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  • 22.7.07
    Fábula

    Num país fictício, um ditador louco acabou por concluir que toda a lástima que estava o seu país, era culpa dos seus cidadãos cujos apelidos começavam com a letra A. E com uma energia e uma brutalidade nunca antes visto, chegou a impor ao seu país a solução final deste problema: o extermínio de todas as pessoas cujo nome de família começava com a letra A.
    Não com o apoio, mas também sem resistência da restante população, que até tinha saudado a sua chegada ao poder, embora não acreditado que ele fosse tão longe, pôs em prática o seu projecto, servindo-se do aparelho de repressão poderoso de que dispôs. Não poupou nem homem nem mulher, nem velhinho nem bebé, e conseguiu exterminar mesmo todas as famílias A, excepto um resto ínfimo que de uma ou outra forma conseguiu escapar.

    Cinquenta anos volvidos, e desaparecido o ditador de má memória, os cidadãos da capital deste país fictício olham para o seu Museu da Cidade, e apercebem-se da ausência das famílias A. Lembram-se de como o seu contributo para a comunidade tinha sido grande e determinante, até ao momento do seu extermínio. E lembram-se como horrível e triste é terem sido assassinadas. Decidem então dedicar um departamento do seu museu à memória destes concidadãos, e de dar-lhe destaque, para compensar que eles, ao contrário das famílias com outros apelidos, hoje não têm presença na vida da cidade, e assim não podem, como estes, passar o seu património cultural às futuras gerações por herança familiar. Decidem ainda dar relevo ao acontecimento histórico, insólito na sua perversão, que foi o seu assassinato em massa organizado.

    Um dia, vem um turista dum outro país e irrita-se com este museu. Acha que está mal. Que não devia estar na cidade onde estas famílias viveram. Se teria que existir de todo, devia estar num país longínquo, num onde alguns sobreviventes das famílias A tinham conseguido refugiar-se. Mas não devia estar na cidade onde viveram e hoje fazem falta.

    Os cidadãos do país fictício olham para o turista com ar incrédulo: Seguramente, o homem não bate certo!
    Ou talvez não goste das famílias A.

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