimes de que guardamos muito infeliz memória. E não interessa aqui se cairam em desgraça merecidamente ou não. Mais do que com o respeito pelo Carlos Cruz, que também conta, mesmo se venha a ser condenado, porque uma coisa são os seus possíveis crimes, outra os seus méritos na comunicação social portuguesa, isto tem a ver com o respeito pela verdade. Que devemos a nós. Etiquetas: cidadania 14.2.07
Um blogue ao que até então injustamente não tenho prestado a devida atenção. Um membro daquela irmandade pequena e discreta que zela pela honestidade intelectual, através do único meio disponível: o seu exercício. Como exemplo, deixo aqui uma longa citação: «Quando falamos para um universo indiscriminado de destinatários, há sempre o risco de sermos mal recebidos e entendidos pelo último dos boçais. É um dos riscos do proselitismo, nunca sabemos se verdadeiramente conseguimos uma partilha de valores através da simples partilha de palavras, porque elas podem ter sentidos muito diversos para muito diversas pessoas – para pessoas com bases culturais muito variadas. É por isso que sou profundamente avesso a partidos, doutrinas e camaradagens ideológicas – temos que fingir que aturamos gente que não interessa para nada e que imaginamos que não nos entendeu, tudo para a contarmos entre «os nossos». Daí também a restrição necessária das «comunidades de discurso», a perspectiva levemente elitista e etnocêntrica que têm sido adoptada pelas últimas evoluções do modernismo e do pós-modernismo – significando-se que não vale a pena pensarmos que é possível um diálogo útil e frutífero para lá de um círculo de educação (e por vezes de alfabetização). Se usamos de humor, levam-nos à letra; se usamos argumentos a contrario, concluem o contrário do que queríamos provar; e se recorremos à reductio ad absurdum, julgam-nos capazes das convicções mais absurdas e repugnantes, aquelas mesmas que queríamos repudiar. E então em termos de ironia nem vale a pena falar: basta pensar na infindável procissão de «inteligentes» que ainda hoje tentam ferrar nas canelas de Voltaire, incapazes de captarem o «registo» da ironia... Nada a fazer, é excluí-los do discurso, por muito que isso magoe as suas vaidades e as suas solidíssimas convicções de semi-alfabetizados. +++ Isto a propósito de um intruso qualquer que se esconde por detrás de um apelido simpático (se é o dele, devo confessar que conheci o ramo honrado da família em Lanhelas, a caminho de um passeio na Serra de Arga) e que exprimiu a sua frívola convicção de que Peter Singer é um abortista e infanticida. Belo sintoma de ignorância e estupidez: qualquer pessoa que tenha lido qualquer coisa de Peter Singer sabe que ele usa os argumentos do aborto e do infanticídio como «argumentos moralmente repugnantes» para nos alertar para a grave incongruência da nossa moral selectiva, que se indigna (justamente) com umas coisas ao mesmo tempo que aceita (injustamente) outras, como por exemplo o sofrimento gratuito infligido aos não-humanos. Exactamente o contário da apologia do aborto e do infanticídio, talvez mesmo o argumento mais poderoso contra estas aberrações morais. +++ A imbecilidade e a superficialidade não têm limites. Não há diálogo possível.» Aditamento: Ao aperceber-me, entretanto, da pessoa eminentemente culta que é o autor deste blogue, quero acrescentar que considero uma genuina honra poder contá-lo entre os meus leitores. Etiquetas: cidadania 23.1.07
«Existem imensos desafios intelectuais na questão do aborto e há quem se deleite, legitimimamente, a explorá-los. Sendo a blogosfera particularmente propícia a lutas intelectuais, onde o puro combate pessoal está sempre a um passo - e dado que este geralmente prejudica o lado do Sim - importa não perder o Norte: deixar o acessório; ignorar o que deve ser ignorado; resistir a provocações; não responder a tudo aquilo com que não se concorda; procurar, enfim, ser eficaz, utilizando o tempo e a palavra falada e escrita de forma útil.» O Tiago terá razão, e lendo-o, descubro o que já sabia: Não sirvo para a política do dia ("Tagespolitik"). Mas bizantinices jurídicos e o também legítimo prazer no combate pessoal a parte, não deixa de haver necessidade política de discutir o aborto, e não só a proposta do referendo. Mesmo se não seja então em benefício desta. Não deixa de impressionar-me como, no meio de tanto opinar, o debate público do aborto enquanto comportamento ético é marcado por um grave défice de presença de argumentos da sua defesa; por razões a que posturas tácticas como a do Tiago não são alheias. Talvez este défice salda-se, como o Tiago diz, no activo nas contas do referendo, mas não, acho eu, na disputa ética e civilizacional. Ao fugir do debate dos valores cede-se, já-se cedeu terreno a curto prazo irrecuperável ao irracionalismo, à tradição-porque-sim e à dupla moral. De facto, estes já ganharam. Talvez por necessidade, se o último objectivo for a vitória do Sim no referendo, mas sem razão. Etiquetas: cidadania 17.1.07
O pai biológico reclama filha aos pais adoptivos. Procuro não me entregar a emoções fáceis e juízos precipitados e mal informados, quando leio histórias como esta nos jornais. Mas não me coíbo de perguntar, incrédulo: Em Portugal, o interesse da criança não prevalece a todos os outros, e a critérios de sangue? Etiquetas: cidadania 11.1.07
