<$BlogRSDUrl$>




  • 5.1.07
    Economia de sofrimento (rel.)

    Este é um post de 2004, que por razões de actualidade aqui republico, ligeiramente modificado.


    Oiço, de vez em quando, argumentos racionais e pragmáticos no debate sobre a pena de morte: se existe ou não um poder dissuasor da pena, os riscos de erro de justiça etc. Mas não me livro da impressão que esses são sempre argumentos secundários, apresentados para reforçar e justificar convicções mais profundas, de orígem metafísica. E como na questão do aborto, não me lembro ter visto uma vez alguém mudar de opinião em virtude dum argumento. Antes ainda na sequência de uma experiência, ou dum exemplo, como agora o caso Dutroux.
    Parece-me que há, subjacente às posições em favor e contra a pena de morte, duas formas distintas de cálculo. Num lado uma economia da culpa, segundo a qual raciocinam os defensores da pena capital, e noutro o que quero chamar uma economia do sofrimento.
    Os crentes na economia da culpa acreditam que uma pessoa deve e pode pagar pelo mal que faz. E não no sentido de reparar os danos. A pena de morte não repara danos. (A única coisa que o condenado pode dar às suas vítimas, isto é, aos eventuais familiares e amigos das suas vítimas, com a sua morte, é a satisfação da vingança. Pouca coisa para uma vida.) Uns acreditam que o delinquente deve pagar porque assim se redime. Outros, nem isso. Basta-lhes a ideia do acerto das contas.
    Esta ideia pressupõe que existe uma via de - se não equilibrar as contas (como pode um Saddam Hussein ou um simples serial-killer pagar adequadamente?), pelo menos fazé-lo parcialmente. Mas o resto que continua, mesmo calculando assim, tantas vezes ainda enorme, também eles têm que deixar para a justiça dum outro mundo...

    Quanto a mim, não consigo ver as coisas assim. Não acredito que algo fique melhor através da inflicção de mais um sofrimento. Assim não se reduz o mal, não se subtrai nada, soma-se. O que acho estúpido e uma traição à nossa humanidade. Porque perante o sofrimento e a morte somos todos irmãos, até eu e Saddam. Une-nós a nossa condição vulnerável, efémera, e irrepitível.

    Sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes. Mesmo ao pior.

    This page is powered by Blogger. Isn't yours?

    Creative Commons License