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  • 3.11.06
    Diálogo

    A: Sou contra o aborto.
    B: Porquê?
    A: A vida humana é sagrada.
    B: Pode explicar, a um agnóstico, o que significa isto: sagrado?
    A: Merecedor de admiração e respeito absoluto. Inviolável.
    B: Inviolável. Sem excepção? Não admite sacrificar uma vida humana nem para salvar outras?
    A: Preferia não ser colocado na posição de fazer esta escolha.
    B: OK. Mas condena quem age, estando nesta posição?
    A: Não.
    B: O polícia que atira para matar, para salvar reféns?
    A: Talvez não...
    B: O médico que tem de optar entre a sobrevivência do embrião o da mãe?
    A: Penso que deve escolher a mãe.
    B: Decorre daí que dá mais valor a vida nascida, a da mãe, do que a do embrião, não é?
    A: É verdade.
    B: Então diferencia o valor da vida. Uma vida humana nascida vale mais do que uma vida ainda por nascer. E estou em erro se presumo que atribui à vida dum feto de sete meses mais valor do que a dum embrião de sete semanas?
    A: Preferia não usar o termo valor.
    B: Não sei o que este termo tem de desadequado no caso. Mas sabe qual seria a sua escolha?
    A: Sim.
    B: Então o valor da vida não é absoluto, para si.
    A: É, sim! Mesmo admitindo que faria escolhas entre vidas a proteger, se fosse obrigado a fazê-lo, todas são sagradas e têm valor absoluto e não cedível contra outros valores.
    B: Defende a manutenção da lei actual?
    A: Sim.
    B: Por razões tácticas, porque julga uma lei mais restritiva actualmente não é realista alcançar, ou por convicção?
    A: A lei actual parece-me equilibrada.
    B: A lei actual permite a interrupção da gravidez nos casos de perigo da vida e saúde da mãe, da previsão de malformações graves da criança por nascer e ainda no caso da violação da mãe. Não acha que ela é muito mais permissiva do que a sua posição aqui defendida?
    A: Talvez.
    B: Você disse que a vida humana deve ser inviolável, excepção feita no caso em que uma escolha entre vidas a proteger é inevitável. Como então justifica o aborto no caso da previsão de malformações da criança? Ou no caso da violação?
    A: ...
    B: Só há duas explicações: Ou a vida da criança por nascer tem valor inferior por ser fruto de violação, ou por ser deficiente, e passa por isso a ser sacrificável, ou o bem-estar da mãe, da família, que se teme ser prejudicado pelo nascimento da criança, entra na equação. O que contradiz a sua declaração do princípio da inviolabilidade.
    A: Refuto a ideia da menos-valia da vida duma pessoa deficiente, para não falar do caso da violação!
    B: Então...
    A: Então em coerência não devia concordar com o disposto na lei nesta questão.
    B: E não concorda?
    A: Bem. Em teoria, não. Mas em concreto, não me é fácil exigir isso de outrem.
    B: Como sabe, o referendo sobre o aborte é sobre a sua despenalização, não sobre a escolha moral correcta da pessoa que aborta.
    A: Sim. É verdade. Por isso, só por isso, poderei continuar a apoiar a lei vigente, embora esta agora me suscita dúvidas, muitas dúvidas aliás no caso da violação. Porque entendo que a lei também deve servir como aviso sobre o que é a escolha moral correcta. E a escolha moral correcta é não abortar uma criança fruto de violação ou deficiente.
    B: A lei não é só um aviso. Uma lei penal é coerciva, não é?
    A: Dá me argumentos para manter o meu apoio à lei vigente.
    B: Não acha que pode haver, para além da violação e da malformação da criança outras situações em que uma gravidez indesejada pode ter um impacto igualmente violento sobre a vida da mãe?
    A: Igualmente seria dizer muito...
    B: A sério!
    A: Não acredito que na grande maioria dos casos dos abortos que se praticam, o “igualmente” se justifica. Mas pode acontecer, sim.
    B: E nestes casos, sim ou não igualmente violentos, a mãe é coercida pela lei de ter o filho.
    A: Ou aborta clandestinamente.
    B: Ou aborta clandestinamente.

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