O artigo do agnóstico Pacheco Pereira no Público de hoje (sem link, mas seguramente em breve no Abrupto) é mais do que um elogio ao Papa Ratzinger, é uma apologia empenhada da Igreja Católica centralista e autoritária. JPP não partilha as convicções religiosas de Bento XVI, não concorda com todas as ideias políticas e sociais concretas do Papa, mas para ele isto não é o essencial. Essencial é que a Igreja Católica é poderosa, e concentra nas mãos duma elite, em última instância, nas mãos duma só pessoa, o controlo ou pelo menos influencia sobre as mentes de tantas pessoas. Conteúdo? – Circunstancial. Essencial é o poder! É de elogiar a clara e aberta explicação porque pessoas não crentes frequentemente são aliados e defensores da Igreja Católica. Une-as a desconfiança do raciocínio sem rédeas, a inimizade ao pensamento independente. Mas JPP falha em clareza, para não dizer em mais, no elogio do centralismo católico. A este, alegado garante contra a “decadência do Ocidente” e da evolução social “sólida” e “prudente”, opõe... os evangélicos? – Não, o Islão. A manifesta incapacidade deste de evolução, de interpretação contemporizadora das suas escrituras atribui ao facto de este não ter um magisterium unificadora comparável à Igreja Católica. Que os xiitas o têm, diz, mas não retira disto nenhuma conclusão inconveniente. Também não da existência de civilizações que, sem magisterium da ICAR, como dos EUA ou da norte da Europa, lhe merecem algum valor. Aqui, curiosamente, também as múltiplas igrejas particulares são contribuintes para o debate “moral” na nossa sociedade, factores da estabilização. José Pacheco Pereira, que declara a sua preferência da Igreja do Papa Bento XVI às igrejas das bases, como a de Küng, ou da Teologia da Libertação, faz questão de afastar dela o adjectivo de “reaccionário”. Mas dificilmente se encontra para o que lhe agrada na Igreja Católica, termo mais adequado. “Reacção” chama-se o movimento do poder contra a liberdade do pensamento, contra o lema iluminísta “sapere aude!”. E é disso de que fala. Etiquetas: cidadania 28.11.06
Boas notícias para as economias emergentes, onde o zelo pelo interesse próprio, o espírito de luta, a aplicação da manha e um egoísmo saudável são fomentados, para que se forme o novo cidadão combativo, vencedor na luta global e liberal. Na Alemanha ensinam, pelo contrário, às gerações vindouras que estas virtudes, no fim, não terão recompensa. É certo que afectado por tamanha decadência moral, este país está, apesar da sua economia hoje ainda bastante potente, condenado a um futuro de pobreza e insignificância. Etiquetas: cidadania 20.10.06
Há dias comprei um monitor. Encontrei-me cedo, às nove menos um quarto, no parque do Lidl Xabregas, porque a Margarida me tinha avisado: “Tens de lá estar antes que a loja abre, as promoções esgotam-se num instante!” A cortina de alumínio do largo portão deste armazém estava semi-subida, à sua frente esperavam um jovem segurança e já um grupo de 20-30 pessoas. Gente de vária ordem, mas toda da população activa, creio eu, pessoas com vestes de trabalho, de escritório e também uns de fato-macaco, que, para poder aproveitar a promoção, tinham resolvido chegar hoje um pouco atrasado ao emprego; ou talvez elas estavam aqui a mando do patrão. Ainda reparei num jovem casal, aparentemente estudantes, ela muito grávida. O grupo não constituia fila, pelo que comecei a memorizar as caras que se encontravam na sua periferia, critério que escolhi para identificar os meus mais prováveis antecessores na ordem da chegada. Felizmente tive mais logo a melhor ideia de memorizar em vez disto as pessoas que vieram depois de mim. A primeira destas era um homem baixo e compacto, vestido de fato e gravata, um representante típico desta estirpe de pequeno empresário português, que se distingue dos quadros médios de empresas maiores, semelhantemente fardados, pela sua porte dominante e vagamente desafiadora. Às nove menos cinco a cortina de alumínio subiu por completo, e a supervisora de serviço juntou-se ao segurança. Ainda não libertaram a entrada. Só quando às nove em ponto destrancavam as portas de vidro, o nosso grupo, entretanto crescido para cerca de sessenta pessoas, se pôs em movimento. “Atenção, a entrada é apenas pelo corredor previsto, à esquerda!”, repetia a funcionária. Apesar disso só metade passou por ali, a outra metade atalhou pelos corredores das caixas não ocupadas. Aqui deram-se os primeiros empurrões. Mais cinco metros em frente, à altura das cervejas, o passo acelerado já tinha cedido ao trote. Chegados ao meio da loja estavamos em plena corrida. Também eu estava a correr, porém travado pela mulher grávida a minha frente, cuja lentidão amaldiçoei mas que me sentia inibido de ultrapassar. Isso fez, com o olhar enérgico posto em frente, o homem de negócios a nós os dois. Os primeiros tinham entretanto alcançado o fundo da loja, onde julgavam os artigos da promoção. E ouviam-se os gritos ofendidos: “Os monitores! Onde estão os monitores?!” Afinal os monitores não estvam ali, mas escondidos debaixo das duas únicas caixas ocupadas, perto da entrada, no lado oposto do corredor para onde nos tinham encaminhado. Após uns segundos de hesitação confusa, invertia-se o sentido da corrida, que prosseguia então com redobrada ferocidade. Pois os concorrentes mais determinados encontravam-se agora em posição de desvantagem, atrás dos moles e fracos. Pouco antes de chegarmos a uma das duas caixas abertas, o homem de negócios tinha alcançado a mulher grávida, que se dirigia à caixa dois, e a mim, que me aproximava à caixa um. Aqui fez uma escolha, talvez, num momento de fraqueza, cedendo a um instinto nobre: Optou por mim como pessoa a ultrapassar. Aproveitando-me de todos os meus 1.93m de altura, estiquei os cotovelos e impedi-o de entrar antes de mim no corredor da caixa. Comprei o penúltimo monitor em stock, o último calhou à mulher grávida. 20.4.06
O Afonso Bivar tem razão. Não se deve discutír a questão do racismo como se tudo fosse da ordem das conotações que as palavras do racismo podem revestir. Concordo que não é possível usar uma linguagem sem reconhecer e reforçar, à partida, a ideologia que a moldou, através da inevitável submissão implícita à sua organização categórica. Ao abrir a boca, e todos começamos neste ponto, estamos a discursar numa linguagem ideolocicamente enformada, tal com o nosso pensamento. Ficamos mudos então, até vir a linguagem pura? Poderiamos esperar sentados, mas felizmente não é preciso. Não teria havido desenvolvimento civilizacional, se esse condicionamento fosse absoluto. A história das ideias, nomeadamente o iluminismo, provam que foi possível desenvolver um pensamento divergente, crítico e alternativo ao dominante que saiu dele mesmo que se julgou único e verdadeiro. Não empreendo nenhuma refutação da crítica que o Afonso Bivar