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  • 9.3.04
    Economia de sofrimento

    Oiço, de vez em quando, argumentos racionais e pragmáticos no debate sobre a pena de morte: se existe ou não um poder dissuasor da pena, os riscos de erro de justiça etc. Mas esses são sempre argumentos secundários, apresentados para reforçar e justificar convicções já fortalecidas. Porque as convicções nesta questão são quase sempre convicções metafísicas, e como na questão do aborto, não me lembro ter visto uma vez alguém mudar de opinião em virtude de um argumento. Antes na sequência de uma experiência, ou dum exemplo, como agora o caso Dutroux.

    Parece-me que há, subjacente às posições em favor e contra a pena de morte, duas formas distintas de cálculo metafísico. Por um lado uma economia da culpa, segundo a qual raciocinam os defensores da pena capital, e por outro o que quero chamar uma economia do sofrimento, dos que estão contra.

    Os crentes na economia da culpa acreditam que uma pessoa deve e pode pagar pelas males que faz. E não no sentido de reparar os danos. A pena de morte não repara danos. (A única coisa que o condenado pode dar às suas vítimas, isto é aos eventuais familiares e amigos das suas vítimas, com a sua morte, é a satisfação da vingança. Pouca coisa para uma vida.)
    Acreditam que o delinquente deve pagar porque assim se redime. Ou, talvez nem isso, mas em virtude de uma ideia de que se corrige algo com a sua morte...
    Esta ideia pressupõe que existe uma via de - se não equilibrar as contas (como pode um Saddam Hussein ou um simples serial-killer pagar adequadamente?), pelo menos fazé-lo parcialmente. Mas o muitas vezes enorme resto, que fica, mesmo calculando assim, também eles têm que deixar para à justiça de um outro mundo...

    Quanto a mim, não consigo ver as coisas assim. Sou daqueles que não acreditam que algo fica melhor através da inflicção de mais um sofrimento. Não acredito porque a minha economia metafísica, por assim dizer, é outra: Acredito que todos nós, humanos, estamos juntos, embora também perante a possibilidade da felicidade, mas antes de mais perante o sofrimento certo e a inevitabilidade da nossa morte. Acredito que deste facto, da nossa condição humana, decorre uma solidariede, cujo nome acertado é compaixão.

    Excluir algum humano desta solidariedade, tão mal que ele seja, não me parece fazer sentido e não me parece certo. Porque - ainda falando em termos metafísicos - atinge todos nós, a humanidade.

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