fez, justa na medida em que ela responde mais a uma inabilidade minha de me exprimir do que numa divergência das ideias. Pois se ele se mostra incomodado com a utilização desinibida do vocabulário de genese racista, não advoga por isso a proibição do seu uso. Só recomenda cuidado. Só. Aqui estou de acordo, ma non troppo. Ter cuidado pode significar manter-se longe dos territórios perigosos, ou movimentar-se neles, com redobrada atenção. A tese central do meu post foi que temos excesso do cuidado do primeiro tipo, e falta do segundo. Já me virei repetidamente contra a moda de denunciar tudo e todos como “politicamente correcto”, como uma forma preguiçosa de denegrir posições adversárias sem se dar ao trabalho de desenvolver argumentos. Nestes casos, o “politicamente correcto” e a sua denúncia enfermam do mesmo mal, da limitação à luta pelo campo da linguagem, pela ocupação do discurso com os próprios conceitos. Não nego a legitimidade desta luta, e muito menos a sua utilidade no combate ideológico, mas o que me faz espécie em ambos os lados é a sua infertilidade, pois se contenta com a imposição da própria interpretação da realidade no lugar da do adversário. Falta-lhe vontade de entendimento, e isto não no sentido dum desejo beato de harmonia, mas no sentido de falta de respeito pela realidade. A luta pela imposição da ordem categórica da própria ideologia é uma péssima postura para quem quer aprender algo, é a desistência de aproveitar a dissência com o adversário como oportunidade tanto de compreender como de convencer. O “politicamente correcto” (PC), na medida em que ele incide sobre a linguagem como seu campo de acção principal, passa essencialmente pela proscrição e substituição de certo vocabulário, apostando, nem sempre mas muitas vezes com sucesso, em que se ultrapasse o mero eufemismo e que a nova palavra acabe por modificar também o próprio conceito. Todavia, o efeito mais imediato e elementar, e por vezes único, é a identificação social e política de quem use o vocabulário alternativo, que o marca como pertencente ao grupo dos “correctos”. Quem diz homossexual em vez de paneleiro mostra ao mundo que não é homofóbico. É verdade que isto faz parte da natureza do combate político, o combatente político não conta nem espera que todos que pretende levar para o seu lado acompanhem e digerem o seu raciocínio, basta-lhe para já ou para sempre, que eles se limitem, uma vez persuadidos de uma forma ou outra, a reproduzir as suas conclusões. Obviamente, a mim isto não me satisfaz. A adopção acéfala da linguagem PC, que tanto irrita os seus críticos, é porém não mais estúpida nem mais frequente do que a igualmente acéfala reprodução da ideologia dominante. Só, como esta última, ao contrário do que os críticos do PC nos querem fazer crer, ainda é o padrão omnipresente, dá muito menos nas vistas. Em concreto, é justo perguntar o que distingue, para além da avaliação por connotação, o paneleiro do homossexual. Embora que não nego, como disse, a força da organização categorial da linguagem, o seu efeito nocivo é mais difícil de demonstrar do que encontrar exemplos do falhanço de tentativas de combaté-lo através da eliminação de conceitos considerados politicamente incorrectas. Há tempos, no defunto Acidental (já não linkável), Henrique Raposo defendeu que não existia tal coisa de homossexual. Só existiam comportamentos homossexuais. A ideia parece clara, à primeira vista. Queria eliminar-se a catogoria e julgava-se assim eliminar também a discriminação dos que encaixam nela. À segunda vista, o disparate não é dificil demonstrar, no caso dos “homossexuais”, como dos “judeus”, dos “negros” etc. Posso discutir a bondade e utilidade do uso de eufemismos, na lógica “da ordem das conotações que as palavras do racismo podem revestir”, mas não está no meu poder eliminar os conceitos, sob pena de perda de realidade. Este reconhecimento não é idêntico com o reconhecimento da inocuidade destes conceitos. Podia, a titulo de hipotese (que não defendo, mas isto não interesse para o exemplo) estar, em teoria, a favor da extinção da categoria “homossexual”. Mas omitia então o facto de que este conceito continua a existir nas mentes dos outros, que não partilham a minha visão, como nas mentes dos próprios visados, que têm toda a legitimidade de o escolher como elemento identitário. Tenho a maior reserva perante tentativas de construir uma linguagem alternativa “correcta”. Em vez disto sou pela desmontagem e pela subversão da linguagem dominante. A própria ideia do “correcto” já enferma do germe dum positivismo ingénuo e perigoso. No fundo, o que quis fazer no post criticado, era exactamente o contrário do que “discutír a questão do racismo como se tudo fosse da ordem das conotações que as palavras do racismo podem revestir”. Defendi num exemplo concreto, um post do Dragão, de abstrair das conotações das palavras usadas e dar uma oportunidade ao texto de ser lido pela sua argumentação. Não significa isto excluir um juizo de valor sobre o texto que também tem em conta as conotações das palavras usadas, mas suspendê-lo. Também não significa ignorar o poder estrutural da linguagem ideológicamente marcada. Significa suspender processos de intenção e ter disponibilidade para interessar-se por um texto, para o que se pode ler nele, para além das contaminações ideológicas eventualmente identificadas. Se a argumentação em si não for absurda, ela tem direito à consideração e resposta, independente das intenções do autor que lhe possa suspeitar, por causa da sua linguagem. P.S.: Nunca é de mais ressalvar-se de malentendidos: Não digo que a linguagem é inócua, e que não faça parte da menságem. Faz e muito marcadamente. Os efeitos, no caso concreto, bem tristes, notavam se especialmente no tipo de aplauso que os posts do Dragoscópio receberam. Não sei por que razão o Dragão fechou as suas caixas de comentário. Esta poderia ter sido uma boa. 15.4.06
Caro Nuno, fico grato pelo teu post sobre o debate do teu apelo. E fico grato e feliz com a tua apelidação de mim como amigo, apesar das posições divergentes que temos nesta questão e de alguma desilusão que te adivinho na tua apreciação do meu repto. Pois quando dizes que nunca imaginaste que poderias ser intimado (o itálico é teu) a explicar-te e a expor as razões (idem) subjacentes a tal iniciativa, não posso deixar de me achar visado. Fui eu que te pedi de precisares “em nome de quem, a quem e para quê” lançaste o teu desafio. E recusas de responder, fazendo tuas as palavras de Francisco José Viegas: “Não estou na disposição de discutir com ninguém a ideia de eu acender uma vela em homenagem às vítimas do Pogrom de 1506 e da Inquisição portuguesa. Eu vou. Não obrigo ninguém a ir. Não exijo que ninguém vá. Pedi a alguns amigos que me acompanhassem. A minha decisão é puramente individual, e quando escrevo «nós vamos» refiro-me aos que vão e querem ir. Portanto, não estou disposto a discutir aquilo que a minha liberdade individual e as minhas opções e crenças me levam a fazer. Aliás, não entendo nem a natureza da discussão nem o seu objectivo.” Sinto aqui bastante crispação que me parece toldar o raciocínio. O que pode ser razoável para o FJV, que não lançou este desafio, deixa-me algo perplexo da tua boca. Fazes um apelo, mas recusas-te a explicá-lo melhor a quem o solicita? Que devo concluir disto? Que me enganei, que o apelo não me era dirigido? Que a minha pergunta é tão absurda, que mais ninguém se interessará pela resposta? Ou que achas que o meu pedido de explicação não merece resposta por ser de má fé? E porque entendes o meu pedido como intimação? A minha pergunta não foi retórica. É verdade que, para a minha triste surpresa, também ouvi da boca de outro blogger que estimo muito, do Gabriel Silva, que essa pergunta constituia um processo de intenção. Tentei imaginar como lhe podia ocorrer essa ideia, e conclui que acha que quis insinuar motivos inconfessáveis. Mas por acaso só me ocorrem motivos confessáveis. No post O comentário do alemão apresentei duas possiveis leituras. Duas leituras muito claras e explícitas. Nenhuma delas indigna e escandalosa, só diferentes. Uma assumiu a defesa duma causa comum a todos a quem se dirige o apelo, outra a defesa duma causa particular. Acho que a possibilidade da leitura de que a comemoração teria como objectivo não só a memória, mas o reconhecimento duma dívida moral por parte dos portugueses para com o povo judeu, afasta possiveis apoiantes. Se esta leitura não é intendida, não seria melhor evitá-la, na medida do possível? Mas se ela também o é, não seria então melhor, em nome da transparência, deixar isto claro? (Eu pessoalmente não acho que intendes o reconhecimento duma dívida moral, mas percebo que alguém possa achar o contrário. Não estou 100% seguro que não o fazes, mas digo-o outra vez: reclamar esta dívida não seria escandaloso!) Dizes ainda: “Nada disto teria acontecido se os mortos não fossem judeus portugueses; se este desafio à lembrança e à preservação da memória não tivesse sido feito por um judeu; caso não tivesse partido de um blog marcadamente judaico escrito por um judeu. Este “questão” não existiria (nunca!) se eu não fosse quem sou…” É verdade. Só, porque o escreves confirmando uma observação minha, tenho de prevenir dum malentendido: Quando desejei que tivesse sido um não judeu (o Rui MCB) a lançar o apelo das velas no dia 19 de Abril, não entendi, obviamente, que se devia ou podia omitir o facto de que os assassinados do massacre de 1506 foram judeus e foram assassinados por serem judeus. Muito pelo contrário. Só que achava que teria sido melhor para o apelo, se ficasse acima de qualquer suspeita que ele foi feito para lembrar os nossos mortos, os nossos crimes, para o nosso bem. Ainda vou explicar melhor a minha insistência no “nós”... Felizmente acabaste por exprimir ainda de forma muito clara o que te moveu para o apelo. A memória. Eu acredito, mais, sei: A Rua da Judiaria é prova como estás empenhado na preservação, na reconstrução da memória dos judeus portugueses. E o sucesso do teu blogue é o reconhecimento do serviço que com isto prestas não só aos judeus mas também aos portugueses em geral. Mas com esta manifestação isto é diferente. Aqui não só tomamos conhecimento da história. Esta homenagem é um acto simbólico em que as pessoas participam partindo de pontos de partida diferentes. Para ti ela é a evocação de mais um episódio do sofrimento do teu povo judeu, nada melindrosa para o teu, o vosso amor-próprio colectivo. Para os portugueses não judeus, ela é o reconhecimento dum episódio vergonhoso, que mancha a época mais constituinte para o seu orgulho nacional. Para além da inevitavel ferida narcísica (perdoa-me o psicologismo) que o reconhecimento público deste crime constitui para a alma nacional, há um outro problema que agrave a resistência à homenagem: Que uns se sentem convocados pelos representantes das vítimas para participar nela como representantes dos assassinos. Para que os descendentes das vítimas e os descendentes dos assassinos consigam lembrar conjuntamente os mortos de 1506, é preciso construir um “nós” que abrange todos da mesma forma, e em que cada participante se assume tanto como representante dos perpetradores como das vitimas. O que é possivel, na irmandade que partilhamos num plano superior ao dos nossos povos, na nossa humanidade. Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral, sel 11.4.06
Há quem ache que com o post anterior corri um certo risco. O JPT disse que com ele o QeP se assumiu como blogue de referência (grande gargalhada!) e desde então deixei de ser o "simpatico alemão" e passo a ser "o c... do huno". O Dragão até entendeu de me dispensar da obrigação de linkar o seu contributo para o meu inquerito, pois não queria que me comprometesse a minha reputação! O silêncio com que foi recebido o desafio do Nuno Guerreiro parecia-me esconder mais do que indiferença. Fiz uma pergunta específica, mas não era só a resposta a ela que queria. O post vem na sequência da discussão que travei, nas últimas duas semanas, nomeadamente com a Helena do Dois Dedos de Conversa, sobre os limites da liberdade de expressão. Quis demonstrar que o tabu do anti-semitismo não só inibe as pessoas de dar opiniões insultuosas e de incitar a violência, mas também inibe a exposição de opiniões nada indecorosas que simplesmente são desfavoráveis em relação à causas judaicas. O que acho mal. Contava com algum eco, não com tanto. Contava com alguma emoção, algum ressentimento, mas não com tanto. No muito que se escreveu nos comentários aqui, nos outros posts, mas também nas caixas de comentários destes, a irritação, o ressentimento ultrapassa em quantidade e intensidade os comentários e posts ponderados. Mas houve excelentes contributos, que dão argumentos e que dão que pensar, e que por si só, para mim fizeram valer a pena o meu repto. Só como exemplos, um em favor do Não e um do Sim, destaco os posts do Miguel Silva e do Rui MCB, a quem ainda quero exprimir a minha admiração pela forma como se aguentou com uma paciência angélica num ambiente maioritariamente hóstil e carregado de emoção, para não usar outro termo mais forte. Fiquei admirado de que as pessoas que sentem tanta, digamos: irritação, com a proposta do Nuno Guerreiro que mesmo depois duma dúzia de comentários esta não lhes passou, não caiem em si e se perguntam a si próprios de onde toda essa raiva vem, e se isso não é ressentimento? (Sim, Zazie, essa é para ti, não só mas também.) Nem toda a irritação, nem todo o ressentimento será necessariamente anti-semitismo. Mas também houve-o inquestionável, apresento aqui um exemplo quase tocante na sua extrema candura, nesta pergunta num comentário a um post do Dragão: “Sejamos honestos... há alguém que goste de judeus?” Pergunta-se o que é a experiência de vida de quem acha natural que ninguém goste de judeus. Será que no seu dia-a-dia vê-se vítima deles, a si, os seus familiares, os seus vizinhos? Ou a resposta é do Umberto Eco, citada pelo Timshel? Será que exagerei, que abri uma “caixa de Pandora”? Respondo com um não convicto, e se abri, que acho que valeu a pena! Porém não ignoro, ou pelo menos imagino, que para o Nuno Guerreiro a leitura do que se escreveu aqui deve ser dolorosa: tomar contacto com tanta aversão, ressentimento, ódio. Para mim a seria, se estivesse no seu lugar. E fico genuinamente triste. Mas como disse, suprimir que ele se exprime não me parece melhor. O Nuno ainda não respondeu ao meu pedido de explicar em nome de quem, a quem e para quê lançou o desafio. Talvez ainda vai, talvez não queira responder. Eu achei-o importante. Porque, anti-semitismo a parte, a crispação resultou talvez dum malentendido. Pois o seu desafio pode ler-se: “Eu, português, desafio os meus compatriotas para que encaremos a nossa história de frente, em nome da verdade, em nome das vítimas de então e para que possamos, através de tomar consciência do perigo dos ressentimentos, evitar vítimas no futuro.” Mas também: “Eu, judeu, desafio os portugueses para assumir a vergonha dos crimes que eles cometeram contra os meus antepassados, e para reconher a sua dívida moral para com o povo judeu.” Ao primeiro apelo, entendo eu, qualquer português pode corresponder de bom grado. Ao segundo... Tenho a maior compreensão para os que mandam dar uma volta a quem faz o segundo. (Obviamente Portugal 2006 não se compara com a Alemanha 1945, nem com a Alemanha 2445.) E é verdade que o Nuno não está muito bem colocado para evitar a ambiguidade do apelo. Mesmo se quisesse, não vejo como se podia livrar da suspeita que não tem motivos da segunda. Por fim não quero furtar-me a responder a minha pergunta: Eu não vou acender uma vela, por causa da ambiguidade do contexto, e porque como estrangeiro que não tem nada a ver com este massacre, não me parece útil dar lições aos portugueses. Mas vejo com muito respeito e simpatia pessoas como o Rui MCB que o fazem. Tomara que teria sido ele a lançar o desafio! Etiquetas: alemanha, antisemitismo, cidadania, moral, sel 9.4.06
Linkei aqui ao lado os posts do Nuno Guerreiro sobre o Pogrom de 1506. Não fiz ainda eco do seu apelo de vir na Quarta-feira, dia 19 de Abril à Baixa de Lisboa e acender uma vela em sua memória. Alguns bloguistas juntaram-se ao apelo; sei de outros que, menos abertamente, mostraram o seu pouco entusiasmo com a ideia. Suspeito que entre os muitos que ignoram o apelo, há quem o faz para poupar-se de ter que discutir o seu desagrado com a proposta. Gostava muito de ouvir os argumentos de quem se incomóda ou irrita com o apelo. Como gostava de ouvir o Nuno explicar em nome de quem, dirigido a quem e para quê o fez. Uma discussão aberta e controversa sobre isto acharia muito mais útil do que a congregação, no dia 19, de umas centenas de pessoas bem intencionadas e emocionadas, e de um número que não sei estimar, mas acredito ser maior, a torcer, às escondidas, o nariz e a engolir um comentário desagradável. Adenda: Para além dos comentadores aqui em baixo já se pronunciaram o Musaranho do Cocanha, o Rui do Adufe, o Miguel do Tempo dos Assassinos, o LNT do Tugir, a Abrunho do Contemplamento, o JPT do Ma Schamba, o Dragão no seu Dragoscópio, o Marco do Povo de Bahá, a Helena no 2 Dedos de Conversa, a Ana Cláudia no Amigo do Povo, o João Tunes do Água Lisa 6, o AMC do Porque, o Francisco José Viegas da Origem das Espécies e a Carla do Elsinore. A ver também este post do Minicente com links para os vários posts que o Luis Carmelo escreveu sobre o assunto. O Luis da Natureza do Mal também apoia o apelo da Rua da Judiaria. Agradeço a quem me faculte links para blogues que tomaram posição em relação à questão das velas, que vou incluir nesta lista, enquanto não incluirei blogues que só referem o Pogrom de 1506 ou posts sobre ele. Claro que a caixa dos comentários está aberta para estes links. Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral, sel 6.4.06
Numa selva remota dum país longínquo, rezam relatos, grassa uma doênça horrível. Um parasita apodera-se do organismo, e embora não o matando, condena-o a uma vida de suplício, cansativa e penosa, pois consome toda a sua energia e tira-lhe qualquer esperança de alcançar objectivos com que podia ter sonhado. O parasita tem a especificidade de que, uma vez bem instalado, assume funções vitais do organismo, de maneira que a sua remoção põe em perigo a sobrevivência do hóspede. A medicina do país já elaborou e ainda elabora inúmeros tratados sobre as melhores formas de eliminação do parasita, mas na prática os curandeiros, bem como os próprios doentes, vêem, não sem razão, como inimigos perigosos os que querem aplicá-las. Ao contrário, eles estão empenhados em proteger e alimentar o parasita, em nome do bom senso, confirmado por longa experiência. Afinal viver é preciso. 31.3.06
Helena, li a tua resposta com muita atenção. É dificil respondê-la com a seriedade que merece num único post, e ainda mais difícil sem que isso se torne um exercício longo e maçudo (pelo menos para terceiros). Alguns tópicos também interessantes, como o do ódio da mulher judia que conheceste e as anedotas do horror, deixo - por enquanto - de fora, os outros tento aqui tratar em separado por parágrafos. Sobre o estudo em questão volto a não me pronunciar. O meu post não quis meter-se na discussão sobre se ele é correcto ou errado, de boa ou de mã-fé, anti-semita ou não. Ele era sobre a provocação do Dragão e das reacções que ele provocou, e sobre a sua tese original, ou seja, nâo a do estudo citado, mas de que o discurso sobre “os judeus” está condicionado, pela ameaça de classificação sumária de anti-semitismo. Apoiei esta tese e ainda defendi que o post não é racista (excluindo o relatório desta questão). Sobre a linguagem: Criticas a minha defesa do termo “pencudos” e o termo “os judeus” que empreguei no meu post. Aqui tenho efectivamente alguns pontos a corrigir, porém talvez noutros termos como esperas. “Pencudos”: Tinha um familiar que se referiu invariavelmente aos asiáticos como “olhos obliquos” (“Schlitzaugen”). Mesmo quando o fazia num contexto aparentemente inócuo, ao falar das suas viagens como turista “Neckermann”, isso incomodava-me a mim e os demais ouvintes na família, pois na verdade era impossível não reparar no ressentimento subjacente e na boçalidade da postura. Da mesma forma, quem por hábito se referia aos judeus como “pencudos”, deixaria transparecer o mesmo ressentimento e igual falta de educação. Assim, não vou perder tempo a discutir contigo se a minha ressalva, em que disse que a denominação dos judeus como “pencudos” [...] teria, à partida, nada de racista, foi suficiente. Melhor teria feito ao admitir desde já que “pencudos” obviamente foi e pretendeu ser depreciativo. (O Dragão me corrija...) Mas mantenho, mesmo assim, que o título “O Sacrossanto Lobby dos pencudos” é perfeitamente legítimo, e não só à luz da defesa abstracta da liberdade de expressão. Não me ocorreu por um momento que o Dragão seria pessoa para chamar por regra “pencudos” aos judeus, à maneira do meu tio; estava e está claro para mim que usou a expressão intencionalmente, num registo irónico, retórico, isto é: literário, no caso até claramente identificável como tal. Assim ela deixou de ser um indício dum ressentimento racista. E como não me interessam as palavras, mas a ideia subjacente, que aqui era a provocação de reacções como a tua para ilustrar a sua tese, não tinha e não tenho nada a objectar ao título daquele post. Também fizeste-me um reparo ao meu emprego do termo “os judeus”, que aceito no caso em que falei do “lobiismo político dos judeus” (no último parágrafo). Aqui deveria ter dito “lobiismo político judeu”. Mas não no exemplo por ti apresentado: “O livre discurso sobre questões relacionadas com os judeus”. Como podia dizer isto de outra forma? Não haverá questões relacionados com os judeus? Será que isto não existe, “os judeus”? Claro que existe. Não foram perseguidos e assassinados no holocausto judeus, ou seja pessoas que acidentalmente eram judeus, mas os judeus. E não só o inimigo define os assim. O Nuno Guerreiro não está a documentar a história de, mas dos judeus portugueses. A receita alemã: Dizes, e quem pode negá-lo, que “a mistura entre informação, trabalho individual de tomada de consciência dos preconceitos subjacentes aos discursos, e inclusivamente a censura de certas expressões”, teve resultados muito positivos no combate ao anti-semitismo e o racismo no país do Holocausto. Hoje estes males ali não são mais expressivos do que noutros países vizinhos. Talvez numa sociedade que acabara de sair do Império dos Mil Anos, a criminalização do discurso racista e a censura da linguagem realmente foram necessárias. Mas custa-me de aceitá-lo, por uma objecção de princípio. Acredito na informação, no trabalho de tomada de conciencia dos preconceitos subjacentes aos discursos sim, na censura de certas expressões não. Já discordámos sobre isto na ocasião do debate sobre os cartoons dinamarqueses. Não gosto das medidas coercivas e nomeadamente não confio nos seus resultados. Elas suprimem, mas não vencem o ressentimento. As primeiras duas apostam na liberdade e na responsabilidade do homem, a última pretende e consegue comportamentos irreflectidos e irracionais. Talvez perguntar-me-as, se acho realmente que a minha insistência piquinhas na ideal e pura liberdade terá qualquer importância, perante uma receita que tem tido tanto sucesso a prevenir um novo Holocausto? Não qualquer crime: um Holocausto. - Respondo: Sim, acho. Pois não é secundário apostar na liberdade e responsabilidade. Para quem acredita na possibilidade de que a luta contra o mal não se limita a uma eterna luta defensiva, a resposta só pode ser sim. A censura, a regulamentação da linguagem podem assegurar hoje o efeito desejado, mas amanhã, como já ontem foi o caso, outra censura, outro condicionamento da linguagem assegurarão semelhante efeito, mas para um objectivo inverso. Por isso, a insistência na liberdade de expressão não é um luxo, não é excesso, não é algo para que, como o Diácono Remédios diria, “não havia necessidade!” Há necessidade, sim! Criticar Israel sem ser anti-semita: Apresentas um - aliás excelente - site alemão como exemplo como é possível criticar a política de Israel sem ser arrumado no campo anti-semita. Este site é um bom sinal, e certamente haverá outros. Mas a sua existência não desmente o condicionamento da discussão pública da política de Israel pela ameaça de ser classificado como anti-semita. O artigo de Ralf Dahrendorf, que recentemente comentei, ilustra-o de forma flagrante. Um último aspecto, talvez um pouco lateral ao debate, mas importante: Depois do choque de se confrontar com o indizível crime cometido pelos seus compatriotas, muitos alemães de bem desenvolveram nos anos a seguir ao Holocausto um filo-semitismo, uma reacção inspirada por sentimentos de vergonha e culpa e com a vontade de reparar, de compensar algo, mesmo ciente de isto ser, no essencial, impossível. Muitas alemães um pouco mais velhos do que eu foram por exemplo trabalhar durante uns meses num kibbuz. Sendo os judeus os príncipais vítimas, apoiá-los, identificar-se com eles foi uma resposta natural. E instalou-se uma equação moral simplista, que rezava mais ou menos ser decente = ser contra o holocausto = ser filosemita. O que se quase esqueceu era que o Holocausto nos obriga não só em relação aos judeus. Mais do que a expressão extrema do anti-semitismo, o Holocausto foi a falência da mais elementar humanidade. Por isso o primeiro mandamento a formular a partir desta experiência não deve rezar “Não sejas anti-semita!”, mas “Não abandonarás a tua humanidade!” Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral, sel 27.3.06
Um post do Dragão, que foi publicado já há alguns dias, deu origem a um debate, por vezes azedo, sobre a sua propriedade e o seu conteúdo eventualmente anti-semita. O post é simples. Faz referência a um estudo americano que descreve o (suposto?) poder do lóbi judeu na política externa americana. Para além da citação, o Dragão prediz as reacções indignadas – censórias - ao seu post, e para que a sua previsão se cumpre, escolhe um titulo provocatório: “O Sacrossanto Lobby dos pencudos”. Teve sucesso. Entre outros, a Helena deixou-se provocar, e surgiu o debate em que ainda participava, com destaque, a Zazie. Não li o tal estudo, por falta de tempo e de pachorra: se ele está mal ou bem feito não sei, para mim está adquirido que os judeus têm um lóbi poderoso nos EUA e não só, não está adquirido que isto é algo em si censurável. Agora, se o livre discurso sobre questões relacionados com Israel ou os judeus está condicionado pela omnipresente ameaça de se ser moralmente e sumariamente disqualificado como racista e anti-semita, já me interessa muito, não só em nome da liberdade de expressão como em nome da justiça e da razão. E está, não há dúvida. Ainda há dias apontei-o num artigo duma pessoa tão respeitável e lúcida como Ralf Dahrendorf . E o Dragão não está só ao sentir a mordaça, ao sentir de que não se pode dizer com a-vontade o que se pensa sobre esta questão. Para mim e para os alemães em geral a auto-censura neste domínio tornou-se virtualmente uma segunda natureza. Uma segunda natureza ainda incómoda para quem não interiorizou o tabu de tal maneira de que este deixa de acusar a sua existência. Para este ele significa um permanente peso na consciência, a noção duma deficiência moral. Como se o anti-semitismo fosse uma doença, um vício que ainda não conseguímos erradicar completamente, que, aliás, porventura será impossivel de erradicar em nós e por isso nos obriga ao combaté-lo eternamente... Um preço que estariamos, os alemães, talvez justamente a pagar, enquanto povo, se acreditasse que povos deviam pagar preços, e pagável comparado com outros preços que outros povos tiveram de pagar. Mas claro que não acredito nisto, não acredito em limitações do pensamento, que infelizmente e invariavelmente decorrem de tabus. Por isso, embora que não aprecio especialmente o estilo do Dragão, que frequentemente substitui uma argumentação leal pela sua retórica draconiana, simpatizo aqui com a sua provocação e suprimo o bem adquirido reflexo pavloviano de sacar o cacete do anti-semitismo. A denominação dos judeus como "pencudos" ou dos membros de etnias africanas como "pretos" tem, à partida, nada de racista, e deduzir do facto de que essas expressões são usados no discurso racista a sua proscrição é um exercício do politicamente correcto, que mostra a sua qualidade lamentável, que é a preguiça intelectual. Não há nada mais nocivo para a inteligência do que o cerceamento da linguagem. Eu sei que a crítica da Helena ao post não se centra só no “pencudo”, mas sim no estudo referido e a sua alegada tese que, como disse, não li, mas acredito na Helena e no Dragão que seja essa, de que a política externa dos EUA está refém dum lóbi judeu poderoso e por ele é levado a agir contra os próprios interesses e os de grande parte do mundo. Se isto é o caso ou não, acho eu, devia poder discutir-se sem que se chame logo anti-semita a quem o defende. Devia, mas é de facto impossivel. Detesto teorias de conspiração, e algumas das teorias mais detestáveis foram usados contra os judeus – aliás, seguramente são eles que levem a taça no campeonato mundial dos objectos de teorias de conspiração – mas não decorre da detestabilidade delas que não existem conspirações. Curioso salto de raciocínio: Porque estou a falar em conspirações? Só falavamos em lóbi. Aí está o problema: Basta alguém referir um lóbi judeu cuja influência ultrapassa as fronteiras dum país, vêm nos irremediavelmente à cabeça, entre outro, “os Protocolos dos Sábios de Zion”, e a “Conspriação do Judaismo Mundial”, tão badalada pelos Nazis, e colocamos o pobre diabo na desagradável companhia dos defensores destas teorias, e identificamo-no com os seus objectivos. Na prática isto significa que na discussão do lobiismo político dos judeus só ha dois campos: Os que defendem que este não existe ou que não existe nele nada de criticável, e os anti-semitas. Isto não é aceitável. Etiquetas: antisemitismo, cidadania, moral, sel 10.12.05
P: Se um governo continua a permitir e encobrir a violação sistemática dos direitos humanos por serviços que lhe estão subordinados, acha sustentável votar nele, porque porventura concorda com a sua política noutros assuntos? 7.12.05
P: É contra a tortura? R: Sou. P: Incondicionalmente? R: Incondicionalmente. P: Há poucos anos ficou público um caso na Alemanha, em que um interrogador da polícia judiciária alemã ameaçou um suspeito raptor – capturado na entrega do resgate – de tortura para conseguir que este revelasse o paradeiro da criança raptada. O interrogador foi julgado e condenado. Concorda? R: Sim. P: Acha ímoral o procedimento do interrogador, que colocou a vida da criança rapatada – que aliás já tinha sido assassinado pelo raptor, como se provou posteriormente – acima da integridade física do provável raptor? R: Não necessariamente. Admito que a ponderação de bens que levou o interrogador à proceder como fez possa ser moralmente consistente. Neste caso, porém, agiu mal, em termos morais, ao integrar as forças policiais e ao aceitar as funções de interrogador. P: Defende então quem exerce um cargo público como polícia submete a sua moral individual às ordens que recebe? R: Não às ordens que recebe, aqui pode haver casos em que deve contrariá-las, mas aos prerrogativos constitucionais do estado que decidiu servir como polícia. Se não pode fazê-lo, não deve serví-lo. P: Voltando à escolha moral: Antes de torturar o presumível raptor, deve aceitar-se a morte da criança raptada? R: Sim. O bem de todos viverem num estado em que a tortura está excluida em todo o caso, vale mais do que a vida duma criança em concreto. P: A CIA e o governo americano negam que esta pratica tortura, admitem no entanto metodos duros do "debriefing". Não foram expressamente negados métodos concretos, como o asfixiamento temporário (simulação de afogamento), a privação de sono, a exposição ao frio. Considera estes métodos tortura? R: Obviamente. P: E prisões secretas, a negação de garantias mínimas do estado de direito, como o contacto com familiares, um advogado, um regime legal e apelável da sua situação, como aquelas cuja existência se revelou agora, fora dos EUA? Recusa as também incondicionalmente? R: Sim. P: A Secretária de Estado dos EUA chamou a atenção ao que as práticas da CIA servem para salvar muitas vidas. Mantém a sua recusa categórica? R: Sim. Pelas razões acima expostas no caso do rapto da criança. P: Acha que as democracias e o estado de direito, isto é, as liberdades cívicas e os valores ocidentais são possíveis defender sem o recurso a medidas destas em casos extremos? R: Acho que sim. O que acho dúbio é que as democracias e o estado de direito, as liberdades cívicas e os valores ocidentais são possíveis defender se houver aceitação do recurso a medidas destas. P: Todos os estados têm serviços secretos, também as democracias e os estados de direito. Não concorda com a necessidade de que eles possam também agir fora da esfera do estado de direito? R: Recuso um regime de excepção que nega direitos fundamentais como os acima referidos. P: E a prática também? R: O que está a sugerir é uma moral dupla como a se conhece dos filmes do género. Do tipo: "A pátria precisa e quer que ages contra a lei, mas se fores apanhado, estarás por tua conta." No que diz respeito a violações de direitos humanos, nunca a considero aceitável. P: Se lhe fosse demonstrado que a defesa dos nossos valores não seria possível sem recurso a estes meios, mudava a sua posição? R: ... P: Não tem resposta? R: Não. 30.11.05
Claro que o k-sssss é reles, nojento, convite clandestino e cobarde. Nunca k-ssssei nenhuma rapariga. Mas já mandei assobios e convites dum lado da rua para outro. Acabado de sair do liceu, trabalhei por uns meses nas obras. Era normal procurar um emprego para fazer algum dinheiro, - não para viver, pois ainda viviamos em casa dos pais, mas para a aparelhagem, umas férias, ou para a mota – e para ocupar os meses antes do começo do serviço militar ou civil, ou da faculdade. Trabalhar nas obras era o mais respeitado: aqui ganhava-se mais, mas também era o mais duro. Condizia com o que achei exigível ao meu estatuto entre os amigos, nestes tempos, tê-lo conseguido, e é verdade que ainda hoje não queria prescindir dessa experiência, embora ou porque durante as primeiras semanas chegava à casa literalmente de rastos, sem mais força do que para um banho e para cair na cama; e embora ou porque tinha de enfrentar os preconceitos e a suave hostilidade dos operários de vida inteira, que só estavam à espera de que o menino fino martelava o dedo, entornava o carrinho de mão ou fraquejava ao empilhar os tijolos. Mas depois de ter sido inúmeras vezes o moço de recados para os serviços mais baixos como limpezas ou buscar a cerveja; depois de ter sido vítima de gozos de velha tradição, como ser mandado buscar os “pesos da balança de água”; depois de ter arranjado coragem para mandar a merda um colega superior na hierarquia (estavam todos), e recusar outra exigência de serviço cujo único fim foi evidenciar o meu lugar hierárquico, ganhei o respeito deles e tomei mesmo gosto no que fazia. Também já não caia na cama no fim do trabalho, restava-me força entretanto para ir ao pub, beber copos e exibir a massa muscular recem-adquirida. Comparado com muitos outros trabalhos físicos, trabalhar nas obras é um privilégio, não só porque se faz uma coisa que se vê crescer, mas também porque não se trabalha num espaço fechado, mas literalmente na rua, no espaço público. Enquanto se continua na rotina de esforço, o mundo está lá a nossa volta, lembrança aliciante da vida bela e livre. É assim. Uma pessoa já passou a manhã inteira no andaime, suada e cheia de pó, quando de repente, lá no passeio do outro lado da rua caminha uma rapariga bem feita ou talvez nem tanto, em mini-saia, ou talvez não, já não o quero jurar. Ah que deleite! Um rasgo de sol ilumina o estaleiro por um momento maravilhoso, toda a gente pára, deixa cair o que tem na mão, e chovem os piropos, assobios e convites sobre a rapariga, que, como quem não ouviu nada, continua majestosamente o seu percurso, sem virar a cabeça. Quinze segundos depois, cada um está de volta a fazer o que fez, comentando o que teria feito com a rapariga, se não tivesse, merda, neste momento de trabalhar... |
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